Se há uma personagem dos videojogos que uma grande parte da sociedade conhece é Mario, a mascote da casa de Quioto. Quando a Nintendo lança um novo jogo com o seu herói, os holofotes ficam virados para esse lançamento de tão boas que são as aventuras no Reino Cogumelo. E como a Nintendo vai celebrar os trinta e cinco anos de Mario, sente-se claramente o entusiasmo que há em torno de Super Mario 3D All-Stars.

Contudo, a Nintendo tem um problema a disponibilizar o seu catálogo de obras mais antigas. Se não jogarem os títulos originais para as plataformas em que são lançados, é provável que só conseguirão obter esses mesmos jogos a preços bem mais elevados do que deveriam estar, além de ainda terem que possuir a consola para à qual foram concebidos. É por isso que o anúncio de Super Mario 3D All-Stars foi uma bênção para os muitos fãs da Nintendo, porque agora tem a oportunidade de poderem jogar pela primeira vez Super Mario 64, Super Mario Sunshine e Super Mario Galaxy na Switch.

Vou começar por ordem cronológica, Super Mario 64, a entrada de Mario no mundo tridimensional dos videojogos. Como é sabido, Shigeru Miyamoto é um génio na criação de videojogos, sobretudo no seu design. Estes três jogos são prova desse talento do colaborador da casa de Quioto, mas foi com Super Mario 64 que se estabeleceu a primeira grande prova deste game designer, visto que em 1997 a tecnologia da Nintendo 64 permitiu criar jogos tridimensionais.

Os níveis de Super Mario 64 são acedidos através de pinturas, para ver se conseguimos saber o que se passou no castelo que se encontra vazio e sem a princesa Peach. E cada uma dessas pinturas emolduradas leva-nos para uma construção elaborada para colocar à prova os nossos reflexos e a nossa noção de como controlar Mario.

Na pior das ocasiões, vão se sentir frustrados pela dificuldade dos níveis, porque estão em luta com os controlos. Contudo, a jogabilidade tem as suas particularidades, como o salto, que tem que ser muito bem calculado para não estarmos a cair para o abismo infinito. Quando já só respirarmos esta marvilha dos videojogos dos anos noventa, damos valor à frustração pela qual passamos, porque somos recompensados por uma criatividade sem igual.

Super Mario Sunshine é o jogo que menos fama e valor qualitativo tem atribuído. Nesta coleção os jogadores poderão encontrar uma pérola que brilha com a mesma intensidade que o seu antecessor da Nintendo 64. Em Sunshine, que herda muito de Super Mario 64, temos agora um canhão de água nas costas de Mario, que será utilizado para ultrapassar níveis com uma maior complexidade, sem deixar de ter um design digno de um jogo concebido por Miyamoto. Este jogo é, sem dúvida, o resultado de ser criado para uma nova máquina, pois a água é uma dos principais elementos que serve várias das mecâncias do jogo, para além do canhão de água.

Sunshine brinca com a água e praticamente tudo o que podemos fazer com este líquido. Depois de passar por Super Mario 64, é como descobrir uma nova dimensão de entretenimento. A sensação de passar de Super Mario World para o jogo da Nintendo 64, é a mesma de passar de Super Mario 64 para o jogo da GameCube; ficamos boquiabertos com as possbilidades que se apresentam no núcleo da jogabilidade. Obviamente que o jogo tem os seus momentos de difculdade mais íngreme, mas quando somos presenteados com níveis em que nos é retirado o canhão de água para estarmos à mercê das nossas capacidades de saltar de plataforma em plataforma, o jogo transforma-se novamente para nos surpreender.

Por fim, falta-me mencionar o último grande jogo deste trio praticamente ídilico, Super Mario Galaxy, o excelente jogo da Wii. Explorar em Galaxy é um absoluto deleite. Mario, desta vez, visita planetas por uma galáxia em ponto pequeno, continuando a fazer o que sempre fez: colecionar estrelas. Descobrir um novo planeta, ou um conjunto deles,  funciona como um nível, contudo aqui podemos percorrê-lo por toda a sua extensão, pelo menos onde podemos pousar os pés. Temos mecânicas que foram criadas para as especificidades da Wii, os Wiimote, que acaba por nos deixa mais atentos à adaptação dos controlos, principalmente no modo portátil.

Galaxy é uma constante surpresa a cada nível que passamos. Seja a combater bosses, a arranjar formas de voar de planeta em planeta, ou a experimentar, por exemplo, o novo fato de abelha. Super Mario Galaxy joga muito com a nossa expetativa daquilo que vamos encontrar no que a produtora criou para brincar com as leis da gravidade. É óbvio que o jogo é contraditório em algumas leis da Física, mas é descobrir um nível em que vamos estar de cabeça para baixo, outro em que vamos ter de correr no interior de uma superfície esférica ou fazer baloiçar Mario em estrelas azuis que fazem deste jogo uma experiência surpreendente.

Os controlos nesta coleção não sofreram praticamente nenhuma alteração, à exceção de Galaxy. Contudo, mesmo quando se joga tal e qual como na Wii, controlar Super Mario Galaxy com os Joy-Con tem uma certa imprecisão, como se o cursor não tem capacidade de se manter imóvel para onde estamos a apontar. No modo portátil é um bocado estranho jogar Galaxy, porque para apanhar Star Bits ou tocar nas estrelas, que servem de meio de transporte, temos de tocar no ecrã. Embora este pequeno percalço nos controlos, não tive problema nenhum em qualquer um dos três jogos, senti o design de Miyamoto tal como este o concebeu, sem contratempos técnicos.

Há uma curiosidade incluída nesta coleção bastante interessante e que nos faz colocar várias questões. Em Super Mario 3D All-Stars podemos ouvir as três bandas sonoras originais, que totalizam cento e setenta e cinco faixas de música, ou seja, são mais de quatro horas de música para os vossos ouvidos. O que há de particularmente especial neste caso, é que podemos ouvir a música que queremos e entrar no modo Music-player, o que desliga o ecrã da consola mantendo a música a tocar. Apesar de ser uma possibilidade interessante, foi mal aproveitada. Não podem fazer uma playlist e ouvir o que bem vos apetecer. Após uma música terminar, passa automaticamente para a seguinte e assim sucessivamente.

Como o jogo foi apresentado, isto poderia muito bem ser uma coleção com alguns extras para além da banda sonora. Não há vídeos dos bastidores, arte original ou algum tipo de documentção do processo de game design; não há absolutamente nada para além dos jogos e das suas respetivas bandas sonoras. Mas para além de ser um lançamento limitado em todos os formatos (sim, o jogo também vai desaparecer da Nintendo eShop), não há um único extra que só uma coleção poderia ter, sobretudo num ano em que se celebram os trinta e cinco anos da mascote da Nintendo.

Apesar de alguns pontos que não favorecem este conjunto, Super Mario 3D All-Stars continua a ser um jogo muito recomendado, porque é um trio dos melhores jogos de plataformas do mercado. Este é o patamar de excelência que todos os jogos deste género deveriam almejar. Miyamoto não é só um génio ao serviço da Nintendo, é um produtor de videojogos que põe as suas criações ao serviço do divertimento dos jogadores, com obras com uma criatividade inigualável.