Num período em que a PlayStation 4 centra em si quase todas as atenções dos jogadores de todo o mundo, é uma outra plataforma da Sony que recebe um do seus maiores trunfos do ano para adicionar ao seu catálogo de jogos. A PlayStation Vita continua a fazer uma autêntica travessia no deserto, com vendas muito tímidas que podem começar a colocar em causa o futuro da plataforma, e Tearaway, título produzido pela Media Molecule, representa a mais recente tentativa da produtora de movimentar mais algumas unidades da sua poderosa portátil. Ainda assim, a enorme qualidade do jogo providenciado pelo estúdio de LittleBigPlanet pode não ser o suficiente para convencer o comum dos jogadores a adquirir a plataforma.

Antes de começar, Tearaway oferece-nos a possibilidade de escolher o nosso protagonista: Iota (masculino) e Atoi (feminino). Esta escolha acaba por não ter grande impacto na sua narrativa, uma vez que as únicas diferenças visíveis durante a vossa experiência serão ligeiras variações nas falas dos narradores omnipresentes que controlam o rumo dos acontecimentos. Tal como havia escrito na antevisão, o jogo faz questão de estar constantemente a colocar-nos no cenário, com algumas imagens um tanto ou quanto embaraçosas nas secções finais, e no centro das atenções através da câmara da portátil que transpõe a nossa imagem para o centro do Sol que brilha intensamente sobre o mundo de jogo.

O nosso principal objetivo é levar Iota ou Atoi, o mensageiro, até nós, o Sol, para nos entregar uma mensagem especial, tendo para isso que superar vários obstáculos que os narradores vão colocando no nosso caminho. Sendo este um título de ação e aventura com enorme foco na exploração, não é uma grande surpresa que o seu arco narrativo seja bastante simples e pouco surpreendente. No entanto, a existência de um certo tom encantador aos acontecimentos que pautam a aventura faz com que o jogador se mantenha interessado e envolvido naquilo que acontece no ecrã.

Não posso deixar de ficar um pouco desapontado com a relativa curta duração da campanha que me demorou apenas cerca de 7 a 8 horas para a concluir. Tendo em conta a inexistência de qualquer outro tipo de modo de jogo, alguns jogadores poderão ficar um pouco desiludidos com a quantidade de conteúdo que obterão do título. Ainda assim, a grande quantidade de objetivos secundários, como confetes para recolher e personagens secundárias para ajudar, oferecem algumas horas adicionais para aqueles que quiseram completar todas as secções do mundo na sua totalidade e incentivam ainda mais a exploração dos cenários. De salientar ainda que o jogo mantem-nos sempre informados sobre os objetivos secundários que nos possam ter passado ao lado, facilitando assim o trabalho a todos aqueles que pretenderem obter tudo o que jogo tem para oferecer.

Como não poderia deixar de ser num título do estúdio britânico, a personalização do nosso protagonista é um aspeto muito importante do jogo, sendo que esta pode ser feita através de objetivos obrigatórios na campanha ou da compra de novos adereços, utilizando para isso os confetes que se encontram espalhados pelos cenários à espera de serem recolhidos. Para mostrarmos ao mundo a nossa aparência única, o jogo oferece-nos uma câmara que, embora seja fulcral para avançar na aventura, será mais vezes utilizada para tirar autofotos que podem depois ser partilhadas no Facebook e no Twitter ou para reestabelecer a cor a determinados objetos dos cenários que, por sua vez, desbloquearão modelos de papel que poderemos construir com as nossas próprias mãos.

Um dos principais motivos porque Tearaway é uma experiência tão interessante e especial prende-se obviamente com a sua jogabilidade. Ao contrário de tantos outros exclusivos PlayStation Vita que recorrem às funcionalidades únicas da plataforma, este título faz um uso extremamente inteligente das mesmas, nunca abusando exageradamente delas e utilizando-as de uma forma natural e intuitiva. É também importante salientar que o nosso protagonista vai crescendo ao longo da sua aventura, passando de um mensageiro quase indefeso, para um ser capaz de eliminar ou pelo menos evitar os inimigos, intitulados retalhos e provenientes do mundo dos "Tus". Cada secção do mundo introduz novos elementos com os quais temos de aprender a lidar, alguns que ficam connosco para o resto da aventura, como por exemplo a habilidade de saltar e rebolar, e outros que apenas são utilizados num determinado momento. Para cada tipo de inimigo que o jogo coloca no nosso caminho, existe uma habilidade especialmente indicada.

O trabalho de equipa é também um elemento fundamental no conceito de Tearaway, uma vez que o jogador desempenha um papel muito importante, através da sua interação com o mundo de jogo, para que o nosso protagonista atinja o seu destino. Se sem a nossa intervenção, Iota ou Atoi não conseguirão chegar até ao Sol, sem o mensageiro, a mensagem não chegará até nós. A interação com o mundo de jogo será feita maioritariamente através do painel traseiro e do ecrã tátil da portátil da Sony para fazer o personagem saltar, mover plataformas ou até mesmo para destruir inimigos. Tudo é feito de forma simples e eficiente, sem nunca provocar momentos de frustração. Para além disso, o jogo pedirá também ao jogador, em determinados momentos, que desenhe objetos básicos através do ecrã tátil. Felizmente, o título não é muito exigente com as nossas capacidades artísticas e aceita qualquer tipo de esboço.

No entanto, nem todos os elementos da jogabilidade funcionam da melhor forma e como seria desejável. A câmara de jogo pode representar alguns problemas em determinados momentos, sobretudo quando se torna fixa e nos impede de a adaptar aos nossos desejos, embora tais momentos sejam escassos e nunca perturbem de forma significativa a experiência. Outro problema está relacionado com as secções que fazem uso dos sensores de movimentos da portátil. Apesar de estes controlos serem extremamente funcionais, acabam por obrigar-nos a girar de tal forma a PlayStation Vita que deixamos de conseguir ver o ecrã de forma adequada.

Já o havia mencionado quando escrevi a antevisão ao título e as largas horas que passei com a sua versão final comprovaram as minhas suspeitas: o jogo é de facto bastante fácil. Os puzzles são interessantes e bem conseguidos, mas de resolução extremamente simples, e a existência de pontos de controlo muito frequentes impedem que o jogador sinta, em momento algum, que as suas capacidades estejam a ser testadas verdadeiramente.

Graficamente, não existe nada de negativo a apontar. O mundo de papel de Tearaway é uma delícia para os olhos, tudo é extremamente bonito, detalhado e colorido, com todos os objetos que pautam a grande variedade de cenários a receberem igual atenção por parte dos produtores. Pode não parecer um título que retire o máximo proveito do poderio gráfico da portátil, mas o seu estilo visual único confere-lhe uma identidade própria e um mundo sem igual.

A banda sonora é também ela de grande qualidade, assentando na perfeição no género do jogo em questão e contando com um belo rol de bonitas composições que se adaptam ao ritmo daquilo que acontece no ecrã. Destaque também para o bom trabalho feito pela Sony na localização do título para português, com vozes de excelente qualidade, dignas de um verdadeiro conto de fadas como acaba por ser a narrativa e o ambiente do jogo.

Em suma, Tearaway é uma experiência muito interessante e sem igual no catálogo da PlayStation Vita, sendo um dos melhores títulos disponíveis para a portátil. O mais recente projeto da Media Molecule corresponde a todas as expectativas a que estava associado e apenas problemas menores e a curta duração podem ser mencionados como motivos para não adquirirem este jogo. Ainda assim, não me parece que o título venha a conseguir elevar o número de vendas da portátil da Sony, muito embora seja perfeito para os jogadores que procuram um jogo que possa ser apreciado durante curtos espaços de tempo e que não os obrigue a passar horas colocado ao ecrã OLED.