Os videojogos, na sua fase de desenvolvimento, quando se focam na narrativa, têm um problema comum para ultrapassar: ter uma forma eficaz de entregar a história que querem contar. Summer in Mara resolveu abordar a entrega da narrativa com um encadeamento de tarefas, mas infelizmente, a longo prazo, peca pela originalidade. Este jogo espanhol dá-nos um conjunto de pequenas histórias enquanto nos divertimos a explorar e a ser um estafeta de um paraíso tropical.

As consolas são uma das melhores formas de nos afastarmos dos nossos problemas da rotina diária. E, neste nosso novo quotidiano, é uma afirmação que faz cada vez mais sentido. Se este mundo não nos dá razões para sorrir, o que não faltam são universos, mundos e localidades diferentes para nos abstrair desta nova e complexa problemática de saúde pública. Neste caso, podem visitar um grande arquipélago em Summer in Mara, uma obra criada em Valência, Espanha. O propósito de Summer in Mara é explorar, cuidar da Natureza e conhecer os segredos escondidos em Mara - o seu vasto oceano e as várias ilhas do seu arquipélago. 

Summer in Mara vai levar-vos a controlar uma jovem órfã, Koa, que perdeu a sua avó adotiva e, por isso, acabou por ficar responsável por cuidar de Mara e da sua ilha residencial. A história principal é relativamente superficial e é certo que está longe de ser original, cheia de profecias com destinos pré-determinados há séculos. Felizmente, na maioria das vezes, esta parte da narrativa permanece relegada para segundo plano, sem interferir com os importantes ritmos e rotinas de gestão das nossas actividades nas ilhas. 

Para começar, a vossa ilha natal é um lugar selvagem, com áreas de cultivo cobertas de vegetação e abrigos de animais destruídos. Pouco a pouco, vão poder recuperar os estragos; será importante fazerem um pomar com várias árvores de fruta, cuidar e dar nova vida ao vosso jardim e irem para a mina escavar os minerais e materiais de construção que lá se encontram. Esse ritmo é acompanhado por uma série bem estruturada de melhoramentos das vossas ferramentas e uma entrada constante de novas receitas e de guias para criar novas refeições e novas peças. 

Graficamente, Summer in Mara é adorável. Esta obra ibérica fez-me recordar um bom filme da Disney, Viana. Mas também há vestígios de inspiração do Studio Ghibli e da Nintendo, nomeadamente, de The Legend of Zelda: The Wind Waker. As cores são vivas e bastante variadas, por isso pode-se afirmar que é um jogo bastante colorido. Pessoalmente, o melhor deste jogo, em termos de design, são as suas personagens. Enquanto que Koa, a rapariga que vocês controlam, tem um aspeto humano, o resto dos habitantes de Mara têm todos um aspeto extraterrestre

Viajar entre as diferentes ilhas é um processo reminiscente de Wind Waker, até há um Achievement que faz referência a este facto. O mapa está dividido numa grelha e em cada quadrado há uma ilha para explorar, assim como locais de pesca e de mergulho. Explorar está limitado pelo motor do vosso barco e só quando desbloquearem um motor mais potente é que vão poder ir mais longe e alcançar locais previamente impossíveis de lá ir. Esta limitação é uma boa forma para não vos deixarem perdidos, contudo, basta seguirem as demandas que vos são dadas que é praticamente impossível de se perderem. 

Podem achar o jogo muito linear, mas é uma forma de terem o jogo focado e de descobrirem histórias específicas de cada personagem. Neste tipo de jogos, é fácil perdermo-nos no tempo que dedicamos a fazer um tipo de atividade, Summer in Mara prende-nos à sua narrativa para que saibamos sempre o que temos a fazer. Prefiro este tipo de abordagem ao design do que a tornar-me num mestre na arte de plantar nabos para poder vendê-los a um preço exorbitante. Em Summer in Mara é possível serem bons numa determinada atividade, mas é esta falta de liberdade que nos guia para onde devemos sem nos cansar nas mesmas atividades.

Obviamente que há crafting num jogo deste tipo e este está dividido numa árvore de receitas, porém, sem ter o mesmo nível de complexidade como My Time At Portia, o que torna este jogo espanhol uma perfeita porta de entrada para este género de jogos, dada a sua simplicidade. Apesar da dificuldade não ser tanta, ainda é necessário fazer uma gestão das atividades, entre recolher minérios, cultivar hortículas, criar refeições e gerir a quantidade de recursos que temos. 

Também não nos podemos esquecer que Koa não é uma máquina de aviar demandas e de trabalho agrícola. É necessário estar atento à barra de energia e aos alimentos que temos na nossa algibeira, para depois dar de comer a Koa e recuperar a energia gasta. A gestão de itens também é bastante importante, até porque a possibilidade de construir novos materiais aparece mais cedo do que quando necessitamos deles. Depois, acabamos por vender itens que, mais tarde, precisaremos para uma demanda qualquer. 

Há um ciclo para plantar, recolher, alimentar os animais e explorar o vasto oceano, mas felizmente este processo integra-se bem com as mecânicas que nos vão sendo apresentadas, o que torna a experiência proposta divertida quanto baste. Summer in Mara é uma experiência com charme e que funciona como uma boa introdução a jogos como Stardew Valley, Harvest Moon ou Story of Seasons. E, mesmo que sejam veteranos no género, Summer in Mara continua a ser uma boa proposta.