A vida de um artista, seja no singular ou no plural, é complicada. Quando se consegue atingir o sucesso num determinado trabalho, as obras posteriores poderão não estar no mesmo patamar. É uma dicotomia ingrata: ou se constrói um novo trabalho com base no anterior e podem ser acusados de não apostarem em algo inovador, ou se faz uma obra com ideias novas e a sua implementação pode não ter os melhores resultados. Infelizmente, Super Meat Boy Forever não escapou a este problema, visto que as novidades não encaixam da melhor forma na proposta que nos quer entregar.

Apesar de uma nova direção do jogo, a Team Meat (que ficou sem um dos seus fundadores, o carismático Edmund McMillen) manteve a essência do jogo original, contudo, a grande diferença que foi introduzida piora bastante uma experiência que, por si só já é frustrante, nos quer com os reflexos bem apurados. Agora o herói de Super Meat Boy Forever corre automaticamente, acabando por nos fazer preocupar com um ou dois botões sem termos de apontar para onde queremos saltar com o analógico.

Depois dos eventos de Super Meat Boy e de Dr. Fetus ter sido finalmente derrotado, Meat Boy e Bandage Girl tiveram um filho, o pequeno Nugget. O vilão regressa e em vez de Bandage Girl é Nugget o alvo de Dr. Fetus e este rapta-o dos seus pais. Tudo isto não tem qualquer influência na jogabilidade, mas está presente como forma de contextualizar as ações das nossas personagens nesta aventura. Como é óbvio, depois de ver o seu filho raptado, Meat Boy avança contra Dr. Fetus (apesar de ser possível jogar com Bandage Girl desde o início).

Sempre que progredimos somos presenteados com mais uma sequência de ação em vídeo onde, tal como o seu antecessor, está carregado de animações dignas de um desenho animado matinal de fim de semana. E claro, o aspeto adorável de Super Meat Boy Forever contrasta com o sangue que será derramado nas inúmeras serras rotativas, arame farpado, assim como nos vidros partidos sempre prontos para desfazer os jogadores em mil pedaços. 

Ainda continuando no capítulo dos visuais, uma das grandes funcionalidades de Super Meat Boy era a repetição da nossa passagem pelo nível. Começácamos a ver uma legião de personagens Meat Boy a ir do início ao fim de cada nível, onde cada um destes Meat Boy representava uma tentativa nossa. Ao longo do vídeo íamos vendo os nossos erros com a morte de cada um, era como se o nível fosse uma tela e os nossos lapsos a tinta que dá forma à nossa obra. 

Agora, em Forever, só vemos um Meat Boy e os outros que representam os nossos erros aparecem momentaneamente na altura do falhanço em questão. Sinceramente, em termos visuais, esta abordagem é muito menos interessante, apesar de informar igualmente o que deve: onde é que cometemos os nossos erros. Por último, quanto à repetição é pena que não dê para abrandar ou acelerar o vídeo de forma a saltarmos para a parte que queremos ver com mais atenção.

Forever continua a dar aos jogadores o mesmo objetivo do seu antecessor, contudo, desta vez com uma experiência diferente. A grande diferença é que Meat Boy, Bandage Girl ou qualquer que seja a personagem que estamos a utilizar corre automaticamente. O jogador só tem de controlar o salto, dar murros para atacar e baixar-se. Parece muito simples, mas a retirar o controlo do movimento ao jogador só complica o processo de ir do início ao fim do nível. E também altera fundamentalmente o design dos níveis, tornando-os mais horizontais e quase despidos de qualquer verticalidade.

O facto de correr automaticamente não torna o jogo mais fácil, nem por sombras. Visto que os nossos reflexos têm de estar ao mesmo ritmo da velocidade da nossa personagem, vai obrigar-nos a ter que estar constantemente com os nossos sentidos apurados. Super Meat Boy Forever é daqueles jogos que não nos dão espaço para cometer o mínimo erro. Falhar significa mandar Meat Boy para o fundo de um abismo, para as lâminas afiadas de uma serra rotativa ou contra um inimigo. 

Para evitarmos morrer desnecessariamente temos de nos habituar à sensibilidade do botão do salto. Quanto mais tempo pressionarmos o botão B, mais alto saltamos com a personagem que selecionamos para ultrapassar o nível em questão - é o que acontece habitualmente em jogos de plataformas. Aprendermos a saltar de forma conveniente, para os problemas que nos colcam cada situação de perigo, é bastante difícil dado que Meat Boy corre sem nunca abrandar. Em casos pontuais, há pequenas saliências que nos permitem parar para planear a nossa próxima jogada, mas são casos muito raros.

Esta obra da Team Meat quis inserir níveis gerados aleatoriamente, uma particularidade de Forever que é uma faca de dois gumes. Por um lado, perde-se o sentido de comunidade em que todos comentam como é que se passa um determinado nível e acaba por haver picos de dificuldade demasiado cedo. Por outro lado, como podemos inserir códigos das fontes dos níveis, temos uma infinidade de níveis para ultrapassar, aumentando significativamente a longevidade do jogo.

A aleatoriedade funciona bem no design em si, ou seja, vê-se que há um ritmo de saltos ao qual temos de responder, todavia, às vezes, a nossa atenção tem que estar nos cem porcento. Caso contrário, falhamos repetidamente os saltos e isso é excessivamente fustrante ao ponto de termos de desligar o jogo de tanto que este enerva por errarmos num salto que devíamos ter dado uma milésima de segundo antes de deixar a plataforma da qual efetuamos a impulsão vertical. 

Não tenho queixas quanto à banda sonora, pois é divertida e os Ridiculon deram o seu cunho pessoal ao jogo com as suas músicas. No entanto, não há nada melhor do que a banda sonora original de Super Meat Boy, que saiu das composições de Danny Baranowsky - não admira que The Crypt of the NecroDancer seja um jogo tão bom.

Apesar das decisões que levaram ao que Super Meat Boy Forever é, este jogo da Team Meat é um fantástico teste às nossas habilidades enquanto jogador. Todavia, se na aleatoriedade do jogo vos calhar algo muito difícil, o melhor é passarem para algo mais calmo que não exija tanto da vossa destreza para responder a estímulos que aparecem a uma velocidade estonteante.