Começar a jogar Tales from Borderlands provou ser um exercício estranho. Bastam alguns minutos para termos ao nosso dispor mecânicas que foram ficando extremamente familiares com a conclusão das temporadas de The Wolf Among Us e The Walking Dead, contudo, aplicadas a um universo totalmente novo. Pormenores como a diferente fonte de texto numa janela com várias escolhas narrativas provocam alguma estranheza.

Contudo, não é menos verdade que mais alguns minutos volvidos e começamos a ter a perceção de que estamos perante um jogo assinado pela Telltale Games, tal é o reconhecimento inequívoco do seu cunho. E não se pense que Tales of Borderlands joga numa liga inferior aos exemplos já dados: quem não gosta de Wolf e Walking Dead, não vai gostar; quem gosta vai adorar.

Em "Zero Sum", o primeiro episódio da temporada inaugural, a produtora californiana propõe-se a contar a história de duas personagens distintas: Rhys e Fiona. Comecemos pelo primeiro protagonista a entrar em cena: Rhys, o jovem gestor na Hyperion, uma empresa que se dedica ao fabrico robótico. Logo no início do jogo ficamos a saber que Rhys deveria ser promovido, contudo, não é esse o plano de Vasquez, o seu patrão.

Fiona é reside em Pandora e é uma vigarista assumida. Como no centro da narrativa está uma mala com 10 milhões de dólares e uma chave para um portal, apesar de chegarem de lados díspares, a vontade de Rhys vingar-se de Vasquez e a atração que Fiona tem pelo dinheiro acabam por fazer com que a suas histórias se toquem e se vão moldando com o passar do tempo.

O jogador controla a dupla de personalidades fortes, sendo interessante ir conhecendo as duas versões de certos acontecimentos da trama ou como os dois desconhecidos acabam por trabalhar em conjunto, um pouco como o argumento da série televisiva The Affair é apresentado aos telespetadores.

E é aqui que somos confrontados com um dos melhores pontos desta estreia: a personalidade das personagens. O argumento está acima de ser sofrível, mas é a química que as personagens têm entre si e com o jogador, o carisma, os diálogos, a maneira como nos fazer ficar com elas no pensamento longas horas depois do episódio ter acabado. Uma boa parte da reputação da Telltale foi construída com base nisto e "Zero Sum" não desilude.

O resto do elenco está à altura dos seus papéis secundários, sendo que, mesmo nas situações em que um dos protagonistas contracena apenas com uma personagem secundária, tal como num excelente filme, também aqui o jogador não é deixado à lei do aborrecimento e a assobiar para o lado enquanto a próxima cena interessante não chega.

Outro ponto que merece ser mencionado é o humor de Pandora. Os jogos desenvolvidos pela Gearbox apostam muito em fazer sorrir os jogadores, a Telltale consegue fazer sorrir e rir em alguns casos: piadas que vão desde o formato das naves ao aviso de "Jailbreak" quando tentamos combinar as armas do Loader Bot, passando pela recordação traiçoeira e, já perto do final do capítulo, na maneira como Rhys tenta capturar um inimigo. São momentos bem-dispostos, que recorrem a vários tipos de humor.

O humor continua na forma como as personagens são apresentadas ao jogador e, por exemplo, à semelhança - física e de personalidade - que Shade tem de Raoul Duke, personagem interpretada por Johnny Depp, em "Delírio em Las Vegas". Mas nem só de risos e gargalhadas vive a estreia de Tales from Borderlands, tendo contado dois jump scares minimamente eficazes.

Tal como nos jogos anteriores da produtora, existirá uma falange de jogadores a afirmarem que não existem cenas jogáveis suficientes e, em parte, acabam por ser acusações com algum fundamento. Contudo, "Zero Sum" introduz algumas novidades: o "Echo Eye" é um scanner que permite recolher mais informação sobre determinados itens; o Loader Bot é um mech com uma pitada de personalização do poder de fogo; existe dinheiro e até um inventário, dependendo da personagem que controlam. Pequenos ajustes que tentam diferenciar este de títulos pretéritos.

Sem apressar o andamento, o primeiro episódio ocupou-me aproximadamente duas horas e meia do meu dia. Durante esse tempo todo, importa mencionar que tive que fazer algumas escolhas difíceis - contudo, nunca tão "pesadas" como em The Walking Dead e Wolf Among Us. Mais: durante essas duas horas e meias, apesar de serem poucos e esporádicos, existem alguns trechos menos conseguidos e onde a intensidade está longe dos pontos altos já mencionados.

Finalmente, ainda que me tenha deparado com algumas quebras na framerate, não encontrei problemas técnicos de maior na versão Steam do jogo. De salientar ainda a componente gráfica que permanece na mesma onda das séries pretéritas, ou seja, não esperem a reinvenção do grafismo, apenas a continuação de uma das imagens de marca da produtora.

A sonoplastia também não desilude, encaixando-se bastante bem em Pandora. Porém, é importante mencionar a vocalização dos dois protagonistas, pois fazem um trabalho assinalável. Troy Baker é o responsável por Rhys, enquanto Laura Bailey ficou responsável por Fiona. E se reconhecerem a voz de Vasquez é porque o ator é Patrick Warburton, responsável por personagens em Family Guy e Skylanders. Como nota de rodapé fica a música "Busy Earnin'" dos Jungle, que encaixa na perfeição no final do episódio e início dos créditos finais.

Tales from Borderlands tem uma estreia em grande com "Zero Sum", afastando os receios que a produtora estivesse a querer fazer muito em pouco tempo. Pessoalmente, o episódio tinha conquistado a minha vontade de continuar a jogar a série muito antes do excelente final.

A Telltale está em grande forma, transparecendo a ideia que sabe perfeitamente o que está a fazer, algo que intensifica ainda mais a vontade de continuar a seguir o seu trabalho, seja com as séries já iniciadas, seja, por exemplo, com a iminente estreia de Game of Thrones. Veremos até onde a mestria de contar histórias nos leva. E não, não é preciso terem jogado os Borderlands anteriores para desfrutarem destes contos.