Não são muitas as séries que gozam do estatuto de Super Smash Bros.. Cada lançamento assume rapidamente o papel de acontecimento e Ultimate, o mais recente título da saga que chegou em exclusivo à Switch, não é exceção. Bastam algumas horas com o jogo para nos apercebermos que estamos perante uma carta de amor escrita por Masahiro Sakurai e dedicada à saga, à Nintendo e aos jogadores.

Como certamente já saberão, Super Smash Bros. Ultimate tem na sua essência o estilo de luta, contudo, a sua aura muito própria eleva-o rapidamente a um compêndio com algumas das personagens mais icónicas do universo Nintendo e não só. Fazendo as contas, são mais de setenta lutadores que medem forças em mais de cem cenários. É assim uma obra que demora a sair de cena, com a sua enorme comunidade a fazer o seu escrutínio muito para além da fase de lua de mel.

Há inúmeros modos de jogo presentes, cada um dos quais com várias subcategorias que mudam a forma como Ultimate vai revelado as suas valências. É provável que muitos fãs comecem a aventura no modo Smash, onde uma parte integrante são os confrontos com suporte para até oito jogadores. Os alicerces chegam de variantes que permitem, por exemplo, partidas de 3 contra 3 ou de 5 contra 5 (Squad Strike). Todavia, porventura as maiores novidades de Ultimate são os Spirits e o modo aventura a solo que aqui é designada como World of Light.

Outros modos disponíveis incluem a componente online, assim como vias que englobam o modo clássico, local onde cada lutador tem o seu próprio caminho composto por várias batalhas e um boss. Se não forem veteranos ou se quiserem ficar a conhecer os ajustes feitos pela nova obra, Ultimate inclui também uma componente onde poderão treinar até sentirem que estão prontos para as partidas “a sério”. É desde já perceptível que o jogo coloca muito num único lançamento, sendo assim capaz de fazer propostas bastante díspares na tentativa de conquistar e consolidar as vontades do maior número possível de fãs.

Não se deve pensar, porém, que todos estes modos são executados com a mesma perfeição. Ultimate parece um caso sério de mutabilidade, ou seja, parece colocar em marcha alguns destes modos especificamente para uma falange de fãs, convidando quem não gosta a simplesmente ignorá-los e a dedicar o seu precioso tempo à componente que acha mais convidativa à laia das especificidades dos seus gostos.

Os já mencionados Spirits são a novidade que merece mais palavras. Em termos básicos, estamos a falar de personagens que perderam a sua forma física e, sem grande surpresa, são os jogadores os eleitos e chamados a salvar os seus espíritos. Pela frente existem quase 1300 espíritos divididos por várias categorias (Primários, de Suporte, Lutadores), prontos a serem resgatados e a elevar, ainda mais, a extensa longevidade de Ultimate.

Como podem facilmente perceber, os Spirits são também uma piscadela de olho a vários processos normalmente pertença dos títulos inseridos na categoria dos Role Playing Games. Há Spirits que podem ser equipados para lhes permitir um aumento nas habilidades, com outros a servirem de suporte e a garantir melhorias mais específicas. Há também a possibilidade de fazerem com que os Spirits que entretanto forem resgatados evoluam graças aos Snacks que lhes podem dar, assim como de notar a inclusão da possibilidade de os devolver ao seu mundo, ficando com o seu Core e SP (Spirit Points).

Desde os desafios que o jogo vai propondo até à Spirit Board, são várias as formas de aumentarem o número de Spirits que vão amealhando. De destacar, porém, que um desses métodos está associado a outra das novidades de Ultimate, o modo conhecido como World of Light. Aqui, uma misteriosa figura conhecida como Galeem, o Senhor da Luz, está a destruir o mundo onde os lutadores habitam. Um a um, os corpos destas personagens vão sucumbindo à força de Galeem e substituídos por lutadores “fantasma” obrigados a cumprir a sua vontade. Os jogadores vestem assim a pele de Kirby e começam esta epopeia que transmite a sensação de estarmos perante um jogo dentro do próprio jogo.

Esta aventura decorre num plano que parece reminiscente de uma mistura entre jogo de tabuleiro e Role Playing Game, com os jogadores a progredirem batalha após batalha, seguindo caminhos que, ainda que não sejam livres à exploração, podem ser atacados de formas diferentes. O mapa é generoso e o contador pode passar uma dezena de horas apenas neste modo, sendo óbvio que o sucesso está dependente das combinações que vão fazendo entre lutadores e Spirits - que podem por exemplo tornar o lutador mais resistente ao vento ou ao chão feito de lava. De notar que ocasionalmente alguns Spirits são mesmo obrigatórios para desimpedir o caminho.

Se ainda não fosse evidente o já mencionado piscar de olho aos RPG, Ultimate conta também com uma árvore de habilidades onde os jogadores podem servir de “alfaiates”, ou seja, podem aumentar a força do escudo ou os diferentes tipos de ataques, ou podem ainda tornar as evasões mais fáceis ou reduzir a vulnerabilidade quando aterram no cenário, permitindo assim que o lutador se mova imediatamente. São dezenas e dezenas de habilidades que podem ir sendo aprendidas, um convite ao estudo, transformando o lutador numa melhor potência daquilo que acham ser os vossos próprios pontos fortes e fracos.

Como facilmente podem depreender, tudo isto pode tornar-se numa obsessão. No entanto, é uma obsessão menor face ao que é experienciado e compreendido ao lutar com cada personagem. Num alinhamento inicial com mais de sete dezenas de personagens, a jogabilidade difere, pelo que ir experimentando os diferentes lutadores enquanto os levam até aos diferentes cenários é um acto de curiosidade e de satisfação praticamente imediata. A Nintendo faz isto com mestria e este ano podemos contar com todos os rostos presentes nas edições anteriores da série e ainda com algumas novidades, como por exemplo Inkling de Splatoon, Ridley de Metroid, e Incineroar de Pokémon, entre outros, que se juntam a um elenco vastíssimo, que vai de Mario a Bayonetta, passando por Cloud de Final Fantasy e até à Treinadora de Wii Fit.

Entre este leque há mesmo personagens que normalmente não são associadas às sagas da Nintendo, como Sonic, outrora rival de Mario, ou o carismático Solid Snake, protagonista de Metal Gear Solid. No outro espectro da lista, há os rostos que ajudaram e ajudam a Nintendo a ter a sua própria marca no mercado, como Zelda, Link ou Fox. Uma após outra, desbloquear as personagens é um hino à sensação de colecionismo, mas também ao sentimento de passar em revista as memórias que fomos acumulando na cena dos videojogos, tantas e tão vastas são as séries incluídas num único videojogo.

Claro que nada disto faria grande sentido se Super Smash Bros. Ultimate não estivesse muito bem no pilar de qualquer jogo do género, ou seja, na sua jogabilidade. Os comandos básicos permitem saltar, agarrar, infligir dano, e como é óbvio, tentar esquivar às investidas dos oponentes. Como os cenários são compostos por vários patamares e estão a “flutuar”, o derradeiro objetivo da obra para derrotarem os adversários é fazê-los sair de forma definitiva da área do jogo.

Pode parecer fácil, mas na prática há inúmeras nuances que conferem várias camadas de profundidade aos processos. Não basta chegar perto do oponente, acertar-lhe e esperar que tal seja suficiente. As regras ditam que consoante a percentagem de dano no respetivo medidor for aumentando, mais longe os lutadores são arremessados e, consequentemente, maior é a probabilidade de saírem da área de jogo. Isto acrescenta uma camada de estratégia às partidas sem afastar os novatos e aqueles que querem pegar no comando e divertir-se com os amigos durante um serão.

Cada personagem conta com um estilo e ataques que vão preservando o factor novidade da jogabilidade ou que se prestam a terem características que façam o jogador eleger determinado lutador como o seu preferido e a dominar as suas especificidades até as conhecer de cor, percebendo o que pode fazer e o que pode evitar, compreendendo até ao milímetro o melhor momento para lançar o ataque especial. Tudo isto aliado às variadas condições dos cenários inspirados em diversas séries e às regras das partidas que podem ser ajustadas, faz de Super Smash Bros. e, mais concretamente, de Ultimate um verdadeiro aglutinador de estilos de jogo e um longo sublinhar da diversidade.

Mais do que superação e aprimoração da habilidade técnica de cada um, aqui lutar acaba por ser uma celebração que, mesmo frenética em determinados momentos, é sempre abrangida pelo carisma da Nintendo. Os cenários detêm pormenores que deliciam sem nunca prejudicar a fluidez e o decorrer dos combates. Sendo um título Switch, o conceito de levar um jogo tão colossal como este para fora de casa graças à sua natureza híbrida é algo tecnicamente impressionante, com o número de cenários presente a ser um tonificador de vistas novas durante várias horas.

Em Ultimate, uma das opções presentes dá pelo nome de Vault. Na prática, funciona como um compêndio de registos, dando aos jogadores a oportunidade de conhecerem conselhos, de ver vídeos, estatísticas e até de competir em desafios adicionais, nada de verdadeiramente impressionante. Contudo, um desses conteúdos está associado ao som, sendo possível escutar a banda sonora do jogo como se tivessem acedido a um qualquer serviço de streaming de música. Isto para não deixar de escrever que Ultimate conta com mais de 800 temas para serem ouvidos, o que prova novamente a escala do jogo, mas que atesta também a qualidade da sua sonoplastia, pois além da quantidade e da diversidade, Ultimate conta ainda com uma das melhores bandas sonoras do ano.

Finalmente, se por algum motivo acharem que tudo isto não é suficiente, o jogo conta ainda com uma componente online. Além de ser possível assistir a partidas que estejam a decorrer, podem também defrontar outros jogadores espalhados pelo mundo. Não só em partidas rápidas, mas em Battle Arenas, onde podem criar salas com as vossas próprias regras ou juntarem-se às criações de outros jogadores. Isto é particularmente importante, pois além do formato da luta que pretendem, conta com parâmetros sobre que tipo de jogadores é que podem juntar-se, ou seja, apenas veteranos ou apenas jogadores que estejam a começar a sua aventura com o jogo.

Mas será interessante perceber como é que a Nintendo vai lidar com esta componente ao longo da vida útil de Ultimate, uma vez que não só a infraestrutura online da Switch não é tão robusta com as das outras plataformas, como o serviço Nintendo Switch Online, algo obrigatório para acederem a esta componente, ainda está na sua infância. A Nintendo terá certamente o talento e a vontade de querer dotar Ultimate com uma componente online que espicace a vontade dos jogadores, mas só o passar do tempo é que poderá revelar a forma como a sua maturação acontecerá.

Super Smash Bros. Ultimate será um dos jogos que marcará o ano que agora está prestes a terminar. São inúmeras personagens e cenários, uma jogabilidade que continua a ser acessível, mas que se revela desafiante na hora de dominar os seus processos, são também vários modos de jogo, e novidades como os Spirits e World of Light, uma excelente banda sonora e um departamento gráfico sólido e pejado de carisma. O seu ponto menos conseguido está relacionado com a ergonomia dos Joy-Con, ocasionalmente sentido-se que os comandos da Switch não foram propriamente otimizados para certos tipos de jogo, como DOOM e Wolfenstein II: The New Colossus já o tinham revelado. Mas isso é muito pouco para que o enorme trabalho e devoção de Masahiro Sakurai não sejam celebrados.