Falemos de clássicos. Pela Estrada Fora, Citizen Kane, A Sagração da Primavera: Todas as formas de expressão artística os têm. Fragmentos temporais perfeitos em que o trabalho se encontra com a genialidade e dão origem a marcos na história da humanidade. Como uma tocha que passa de mão em mão, também estes expoentes máximos vão retumbando de geração em geração.

O pai que senta o filho no colo e lhe mostra aquilo que o seu pai outrora fez com ele. Montras de genialidade incompreendidas na altura. Não faz mal: um dia, um qualquer dia, a remembrança faz clique e lembram-se onde estavam e, sobretudo, com quem estavam quando ficaram a conhecer um pouco mais.

Os clássicos não são apenas expressões-mor da humanidade; os clássicos unem-na com o seu legado inspirado.

Falemos de clássicos. Neste momento, uma geração de jogadores está a descobrir aquilo que os seus pais mostram, misturando os videojogos com tudo aquilo que foi mencionado até aqui: bits e pixéis retro que se tornam a berra dos querubins com cinco anos. Super Mario Kart é um desses exemplos. Ícone da Super Nintendo, chegou à Europa em 1993 e desde então nunca mais foi esquecido. Agora, em 2014 foi lançado na Virtual Console da Nintendo Wii U, reflexo contemporâneo que me tem ocupado os últimos dias.

Não se pode dizer que Super Mario Kart evoluiu o género; Super Mario Kart esteve na sua génese - o fio da nascente que com o passar dos anos foi engrossando ao inspirar outros jogos que validaram a sua originalidade e a genuinidade dos seus processos. Vinte anos depois, a destreza da sua jogabilidade continua lá e quando partilhado com outro jogador, é o mesmo destruidor de amizades, com cada partida a ser um rastilho à espera de ser aceso, o que invariavelmente acontece.

Hoje em dia pode parecer corriqueiro colocar personagens de séries icónicas num kart e desejar-lhe boa sorte na próxima curva, contudo, é necessário alguma contextualização: há uma vintena de anos, foi preciso a visão para o fazer pela primeira vez. Talvez não conheçam os diretores do jogo - Sugiyama e Konno - porém, o nome do produtor não vos deve ser desconhecido: Shigeru Miyamoto. As personagens incluídas são oito, entre as quais estão habitués como Mario, Luigi, Peach, Bowser, Yoshi ou Donkey Kong Jr. O mesmo número chega para enumerar a totalidade dos power-ups e os traçados não ultrapassam uma vintena.

Falemos de clássicos ou sobre jogar Super Mario Kart em 2014. Podemos pensar que estamos perante um jogo acessível, podemos até depreender que qualquer um pode pegar no GamePad da Wii U e ser campeão de 50cc, 100cc e desbloquear a classe-rainha, também conhecida como 150cc. Não é assim tão simples. As corridas iniciais são passadas a encontrar o nosso ritmo, a encontrar no nosso âmago os nossos pontos fortes e a trabalhar os mais fracos. Na prática, a jogabilidade é nervosa, com os karts a guinarem a qualquer toque ligeiro. Tendo experimentado todos os capítulos mais recentes da série aqui inaugurada, os deslizes aplicáveis a qualquer curva são mais traiçoeiros, o que incita o jogador a adaptar-se. No meu caso, o sucesso chegou com a desaceleração, o que não é fácil, pois os traçados são exíguos.

Mas não é apenas isto. Mesmo na sua estreia, a série é mais tática que o que pode transparecer. Apanhar os itens deve muito à sorte, contudo, a sua utilização é de estratega. Saber quando usar um cogumelo para aumentar a velocidade do vosso kart, quando e onde deixar uma casca de banana na pista, posicionar-nos no ângulo certo para disparar as carapaças: tudo isto exige trabalho ao jogador. Nas classes e nas pistas mais básicas podemos triunfar com alguma sorte, todavia, com a evolução da vossa carreira a solo terão que aprender verdadeiramente a jogar.

E claro, a ingratidão da série está bem patente desde a sua concepção. As corridas perfeitas são estragadas num ápice, com qualquer um a descer na tabela abruptamente. Impropérios, ameaças de atirar o GamePad à televisão, ranger de dentes, enfim, sintomas de quem está ocupado a tentar sagrar-se campeão digital. Mas isto não estraga o jogo, aliás, faz parte do seu encanto, pois sabemos que será uma questão de tempo até contemplarmos uma ultrapassagem em cima da linha da meta que nos dá os pontos suficientes para subirmos ao primeiro degrau do pódio. Invariavelmente nestes momentos, só queriam ter alguém ao vosso lado que servisse de testemunha à contemplação do épico.

Falemos de clássicos e dos ex-amigos, ex-familiares e ex-namoradas. O meu maior erro durante o tempo que passei com Super Mario Kart foi ter reparado que tinha um Wiimote na prateleira. Depois de configurados os acessórios, é possível partilhar o jogo com outra pessoa, assinando assim a declaração de invasão ao bom humor. Obviamente, podemos humilhar e ser humilhados nos moldes tradicionais da competição, contudo, foi o Battle Mode que mais fraturou as relações construídas ao longo de anos. É que este modo é o concentrado de tudo o que induz a picardias nas corridas tradicionais. Um contra outro em traçados que parecem arenas munidas de itens para serem apanhados: a fórmula perfeita para fazer voar o tempo, para apenas mais uma partida, apenas mais uma oportunidade pare destruir as três esferas vermelhas que pairam em redor do teu kart e ser vencedor. Inevitavelmente, algumas tentativas deram origem a que cada um dos intervenientes tivesse apenas uma dessas esferas, ou seja, o primeiro a ser atingido perdia. Atacar ou esquivar? Ir à procura de um item mais conveniente ou usar o que calhou em sorte?

Com a chegada de Super Mario Kart à Virtual Console da Nintendo Wii U muito se tem falado do agora famoso Mode 7, tecnologia que deu cartas na profundidade conferida a cada cenário. O importante a salientar é que os cenários são variados e, apesar de não se aguentarem como um portento técnico retro, não danificam a diversão que o jogo proporciona. É curioso assistir ao nascimento de traçados e panos de fundo que posteriormente atingiriam a maior idade noutras entregas da série. De salientar ainda que tudo o que acontece no ecrã é apresentado de maneira fluida e orgânica. Infelizmente, a banda sonora não envelheceu bem, acusando alguma repetição e despojamento de liberdades artísticas.

Enfim, falemos apenas de clássicos. Super Mario Kart continua a proporcionar uma experiência agradável, divertida. É bom aprendermos a domar a jogabilidade a solo, contudo, é no multijogador que o título brilha mais forte. Claro, existirão disputas acérrimas e, como já foi mencionado em tom de brincadeira, relações serão desfeitas. O que pode ser sido muito a sério, é que raramente, por entre picardias e desculpas, vão olhar para quem está a jogar contra vocês e sorrir: uma centelha de agradecimento e sem mexer os lábios saberão que lhe estão a contemplar tudo aquilo que acabaram de jogar vinte anos depois de ter chegado às lojas.