Pedro Martins por - Jul 20, 2017

That’s You! – Análise

Já se sabe que os Party Games têm uma atuação localizada. Têm que estar reunidas as condições ideais para que se possa retirar partido do que é oferecido pela obra. Joguem um Party Game sozinho pela madrugada adentro e o mais certo é que o jogo tenha o efeito oposto ao devido; joguem-no, contudo, com um grupo de amigos e se a proposta for interessante, o riso e a boa disposição ficam mais próximos.

A PlayStation 4, consola de Uncharted 4 e futuramente de God of War, coloca no seu catálogo uma destas ofertas, That’s You! ou, se preferirem usar o título em português, És Tu! Tal como já tive oportunidade de mencionar neste artigo, desde o seu lançamento que lhe tenho dedicado algumas sessões de jogo, tentando perceber o que vale, afinal, a obra da Wish Studios. Agora posso escrever que vale uns sorrisos nos primeiros momentos, mas que vai diluindo a nossa atenção e vontade de continuar a jogar com o passar do tempo.

Imagens Analise Thats You

Na verdade, há duas partes distintas de És Tu! Além de descarregarem o jogo na vossa consola, por 19,99€ ou pelo preço imbatível de 0,00€ caso tenham uma subscrição PlayStation Plus ativa no momento em que esta análise é escrita, os participantes terão também que descarregar a respectiva aplicação para o seu smartphone ou tablet, disponível para Android e iOS. Depois deste processo, desde que estejam na mesma rede Wi-Fi, não deverá haver qualquer obstáculo técnico a ultrapassar. Pela minha experiência, foi tudo feito rapidamente à primeira tentativa.

No arranque têm que escolher uma carta, tirar uma selfie usando a câmara do vosso dispositivo móvel, e inserir o vosso nome. É isto e estão prontos a jogar És Tu! Em cada sessão de jogo podem participar entre dois e seis jogadores e, sem grande surpresa, quantos mais jogadores alinharem, maior é a diversão. Aliás, apenas com dois jogadores, fica desde já o aviso que sente-se sempre que não se está a retirar partido do que o jogo tem para oferecer. 

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Na sua essência, a obra leva-nos por vários cenários onde são colocadas perguntas ou atividades aos participantes. As perguntas são sobretudo sobre o que cada pessoa faria em determinada situação, o que de forma pouco irónica revela o quão bem – ou não – conhecemos quem está ao nosso lado. Mas é também possível imitar uma imagem usando uma selfie tirada com o telefone, ou libertar o nosso lado artístico desenhando no ecrã tátil. Quanto mais pessoas selecionarem o mesmo esforço, mais pontos são atribuídos.

Quando tiverem a certeza – dentro do que é possível – que sabem a resposta certa, podem jogar um Joker, que duplica a pontuação. Obviamente, o número de Joker é limitado, mas quando trocam de cenário ou quando estão em sintonia, o apresentador de serviço retribui um Joker para que as apostas possam continuar. Ainda assim, os mesmos só devem ser jogados quanto têm a mínima certeza do que estão a fazer, ou é um passo em falso que poderá custar-vos a vitória no final.

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Há cenários que ilustram um banco ou a vida doméstica, outro em que o tema é o amor e embarcam numa visita a um quarto de hotel. Há perguntas que podem apanhar os participantes desprevenidos, como “Quem é que se apaixonaria no primeiro encontro?” Outros são claramente pensados para o riso fácil: desenhem um dos participantes como um Faraó ou como um DJ. Mas são também convidados a visitar uma sala de aula – que faz lembrar o arranque de Life is Strange – e coloca pergunta sobre os vossos anos académicos, envolvendo as piadas da professora, por exemplo.

São mais de mil perguntas, segundo a descrição oficial. E se me permitem voltar ao lote de exercícios embaraçosos, olhem este exemplo: é pedido que indiquem que imagem melhor descreve um dos participantes como amante. Entre as hipóteses está um cisne, mas está também uma preguiça e um leão. Se um casal estiver envolvido e as respostas não forem as mesmas, o resultado pode ter tanto de hilariante como de embaraçoso, o que o torna ainda mais hilariante para os restantes jogadores.

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Outro exemplo: em determinado momento, És Tu! transforma-se numa obra coscuvilheira e não tem problemas em perguntar quem é que se envolveria com uma estranho num parque de diversões. Nota-se, contudo, que tudo é feito com bom coração, ou seja, nunca senti que estava perante algo destinado a ser corrosivo, como outras propostas do género. 

Aliás, talvez fosse melhor uma dose mais duradoura de veneno nas veias do jogo, ou pelo menos uma maior consciência que quem concorda em participar neste género deve estar disposto ao rídiculo. Talvez isso tivesse resolvido o maior problema de És Tu! – depois do encanto de se descobrir como a tecnologia funciona e depois das primeiras rondas a descobrir as mecânicas das perguntas, fotos e desenhos, instala-se a monotonia.

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Mesmo com um número alargado de jogadores, tendo participando nas rondas todas para efeitos desta análise, senti que se calhar estava na hora de partir para outra, que por muito que o jogo tenta-se com uma situação nova, os processos já tinham sido chão que deu uvas. Nunca é um bom sinal num Party Game quando o pensamento predominante a principiar uma nova ronda era “outra vez isto?”

Ninguém se sentirá de fora, pelo que podem todos sentir a monotonia ao mesmo tempo. És Tu! Está totalmente localizado em português de Portugal, ou seja, o texto e a narração do apresentador é compreensível por todos os jogadores, de todas as idades. Desde que compreendam como usar um telemóvel, estão aptos para jogar. O humor, bem, o humor tem os seus momentos, mas tem sobretudo os seus momentos “alternativos”. Isso é comprovado com esta saída do apresentador: “Quem ri por último, ri mais alto. A não ser que estejam a jogar dominó com chimpanzés porque eles não conhecem as regras”. O que fazer com esta informação? Rir ou chorar? Ainda não descobri e já passou algum tempo desde que a anotei.

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A qualidade das fotografias dependerá sempre da qualidade da câmara do vosso dispositivo, mas escrevendo agora sobre o lado mais técnico do videojogo, nunca tivemos problemas em perceber a figura triste que estávamos a tentar passar. Além disso, a ferramenta para desenhar é bastante completa, sendo possível alterar a cor e a espessura do traço. Infelizmente, não é uma ferramenta que faça milagres, pelo que estarão sempre dependentes das habilidades artísticas do grupo.

És Tu! foi desenvolvido usando o Unity, mas alguns dos cenários, como um parque de diversões à chuva, apresentam um grau de detalhe surpreendente, tal como os efeitos de luz e de sombra. A fidelidade gráfica não é o ponto primordial num jogo deste género, mas foi uma agradável surpresa. Além disso, tive oportunidade de organizar sessões com dispositivos Android e iOS ligados à mesma PlayStation 4 e posso reportar que os sistemas operativos se deram sem quaisquer quezílias.

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A recomendação deste jogo é fácil nestas condições: se tiverem uma conta PlayStation Plus, deem-lhe uma oportunidade porque não têm nada a perder. Agora, por 19,99€ não vale a pena. Se o preço fosse 9,99€ a recomendação mantinha-se, mas o preço de admissão não vale o que o jogo oferece após os momentos iniciais. Bem sei que os Party Games não foram pensados para maratonas de quatro ou cinco horas diárias, mas não me vejo a regressar a És Tu! daqui a alguns meses.

Na prática, é um jogo com boas ideias e com uma tecnologia que não falhou uma única vez, pelo que será interessante ver o que a produtora e o sistema PlayLink poderá oferecer com o seu amadurecer – Hidden Agenda parece o mais interessante em teoria -, mas este jogo em concreto não tem pernas que sustentem uma corrida de fundo. Não ajuda que o multijogador online esteja restrito à vossa lista de amigos. Compreendo que queiram controlar o conteúdo que aparece no televisor, mas acaba por ser um estrangulamento de uma componente que poderia prolongar o seu tempo de vida útil.

veredito

A tecnologia é sólida e algumas ideias são interessantes, mas depois dos momentos iniciais, És Tu! revela-se mais tarefa e menos diversão.
6 Gráficos apelativos. Tecnologia funciona de forma sólida e intuitiva. Passado algum tempo torna-se monótono. Caso não tenham PS Plus, o preço é de 19,99€.

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That’s You

para PlayStation 4

Lançado originalmente:

04 July 2017