Super Mario 3D World é um concentrado de criatividade que vai demorar algum tempo a ser diluído nas mentes de quem o experimenta. Com jogadores que cada vez deglutem mais depressa os jogos que são lançados, uma série com quase trinta anos não se mantém relevante por ter conquistado uma falange de jogadores que agora é adulta, Mario continua a ser uma das apostas certas da Nintendo porque coloca num disco a consagração de um punhado de ideias que inspira a indústria em que está inserido e deleita os que o experimentam, tenham cinco ou cinquenta anos.

3D World não é perfeito e a instigação da passagem dos níveis não se escusa a revelá-las, contudo, depois de dedicar longas horas à progressão pela sua miríade de níveis, fiquei convencido que o jogo é colocado no mercado apenas com um propósito: divertir os jogadores. O que, quase sempre conseguido, não é tarefa menor. Olhem pela janela da vossa sala e decorem o cenário avistado: o exclusivo Wii U oferece uma versão mais charmosa e vibrante dessa realidade, seja ela qual for.

A história é o parente mais pobre. Bowser é o vilão de serviço e desta vez aprisionou habitantes do Reino das Anafadas. O rastilho chegou ao fim quando Mario, Luigi, Peach e Toad testemunham na primeira pessoa esta prática hedionda. Claro que raptar uma Anafada à frente de um quarteto de bons samaritanos só poderia resultar no atiçar da boa vontade dos protagonistas e numa viagem até onde for preciso para as resgatar. Tal como disse, não vão descobrir aqui o novo Ulisses de Joyce, porém, a viagem é capaz de fabricar memórias como os cadernos de Paul Bowles.

Cada área de jogo é composta por várias etapas que culminam num castelo onde está aprisionada uma Anafada dentro de um frasco de vidro. Para lá chegarem terão que completar cada nível que desbloqueará o seguinte. Não é uma revolução da fórmula, apenas a consagração do método que a Nintendo sabe que recompensa o trabalho dos jogadores dando à aventura um sentido de progressão em tempo real. Porém, entre os níveis têm à vossa disposição uma área em três dimensões passível de ser explorada livremente. No fundo, serve como um interlúdio preparativo para as secções onde terão que dar o vosso melhor. Contudo, para evitar que os jogadores passassem estas áreas apenas a habituarem-se aos controlos do jogo, têm à vossa disposição atividades que nunca deixam os níveis de concentração baixar demasiado, o que na prática foi a maneira encontrada pela divisão EAD da Nintendo Tóquio de vos dar a oportunidade de restabelecer o vosso stock de vidas, por exemplo.

Todo este recreio serve apenas de antecâmara para o que os níveis per se têm para oferecer. Como uma brisa numa prolongada noite de verão, com o acumular de horas e percursos deixados para trás, fui começando a sentir-me bem com o GamePad na mão e com cada hastear de bandeira fui percebendo que o turbilhão criativo da Nintendo foi colocado em prática graças à sua experiência no género e não pelo acaso de conseguir algumas secções bem conseguidas. 3D World é um jogo que nunca para de dar motivos para regressarmos e cheio de sumo quando espremido até ao tutano.

Mario empresta o nome ao jogo mas não está na cruzada criativa. Além do canalizador mais famoso do mundo, temos à nossa escolha outras três personagens jogáveis, nomeadamente, Luigi, a Princesa Peach e Toad. Contudo, a vossa escolha não deve recair apenas na vossa preferência, pois cada uma das personagens tem habilidades únicas. Luigi é a personagem que consegue saltar mais alto mas tem o controlo mais delicado, Peach consegue usar o seu vestido para planar e Toad é o mais rápido. Mario é o eleito para ser o protagonista mais conservador, ou seja, não tem nenhuma habilidade esmerada mas também não tem nenhum ponto que requer mais cuidado. Se forem aventureiros, antes do arranque de cada nível podem pressionar um botão e a escolha é aleatória. A escolha deverá recair sobre que personagem é a mais indicada para as caraterísticas do nível que têm à vossa frente, pois a diferença é muito mais sentida na prática do que na teoria.

O esqueleto de Super Mario 3D World é simples de identificar: têm que ir do início ao fim do nível, tentar subir até ao ponto mais alto da haste. Pelo caminho tentam apanhar o maior número de estrelas encerradas em cada nível e, sempre que aplicável, derrotar o boss. O que o torna um dos melhores jogos do catálogo da Wii U é a complexidade da fibra que reveste esse esqueleto. Tudo começa com o design inventivo de cada nível e termina na habilidade que toma conta de quase metade da capa do jogo: a possibilidade de as personagens se transformarem em gatos e desencantarem atalhos nos níveis trepando texturas que de outra maneira permaneceriam inacessíveis, o que é prolongado até à haste que serve como farol avistado por quem está a apenas alguns passos de concluir o nível.

O que torna o jogo tão especial é a dinâmica que a equipa de produção implementou de forma exígua. Como os níveis são tão variados, as mecânicas de jogo têm que acompanhar essa diversidade, ou seja, o jogador é mimado com uma constante torrente de maneiras novas de negociar cada nível, cada criatura, cada boss. Não demora muito até que esta amálgama criativa comece a ter efeitos secundários no jogador: depois de dois ou três níveis interessantes, começamos a antecipar o que o próximo nível vai oferecer. Felizmente o jogo apresenta os seus trunfos quase sempre em crescendo, o que aniquila a percentagem de vezes que vão ficar desiludidos com o que o jogo tem preparado para vocês.

Aplica-se o mesmo à dificuldade. Com o desbloquear dos últimos níveis o jogo tornou-se um sorvedor das vidas que tinha amealhado até então, porém, raramente senti que estava a falhar por outro motivo qualquer que não fosse a minha capacidade de fazer melhor. E fiz. Perdi inúmeras vidas, mas fiz melhor, superando-me graças à centelha de esperança que o jogo injetou em todas as oportunidades que falhei um salto ou que um boss se revelou demasiado forte para a minha estratégia.

A Nintendo não teve medo de trabalhar a fórmula consagrada, não dando uma nova roupagem à nostalgia mas sim conjugando-a no presente. Na prática, ninguém vai pensar que este era o jogo que estava na berra nas idas tardes da década de 80 e 90; pensarão sim que a fluidez desse rio de ideias desaguou na foz que é que 3D World. Se algum dos vossos amigos discordar desta filosofia, podem-no explicar na prática e não na teoria: enquanto este jogo estiver a correr na vossa Wii U é possível participarem num multijogador que é simultaneamente cooperativo e competitivo.

Com suporte para quase todos os comandos Nintendo - GamePad, Wiimote, Pro - o mais provável é que estejam equipados para convidar um amigo ou familiar a sentarem-se ao vosso lado, abrindo automaticamente a porta à colaboração, à entreajuda e à tirania. No final de cada nível, existe sempre um vencedor - aquele que conseguiu amealhar mais pontos é o que recebe a coroa. Isto serve como catalisado a pensamentos e ações ambíguas: queremos sempre ajudar e ser ajudados nas secções de maior dificuldade, porém, não queremos deixar de ser aquele que brilha mais alto quando as pontuações são somadas. Pessoalmente, o resultado foi uma mescla de pedidos de ajuda, de atendimentos a outros tantos pedidos e a infantilidade de puxar plataformas debaixo dos pés do amigo de aventura no momento certo ou da inevitável meninice de pegar no amigo/adversário e atirá-lo para situações mais delicadas.

Obviamente, estas traquinices têm um preço e não demorou nada até que o mesmo tratamento fosse aplicado a mim. Desde que todos os jogadores percebam o conceito do jogo, as gargalhadas são apenas o reflexo do divertimento das já mencionadas tardes que se orgulham em conjugar o pretérito perfeito. De alguma maneira, o bom samaritanismo e o vil pecado andam de mãos dadas numa campanha contra a monotonia. Obviamente, quanto maior for o número de jogadores, maior será o caos e a produção de momentos memoráveis, que pensamos imediatamente que não podem estar a acontecer a mais ninguém. Super Mario 3D World é um jogo que celebra a confraternização e tem no multijogador o seu expoente máximo.

Claro que não é perfeito. Ainda que alguns níveis não exumam genialidade de uma ponta à outra, o meu maior problema com o jogo foram algumas secções em que a profundidade do 3D traiu alguns saltos, seja a lutar pela minha vida ou a tentar alcançar alguns cubos. Infelizmente, não é algo que simplesmente desapareça com a nossa persistência e consequente melhoramento das nossas habilidades, mas sim algo que nunca foi resolvido, ou seja, podem falhar estes saltos na primeira etapa ou na última. Felizmente não é algo tão recorrente que se torne uma norma, portanto a nossa confiança no jogo nunca chega a ser traída completamente.

Tecnicamente, o hardware da Nintendo Wiii U é colocado à prova pela exigência da criatividade. Com Mario a poder ostentar um tamanho gigante, a máquina tem que corresponder ao software, assim como a maneira que negoceia vários inimigos no ecrã enquanto Mario apanha o fato Tanooki ou as tradicionais bolas de fogo. Mais exemplos? Quando as personagens se transformam num patim e deslizam pelo gelo: a fluidez é uma constante nunca abandonada pelas limitações da consola. Todos os efeitos são lidados com uma facilidade aparente, nunca havendo soluços gráficos mesmo quando o ecrã está ocupado de focos de ação.

Super Mario 3D World raramente deixa de ser um jogo bonito. Conforme disse no início do texto: a beleza da nossa realidade é elevada a cores vibrantes espalhadas por cenários variados. É natural que não reparem em todos os detalhes na primeira passagem, talvez distraídos pelo que o vosso companheiro de aventura está a fazer, porém, é aconselhada calma e um desviar no olhar para tudo o que ocupa o ecrã, certamente vão descobrir um amontoado de pixéis que deleita o olhar e enriquece a experiência - seja no ecrã do televisor ou no GamePad.

Os temas da banda sonora também são de salutar. Verdade seja dita, não estão ao nível do bruaá causado pelo grafismo, mas não deixam de ser inventivos e de ser uma variável válida na equação técnica do jogo. Dão o mote nos momentos mais delicados e embalam quando é dada primazia à experiência zen de explorar e perceber o cenário que nos envolve.

Além de tudo isto, Super Mario 3D World tem integração com o Miiverse e largas dezenas de carimbos para serem colecionados como testemunho das vossas façanhas. Se não for o melhor exclusivo Nintendo Wii U, 3D World está no panteão dos melhores - o crème de la crème que a Nintendo EAD consegue fazer. Daqui a alguns anos, provavelmente constatemos muita desta criatividade aproveitada por outros jogos - sejam Nintendo ou não - e talvez aí percebamos em conjunto a importância de um dos melhores jogos de 2013.