Nota: Esta análise é referente à totalidade da experiência de Tell Me Why, isto é, aos três episódios que compõem o título, através de acesso antecipado fornecido pela Microsoft Portugal.

Tell Me Why é um jogo importante e um marco para esta ainda jovem indústria. Com uma personagem transgénero a assumir o protagonismo da sua nova aventura narrativa, a Dontnod propôs-se não só a dar um convicto passo em frente na representação destas pessoas, mas expôs-se igualmente à possibilidade de cometer os mesmos erros que tantas peças de entretenimento o fizeram em esforços anteriores. Felizmente, o resultado final mostra um trabalho cuidado neste departamento e a confiança para abordar assuntos sensíveis com tato.

Aliás, essa pode ser uma das conceções erroneamente associadas a Tell Me Why. Sim, Tyler, o irmão gémeo de Alyson, é um homem transgénero, mas esse não é, de todo, o principal foco da narrativa e é apresentado apenas como mais um dos elementos que define quem o protagonista é, não mais, ou menos, importante do que a sua personalidade e as relações que estabelece com quem o rodeia. 

Percebe-se, e até se aplaude, esta abordagem ao tema, desviando a atenção do trauma tão frequentemente associado a este tópico, contudo, é difícil não achar que a obra se esconde um pouco no momento de nos fazer perceber as reais dificuldades porque Tyler passou ao longo do seu crescimento. Essencialmente, isto significa que a obra da Dontnod não segue a velha máxima de “mostrar, não contar”, ou seja, o jogo faz menção às dificuldades do período de transição do protagonista enquanto crescia numa instituição através do relato do próprio, mas o jogador nunca experiencia algo semelhante, o que poderia fortalecer a sua ligação ao irmão.

Na verdade, Tell Me Why sofre um pouco em todos os elementos narrativos que não estão diretamente relacionados com o foco da história. As referências aos clãs indígenas do Alasca são interessantes, mas não recebem grande atenção, algo que se estende a outras componentes que conferem uma maior diversidade ao elenco e a Delos Crossing, a pacata vila afastada da correria do mundo urbano que serve pano de fundo à aventura. Acima de tudo, estamos perante um jogo que se esforça para fazer um bom trabalho na representação desta diversidade, mas que não retira grande proveito da mesma.

Ainda assim, é no seu elenco secundário que a obra da Dontnod mais desilude. Isto não deixa de ser algo estranho, tendo em conta que foi precisamente neste departamento que Life is Strange 2 mais brilhou, mas o que é certo é que as personagens que acompanham a história de Tyler e Alyson são pouquíssimo memoráveis e, à exceção de Michael, o melhor amigo da irmã, o jogo não faz um bom trabalho em investir-nos nas suas vidas e no papel que desempenham ou desempenharam na história dos irmãos.

Tell Me Why é a história de Tyler e Alyson. É neles que a atenção está sempre focada e é por eles que a obra nos cativa e mantém o nosso interesse, pelo que por aqui se explica a incapacidade para fazer o restante elenco brilhar. Afastados por diversos anos após a morte da mãe, os irmãos regressam agora à casa de infância para preparar a sua venda, atividade que rapidamente se transforma numa viagem pelas memórias, algumas alegres, outras nem tanto, dos tempos que passaram naquela isolada habitação apenas com a companhia da sua mãe e da sua imaginação.

A exploração dos recantos da casa leva-os também a descobertas que contrariam aquilo que julgavam ser verdade sobre o evento trágico que marcou a sua separação. Ainda que a progressão seja algo lenta, os diferentes métodos que o título utiliza para desvendar camadas do mistério em redor da mãe dos irmãos ao mesmo tempo que lhe vai adicionando outras, resultam de forma excelente e aguçam de forma constante a nossa curiosidade. Um dos destaques da obra é a forma como utiliza o livro de histórias de infância dos irmãos para traçar paralelismos com a sua investigação ao passado, algo que ganha preponderância no último episódio.

Essa investigação acaba também por ter o seu impacto na relação dos irmãos, juntos pela primeira vez em dez anos. Apesar de ser óbvio o quanto Tyler e Alyson gostam um do outro e a química que continuam a ter nas suas interações, a abordagem de cada um deles e a motivação para continuar em busca de respostas nem sempre coincide. É durante a gestão destes atritos, através das escolhas de diálogo e tomada de decisões, que moldamos esta relação.

De uma forma geral, são momentos subtis, mas importantes para se perceber que, embora gémeos, os irmãos são pessoas bastante diferentes. Tyler é mais intempestivo, tem poucas preocupações em preservar relações com os restantes habitantes de Delos Crossing e pretende desvendar a todo o custo a verdade sobre o seu passado. Por sua vez, Alyson é mais calma e afável, continuou, ao contrário do irmão, o seu crescimento na pacata vila e quer, acima de tudo, colocar o passado para trás das costas e avançar com a sua vida. 

Mesmo no conflito, o carinho entre ambos é sempre notório e a dualidade das suas personalidades permite ao título oferecer duas perspetivas distintas em relação aos eventos que se vão desenrolando no ecrã, mas não só. Através da mecânica que a produtora denomina de Bond, os irmãos são capazes de comunicar telepaticamente, mas também de materializar momentaneamente memórias da sua infância. Esta habilidade acaba por ser a força motriz da narrativa, pois é através dela que ficamos a conhecer Mary Ann, a mãe dos irmãos, e ganhamos um maior interessante em descobrir as razões e eventos que levaram ao desfecho trágico.

Embora nunca tenhamos oportunidade de interagir diretamente com ela, Mary Ann é uma personagem fundamental desta história e a forma como a nossa perceção, bem como a dos próprios irmãos, se vai alterando à medida que novas memórias são recordadas e novas informações reveladas é excelente. Em alguns momentos, Tyler e Alyson recordam o mesmo evento de forma distinta, muito por culpa das suas diferentes opiniões e sentimentos relativamente a determinadas personagens, o que nos obriga a escolher qual a versão mais credível. Para além do impacto desta escolha na sua relação, este conceito exalta precisamente o poder das memórias para alterar o passado e a sua pouca fiabilidade.

Aquilo que pode aparentar uma coisa, pode na verdade ter um significado completamente diferente assim que mais contexto é adicionado à recordação. É por isso que a gradual mudança na forma como recordam a sua mãe, à medida que novos detalhes são obtidos, resulta tão bem, isto é, porque essa transição ocorre de forma simultânea para as personagens e para o próprio jogador, ligando-o ainda mais à investigação dos irmãos. Tyler, Alyson e a incógnita que é Mary Ann carregam esta narrativa às costas e é por eles que o interesse em assistir à conclusão não desvanece.

No que diz respeito ao departamento técnico, há que salientar que a Dontnod continua a progredir ao nível da modelagem das personagens, das animações faciais e da cinematografia das cenas. Nota-se um maior recurso a planos aproximados das caras dos protagonistas para transmitir emoções, especialmente nos momentos de maior impacto. As vistas proporcionadas pelo cenário gelado do Alasca também ajudam a tornar a experiência mais bela. A sonoplastia é também de qualidade, com a banda sonora a fazer-se sentir nos momentos mais tensos e o uso de músicas licenciadas a voltar a marcar presença. A vocalização das personagens, sobretudo os protagonistas, é globalmente sólida.

Tell Me Why é assim mais uma sólida aventura narrativa dos criadores de Life is Strange. Com um duo de protagonistas excelente e um mistério cativante no centro da sua história, a obra peca apenas por não explorar mais a fundo alguns dos temas que aborda e por não conseguir oferecer um elenco secundário que ajude a elevar ainda mais a experiência. O ritmo é algo lento e o segundo episódio é parco em desenvolvimentos, contudo, é uma história que vale a pena e merecedora de atenção.