O humor é uma das características mais interessantes do ser humano. O dicionário da língua portuguesa descreve-a como a "qualidade do que é divertido ou cómico" e a nossa capacidade para o apreciar. A habilidade de aproveitar situações do quotidiano ou até a linguagem e expressões para provocar uma das reações mais positivas que podemos demonstrar, o riso, não está ao alcance de todos, mas todos somos capazes de a apreciar e retirar prazer da mesma.

Ainda assim, exemplos de videojogos que incorporaram com sucesso o humor na sua experiência contam-se pelos dedos da mão e, na maioria dos casos, enquadram-se na categoria de comicidade que apela sobretudo a um grupo demográfico específico, passando ao lado da generalidade do público. Com Tales from the Borderlands, a Telltale consegue impregnar na experiência humor com o qual qualquer jogador, independentemente da sua idade e gosto, se pode divertir.

Principiando exatamente no mesmo momento em que o primeiro episódio da série havia terminado, Atlas Mugged volta a colocar-nos na pele de Rhys, um mero empregado de limpeza em busca de subir nos rankings da Hyperion, e de Fiona, uma artista da decepção à procura do embuste perfeito para ganhar uns milhões e abandonar Pandora com a sua irmã.

A existência de duas personagens jogáveis é assim responsável por uma das mecânicas mais interessantes da série baseada na propriedade intelectual da Gearbox Software que, como seria de esperar de uma obra da Telltale, é aplicada sobretudo ao serviço da narrativa. Desta forma, a história chega-nos a partir de duas perspetivas completamente diferentes, oferecendo sequencialmente novas camadas de profundidade aos eventos quando estes nos são apresentados originalmente.

Infelizmente, Atlas Mugged não retira tanto partido desta mecânica, uma vez que a vasta maioria das suas sequências colocam os protagonistas em cenários e situações que não estão diretamente relacionadas. Significa isto que momentos em que o "dito é dado por não dito" não são tão frequentes como no primeiro capítulo de Tales from the Borderlands.

Para além disso, o novo capítulo não introduz grandes desenvolvimentos no que ao arco narrativo geral diz respeito, preferindo concentrar-se sobretudo nas suas personagens e nas relações entre elas. Uma vez que estamos perante seres ficcionais criados pela Telltale, ou seja, personagens interessantes com personalidades complexas e motivações reais, o episódio consegue manter o jogador investido na narrativa durante a totalidade das quase duas horas de duração.

Algumas personagens não tiveram direito ao tempo de antena que alguns jogadores poderiam desejar, sendo um exemplo disso o bastante popular vilão Handsome Jack. Apesar de a sua participação não ser tão prolongada como se esperava, especialmente tendo em conta o final do primeiro episódio, Jack é o responsável por alguns dos momentos mais engraçados do capítulo e certamente regressará em força nas futuras entradas da série.

Como referi no início deste texto, o humor é o elemento chave que torna toda a experiência divertida e interessante. Tivesse este elemento falhado o seu objetivo e provavelmente estaríamos perante uma obra insípida sem o peso emocional e dramático das outras séries episódicas da produtora. A principal razão porque resulta deve-se à mestria da escrita e dos diálogos trabalhados cuidadosamente que juntamente com o trabalho de voz excecional faz com que todas as peças do produto final se conjuguem na perfeição.

No entanto, o humor pode também ser uma das razões porque Atlas Mugged, tal como o primeiro episódio, falhe na oferta de momentos de decisão com tensão palpável e um impacto significativo no desenrolar da história. Aliás, a própria produtora reconhece isso durante um dos momentos óbvios de decisão entre duas opções através dos constantes comentários do protagonista, satirizando as próprias mecânicas pelas quais a produtora se tornou conhecida.

Inspirando-se nas raízes de ação da propriedade intelectual em que se baseia, o segundo episódio de Tales from the Borderlands conta com várias sequências de ação com quick time events que servem para aumentar um pouco o ritmo depois dos longos diálogos em que este abranda consideravelmente.

Graficamente, a série mantém o estilo visual apresentado pelos jogos da Gearbox Software e que se enquadra bastante bem no método utilizado pela Telltale para aproximar séries como The Walking Dead e The Wolf Among Us das suas bandas desenhadas. Como não poderia deixar de ser, o episódio apresenta alguns problemas técnicos como dessincronizarão entre o som e a imagem e quebras na framerate.

Atlas Mugged, o segundo capítulo de Tales from the Borderlands, consegue manter o nível elevado estabelecido pelo episódio que inaugurou a série e prova mais uma vez o talento da Telltale para produzir narrativas envolventes, mesmo sem recorrer a momentos dramáticos e emocionais. Pode ser acusado de contribuir pouco para o arco narrativo geral da série, mas, como a viagem é tão importante como o destino final, o humor agarra a atenção do jogador do princípio ao fim da aventura.