A nova versão do primeiro jogo da Grasshopper Manufacture, The Silver Case, realizado por Goichi Suda, mais conhecido por “Suda51”, deixou-me bastante interessado pelo facto de ter sido criado por este autor japonês. Foi um jogo lançado em 2016, aqui analisado, que tem como base o original publicado em 1999 na PlayStation, em exclusivo na consola da Sony e no Japão. Trazer um jogo tão antigo, dezassete anos na altura em que foi lançado no Steam, para uma audiência muito diferente da que cresceu com uma PlayStation, Nintendo 64 ou SEGA Saturn é, no mínimo, curioso de se assistir.

Com a sequela The 25th Ward: The Silver Case, o caso é bem diferente. O simples facto deste jogo ser uma nova versão para PC e PlayStation 4 de um original lançado para telemóveis em 2005 retira muito do potencial interesse que podia ter recebido. Porém, é um jogo do “lendário e incrível Suda51”, como devem pensar alguns, que conseguiu alguma fama com obras como Killer7, No More Heroes, Shadows of the Damned e Lollipop Chainsaw. Há quem compre de imediato os videojogos com este nome associado à obra. Porém, há que ver a obra como um todo, sem ficarmos encadeados com a insanidade da narrativa com temáticas que nos fazem pensar para além do próprio jogo.

Imagens The 25th Ward Analise

Só porque este jogo vem da mente de um autor que gosta de rumar em sentido contrário às convenções desta indústria, não quer dizer que devemos aceitar, cegamente, todas as particularidades que definem o seu modo de ver ou desenhar jogos. Uma das características dos videojogos de Suda51 é de serem estranhos, não propriamente pelo tema que abordam, mas pelas mecânicas que integram.

Quase meia década depois dos acontecimentos decorridos no jogo original, The Silver Case, esta sequela intitulada de “The 25th Ward: The Silver Case” idealiza uma cidade distópica onde existe uma comunidade muito peculiar. Os mais privilegiados têm acesso a este novo estilo de vida, uma cidade “perfeita”, praticamente sem aspetos negativos e completamente sem atividade criminal. 

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Contudo, quem lá habita tem de obedecer, à letra, às regras que foram colocadas. Quem fizer o mais pequeno erro nem é castigado, é abatido a tiro ou transformado num autêntico morto-vivo. Já aqui temos a linha narrativa totalmente no campo do absurdo. A vantagem é de não conseguirmos antever o que quer que seja que a trama tem para nos oferecer.

Este é um visual novel, ou seja, não esperem uma grande interação com o jogo da vossa parte. E quando o jogo não descarrega inúmeras linhas de texto para o ecrã, com um irritante som de teclas a bater para cada letra, este entrega-nos mecânicas de um jogo de apontar e clicar. Temos de encontrar o nosso caminho por longos corredores, conversar com algumas personagens e até inserir palavras-chave. Isto decorre tudo numa campanha dividida em três partes de seis capítulos. O que realmente é pena não haver é vocalização para o jogo, pois seria menos uma camada de interpretação a desvendar pelo tipo de diálogos e imagens que as acompanham.

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Apesar de ser um jogo de Goichi Suda, só o primeiro capítulo é que foi efetivamente escrito por ele com traços tipicamente seus e que afirmam categoricamente a comparação que tem vindo a ser feita entre o seu trabalho e o de Quentin Tarantino. Os outros foram criados por Masahi Ooka e Masahiro Yuki, com capítulos menos caóticos e mais concisos na mensagem que querem transmitir. O jogo explora, sobretudo, a temática da corrupção nas autoridades que deviam defender a lei, enquanto que os dois capítulos seguintes versam sobre a corrupção exercida por cidadãos comuns na base da hierarquia social.

A ilustração recai em imagens estáticas que seguem, sobretudo, um estilo monocromático, onde o vermelho do sangue se destaca em muitos dos desenhos que são apresentados. O que em alguns casos vemos trabalhos claramente elaborados, noutros há desenhos com uma falta sentida de detalhe. Não há uma linha reta na direção artística escolhida, ou seja, há evidentes oscilações na qualidade do trabalho que é apresentado. Enquanto que uns se podiam confundir com obras de mestre da ilustração das páginas dos livros de manga, outros parecem ter sido desenhados por amadores.

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The 25th Ward: The Silver Case é ambicioso, mas é uma ambição que nunca chega a ser concretizada. Com uma jogabilidade que aborrece mais rapidamente que o desejado, ou a falta de brio profissional em vários elementos técnicos, nomeadamente, na tradução pobre que o jogo nem sequer disfarça ter. 

Este é um jogo onde vemos que foi por aqui que Suda51 seguiu rumo à materialização da sua "insanidade", ou à concretização em formato de videojogo o que este autor considera ser a insanidade. Contudo, são demasiados problemas para se considerar sequer uma recomendação. Porém, se são fãs deste autor, já o devem ter comprado e chegado ao fim da obra do japonês que vos deslumbrou com Killer7, No More Heroes, Shadows of the Damned e Lollipop Chainsaw.