Se há cinco anos me dissessem que iria escrever sobre um jogo da Nintendo para um dispositivo ou plataforma da qual não fosse proprietária, não acreditaria. Aliás, até me ria de tal hipótese. Os tempos mudaram, há novos hábitos e tendências, por isso, presa ao passado, a casa de Quioto viu-se obrigada a adaptar-se aos tempos modernos. Esta mudança foi para o bem dos seus consumidores e, graças ao desastre comercial que foi a Wii U, dos seus investidores. 

Em setembro do ano passado, a Nintendo fez uma aparição histórica num evento da Apple que decorria em São Francisco. Shigeru Miyamoto subiu ao palco para anunciar Super Mario Run, com uma demonstração em direto. E, tal como é habitual, este foi mais um jogo digital a ser lançado primeiro na App Store. Assim, os utilizadores com dispositivos Android tiveram inevitavelmente que esperar mais alguns meses. Esse dia já chegou e após várias sessões pudemos finalmente avaliar o resultado do produto final. 

“Jogos simples de perceber, mas difíceis de dominar” é uma das definições que encaixa perfeitamente no conceito da série Mario; é uma máxima que foi aplicada de forma brilhante num jogo para telemóveis. Todavia, não nos podemos esquecer que os produtores da Nintendo trabalharam sempre virados para dentro; ou seja, Super Mario Run é um jogo que resulta de um hardware que lhes era desconhecido, de uma plataforma onde não têm qualquer controlo. Não faltam excelentes exemplos de jogos que utilizam as características inatas de um telemóvel para uma experiência em que sentimos que “só aqui era possível jogar este título”. Felizmente para Super Mario Run, é muito difícil imaginá-lo numa outra plataforma. 

O famoso canalizador italiano salta, uma característica que o define desde que apareceu nos anos oitenta nas consolas domésticas NES. Um toque e Mario salta. Um toque mais prolongado e Mario salta ainda mais alto. Com o salto já executado, Mario ainda pode dar uns rodopios para cair mais longe do que o normal. Com uma mão jogamos sem necessitar de mais nada. Mario corre sozinho, isto é, corre automaticamente. No entanto, isto não faz deste título um endless runner (uma das primeiras qualificações erróneas que recebeu), apogeu que ainda se encontra em Canabalt. 

Imagens Analise Super Mario Run

Este jogo, para Android e iOS, enaltece o que de melhor se faz em design rígido, o contrário que hoje se denomina de procedural generation em videojogos. São vinte e quatro níveis espalhados por seis mundos que enobrecem a arte de criação pela mão do homem e não de um código gerado aleatoriamente pela máquina. São níveis com detalhes sublimes na secção "Mundos". Podem passá-los rapidamente em cerca de uma hora, mas este não é o objectivo pretendido. Há três conjuntos de moedas especiais a recolher. Primeiro uma rosa, a seguir uma roxa e as últimas são as pretas. São estas moedas que vos vão fazer repetir as vossas jogadas vezes sem conta. 

Sinceramente, para recolher as moedas cor de rosa bastam uma ligeira habilidade por parte do jogador, já as outras duas precisam de um estudo pormenorizado do nível em questão. É exatamente este elemento da jogabilidade que faz com que Super Mario Run seja tão bom. É preciso ver muito bem todos os recantos dos níveis. É preciso estar atento aos atalhos que foram perdidos, tentar vários tipos de salto para se chegar onde se quer e jogar com os elementos do nível (inimigos, plataformas ou objetos diversos) para conseguir apanhar a moeda que nos falta à nossa coleção. 

Imagens Analise Super Mario Run

Existe também um elemento multijogador, as Corridas e a construção do nosso Reino Cogumelo. As corridas são, infelizmente, o foco do título. É para esta particular faceta de Super Mario Run que os jogadores vão ser chamados - através das incomodativas notificações - a competir com trabalho os seus amigos, a participar em eventos temporários ou também a amealhar Toads como moeda de troca para adquirir personagens e elementos paisagísticos para o nosso cantinho Nintendo. 

As Corridas são níveis com algumas alterações aos originais do modo a solo "Mundos". Estas alterações introduzem desafio e ainda mais criatividade ao que já se jogou. O objetivo é juntarem mais Toads a aclamarem-vos como vencedores. Isto consegue-se a apanhar-se mais moedas e a saltar com muito estilo. Saltem com rodopios, em cima dos Goomba ou de diversas plataformas como um autêntico atleta e serão recompensados pela atenção do público que querem conquistar. Sejam bons jogadores e se fizerem uma corrida sem erros, serão galardoados com um "febre" de moedas. Apanhem estas moedas extra e as vossas hipóteses de saírem vencedores serão ainda mais altas. 

Imagens Analise Super Mario Run

Enfim, a Nintendo fez um muito bom título e mostra como se faz um videojogo para uma determinada plataforma, aproveitando as suas particularidades. Todavia, é importante salientar que a obrigação de estar constantemente ligado à Internet não traz qualquer vantagem - a bateria e o consumo de dados é que sofrem. Mas também convém sublinhar que os dez euros pedidos valem pela experiência oferecida.