Com Crackdown 3 adiado para 2018, não se pode dizer que a recta final de 2017 esteja a ser propriamente simpática para os exclusivos da Microsoft. Forza Motorsport 7 já está no mercado há mais de um mês, ou seja, resta pouco para demonstrar o poderio técnico da Xbox One X; restam poucas novidades para demonstrar a singularidade da Xbox One. 

E eis que entra em cena Super Lucky’s Tale, jogo produzido pela Playful e editado pela Microsoft Studios em exclusivo para o PC e Xbox One. Se o nome soa familiar é porque a vida da série começou com Lucky's Tale, obra publicada em 2016 no Oculus Rift. Ou seja, estamos a falar de uma série de plataformas que começou a sua existência como um título de Realidade Virtual.

Imagens Analise Super Luckys Tale

Vamos começar pelo mais positivo: Lucky, a raposa protagonista, está inserido num mundo charmoso. A forma como se parece estar a divertir e como convida o jogador a juntar-se à sua aventura quebra a barreira entre videojogo e jogador. E enquanto exploramos estes mundos, ainda que o grafismo não faça nenhum queixo cair, é inegável que tem carisma e charme.

São quatro reinos coloridos, cheios de personagens que exultam as suas personalidades - ainda que não falem um idioma perceptível pelo humano. O jogo está localizado para português, o que certamente facilitará a interação com os mais novos. Há algumas expressões aquém, mas no cômputo geral, o texto não se perde na tradução. Quando um dos mundos se chama “Spookington”, não há muito a fazer com a localização. Já agora, a solução foi designá-lo de “Aldeia Temerosa”.

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Lucky é jovial, tendo paciência para continuar a salvar os mundos de jogo quando o comando já começa a pesar na paciência dos jogadores. E é uma alegria que não se perde, mesmo se tivermos em consideração que o protagonista está preso dentro de um livro enquanto tem que fazer frente a um grupo maléfico designado de Kitty Litter. Isto além da sua irmã, Lyra, estar em perigo.

É um estilo gráfico que faz lembrar obras de outrora, trazendo para a linha da frente da memória obras como as que deram fama a casas como a Rare e a consolas como a Nintendo 64. E, tal como em muitas dessas obras, também Super Lucky’s Tale está pejado de colecionáveis - desde os trevos que são necessários para desbloquear a progressão e que no final podem ser motivo para grinding desnecessário -, mas também moedas e letras espalhadas por cada nível e que formam a palavra "L-U-C-K-Y".

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Na sua essência, cada mundo principal é composto por portais que dão acesso a níveis específicos e a desafios adicionais que garantem mais trevos. Não é propriamente a reinvenção da roda, então, mas é algo funcional que não deixará nenhum jogador perdido sem saber o caminho a seguir. Infelizmente, investir por estas duas dezenas de níveis principais é notar alguns padrões e algumas fraquezas.

Por exemplo, acumular sessões de jogo mostra que não há um grau suficientemente diferenciador, ou seja, não há variedade suficiente nos cenários que temos pela frente, nas mecânicas que servem para executar a jogabilidade. Não quero dizer que todos os níveis são iguais, mas não se sente a criatividade a efervescer, não se sente que estamos a ser desafiados a aprender novas mecânicas e processos para refrescar o nosso investimento na obra.

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As plataformas, ou melhor, os cenários que as deviam destacar assentam em mecânicas reconhecíveis. Há algumas ideias interessantes, mas breves, como uma espécie de comboio em que cada vagão tem materiais de salto diferentes, mas é pouco no espectro global do jogo. Não é preciso comparar Super Lucky’s Tale com outros jogos para perceber o quão dormente a sua jogabilidade é com o passar do tempo. Além do duplo salto, Lucky tem ainda a habilidade de rodopiar e atingir o que está à sua volta com a cauda.

E além disso, a jogabilidade em si tem momentos aquém. A câmara, por algum motivo, não roda livremente, o que adiciona uma camada de frustração sem necessidade nenhuma. Eu já mencionei que o jogo não oferece grande desafio, mas quando há o ocasional envolvimento de mais movimentos do que saltar entre plataformas, sente-se uma quebra da fluidez dos controlos, como se houvesse um ligeiro atraso nos comandos dados a Lucky.

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Piscando o olho ao passado do género, além dos bosses, há inimigos para derrotar - como abelhas que atiram o seu ferrão contra Lucky, fantasmas, lagartas - mas são encontros que só se tornam ligeiramente mais complicados quando a quantidade de inimigos no ecrã aumenta consideravelmente.

Super Lucky’s Tale tem os seus melhores momentos quando deixa o seu já mencionado carisma estar na linha da frente. Ou seja, quando coloca o jogador a realizar tarefas que não envolvem dinâmicas frustrantes. Os colecionáveis, por exemplo, são a desculpa perfeita para varrer estes cenários, para falar com estas personagens enquanto procuramos galinhas. Lucky tem uma habilidade que lhe permite escavar e deslizar pela terra, como se fosse uma raposa feita toupeira - estar neste ambiente enquanto procuramos algo acaba por ser relaxante. 

Imagens Analise Super Luckys Tale

Sim, a dificuldade também não está presente, mas como não perdemos corações e vidas de formas que nem sempre dependem da nossa habilidade, ficamos entregue ao colorido e ao charme - entregamos o nosso sorriso à raposa sorridente. Mas mesmo nestes momentos de exploração, Super Lucky’s Tale não atinge o estatuto de imaculado, pois também aqui temos que lidar com uma câmara de jogo que não se desloca livremente.

Com um grafismo que se revela mais eficaz na forma como o seu charme passa para o lado de cá do ecrã do que nos designs dos níveis, Super Lucky’s Tale acaba por mostrar alguns vislumbres do que poderia ter sido - com a sonoplastia a ajudar a essa identidade. Contudo, como jogo de plataformas tem várias falências notórias. Ainda assim, pode ser que a Playful tome notas e brinde os fãs do género com um jogo capaz, com um jogo que nos divirta tanto quanto Lucky parece estar a divertir-se.