A indústria dos videojogos é, muito possivelmente, o ramo de entretenimento em que a nostalgia mais influência exerce sobre os seus consumidores. Muitos daqueles títulos aos quais dedicamos horas quando eramos mais jovens até podiam não ser grandes obras-primas, mas continuam, ainda hoje, a ter um lugar especial no nosso coração. O mesmo serve para séries que atingiram um patamar elevado de popularidade e que, por uma ou outra razão, desapareceram do mapa e se afastaram das luzes da ribalta. A ausência de novos jogos de séries que os jogadores têm especial apreço faz com que quando essa tão aguardada entrada seja recebida com expectativas elevadíssimas e que na maioria das vezes acabam por não ser correspondidas.

Este era um dos principais obstáculos que a nova imaginação de Strider produzida pela Double Helix tinha para superar, agora que finalmente chega ao mercado. O regresso de um dos ninjas mais capaz e reconhecido da indústria conta com um forte legado ao qual tem de fazer justiça. A mais recente entrada da série data de 2000, ano em que o título de ação protagonizado por Hiryu foi lançado na PlayStation original, e agora, 14 anos depois, o estúdio sedeado na Califórnia tenta a estóica tarefa de ressuscitar uma série querida de muitos jogadores, enquadrando-a no panorama atual dos videojogos.

Tal como no título original, a história é bastante simples e serve apenas como pano de fundo a tudo aquilo que o jogo vos coloca pela frente durante as situações de combate. Apesar de estarmos perante um revigorar da série, a narrativa não sofreu grandes alterações em relação à obra primária. Assumindo o controlo de Hiryu, ninja formado através do programa de treinos Strider, o jogador é colocado numa versão futura do planeta Terra que sofre sob a ditadura opressiva e sem escrúpulos de Grandmaster Meio, um ser superpoderoso capaz de destruir todos aqueles que a ele se opõe sem qualquer esforço. Como é óbvio, toda a campanha do título passa por libertar a Terra do domínio do grande vilão.

Na sua essência, Strider é um título de ação side-scrolling a 2.5 dimensões com várias mecânicas mais frequentes em jogos de plataformas. À medida que vão avançando na campanha, Hiryu ganhará novas habilidades que, não só serão fulcrais nas futuras sequências de combate, como também para aceder a locais anteriormente bloqueados. Encaixando-se na categoria dos jogos designados Metroidvania, Strider conta com um vasto mapa que terão de explorar por diversas vezes para conseguirem obter todos os itens espalhados pelo seu mundo, entre os quais estão melhorias de saúde, energia e habilidades especiais, mas também arte conceptual e informações extra sobre a narrativa. No entanto, o facto de o mapa ser bastante extenso e estar dividido em várias áreas aliado à ausência quase total de meios de viagem rápida prejudicam um pouco a exploração, sendo que terão de enfrentar largos minutos de retrocesso por cenários previamente explorados.

Uma das características que está intrinsecamente associada à série é o ritmo alucinante do seu combate. A agilidade e a velocidade de Hiryu são de longe as nossas maiores armas durante toda a experiência. Ainda assim, o protagonista está também munido de armas, denominadas Plasma, que serão essenciais para quebrar o escudo de determinados inimigos. O problema está no facto de que, apesar dos efeitos de cada um dos quatro Plasmas que podem ser alterados em combate com o simples pressionar de um botão direcional serem fáceis de distinguir, o jogador acaba por não sentir grande diferença entre estes à medida que dizima vários inimigos em escassos segundos, sendo a cor o único elemento visual que os diferencia. Cada Plasma está igualmente associado a uma habilidade especial que permitirá realizar ataques devastadores e que serão especialmente úteis nos momentos mais complicados.

O combate é o foco principal de toda a experiência Strider. Desta forma, é um pouco desolador que os inimigos padrão não sejam mais variados. Enfrentar durante horas e horas pequenas variações, seja pela cor do seu equipamento ou pela arma que carregam, do mesmo inimigo confere um tom mais repetitivo do que seria desejado, especialmente porque a maioria destes nunca representam um grande desafio. De uma forma geral, a mais recente aventura de Hiryu não é tão difícil como alguns poderiam esperar quando jogado na dificuldade Normal. No entanto, este aspeto apenas serve para realçar ainda mais os momentos em que o título decide elevar considerável e repentinamente a dificuldade, dando origem a batalhas que não são mais que um simples exercício de frustração.

Estes picos de dificuldade seriam aceitáveis se o jogo nos fizesse sentir que a culpa para o nosso falhanço redondo fosse verdadeiramente nossa, mas tal raramente acontece. Alguns inimigos quando colocados em conjunto contra o protagonista conseguem combinações de ataques em que mais do que perícia para nos desviarmos como um verdadeiro ninja, aquilo de que precisamos é de uma boa dose de sorte enquanto saltamos e deslizamos pelos cenários. Este problema fica também evidente nas batalhas com os Bosses numa fase mais terminal do título. Se os primeiros são exigentes e obrigam-nos a utilizar criteriosamente a utilizar todas as nossas habilidade, os últimos consistem em repetitivas batalhas em que passarão mais tempo a tentar evitar os ataques do inimigo do que a infligir algum dano no mesmo, ficando sempre a sensação de que é quase impossível evitar todas as suas ofensivas. Ainda assim, esta dificuldade faz com que as batalhas provoquem uma verdadeira sensação de orgulho após serem superadas. Destaque ainda para os poucos pontos de controlo e de gravação que poderão levar a alguns momentos de repetição, especialmente antes das batalhas com os Bosses.

Para além da campanha principal, que poderá muito bem manter-vos ocupados durante mais de uma dezena de horas, Strider conta também com dois modos de desafios que são desbloqueados através da exploração feita na campanha. Sobrevivência, tal como o nome indica, consiste em tentar sobreviver a um determinado número de inimigos, derrotando-os no menor tempo possível. Já Beacon Run testa a velocidade e agilidade do protagonista na exploração do cenário, percorrendo um determinado cenário o mais rápido possível. Embora sejam interessantes, estes dois modos não passam de pequenas distrações para os interessados em lutar pelas melhores classificações nas tabelas de líderes.

Graficamente, o título da Double Helix é bastante interessante e apelativo, contando com um estilo visual que lhe confere uma identidade própria. Não deixará ninguém de queixo caído, mas será um belo pano de fundo a toda a experiência. O estilo visual é também transportado para as curtas e escassas cinemáticas, tornando toda a obra mais coesa. No que diz respeito ao departamento estético, Strider apenas peca por repetir demasiadamente os mesmos cenários, especialmente em espaços interiores. Por outro lado, a banda sonora deixa a desejar pois, apesar de contribuir para o ritmo acelerado do título, é pouco diversificada e nunca sofre grandes alterações no seu ritmo. O trabalho de voz é, de um modo geral, sólido, mas cai várias vezes no exagero e no ridículo, sendo que a constante repetição das mesmas frases durante os combates e a exploração não ajudam em nada a obra.

O regresso de Strider às luzes da ribalta está longe de ter sido imaculado, mas a obra entregue pela Double Helix mostra que existe ainda muito potencial nesta série para ser explorado. Como título de ação, a nova aventura de Hiryu é uma experiência de qualidade, mas alguns problemas e falta de variedade na sua componente principal, o combate, acabam por prejudicar decisivamente o produto final.