Filipe Urriça por - Mar 8, 2022

The Artful Escape (Switch) – Análise

Não estava à espera de ficar tão arrebatado com The Artful Escape. O jogo da australiana Beethoven & Dinosaur é uma ode à criatividade e à autodescoberta. Não é um jogo que brilha em todos os departamentos, mas o que faz é único. The Artful Escape é a antítese de um jogo Triple A; ninguém tem a audácia de desenhar com este estilo artístico, de escrever um argumento deste género, nem de ter uma Banda Sonora original tão arrojada como esta sem ser uma produtora independente – visto que não têm nada a perder.

Quando penso em temas que poderiam ser abordados em videojogos, a criatividade é sempre uma das temáticas que acho ser mais difícil de realizar, dada a complexidade e profundas camadas que pode ter. Há muito a dizer sobre este assunto de natureza psicológica, mas também sinto que é muito fácil fazer algo de errado e é muito complicado dizer algo que toque nos sentimentos de quem joga. É por isso que The Artful Escape é uma obra tão especial, sobretudo no que toca à escrita, dado que tem diálogos tão peculiares de tão incomuns que são – e é tão bom poder ver um trabalho que arrisca assim na narrativa, porque torna-a ainda mais interessante.

O protagonista deste jogo, um jovem que vive na sombra de um familiar, é um artista musical que procura atingir o seu espaço e não viver atormentado por ter de fazer sempre melhor do que quem já passou pelo mesmo. Francis Vendetti é personagem principal controlada pelo jogador, um jovem adulto que carrega às costas o nome do seu tio, Johnson Vendetti, que já foi um grande estrela de música folk. É um peso enorme, uma responsabilidade tão grande que nem se atreve a tocar solos de guitarra elétrica como um Slash ou um Eddie Van Halen quando está perante um público que espera o mesmo tipo de sonoridade da família Vendetti. Na véspera do seu espetáculo, Francis é abordado por um extraterrestre e vai viajar para entrar numa jornada de introspeção criativa.

Na verdade, Francis, tal como qualquer outra pessoa que tenha a necessidade de criar algo original, não precisava de fazer esta viagem para chegar à criatividade que tanto precisa para se afirmar como músico. O protagonista descobre-se a si próprio, sem nenhuma ajuda externa, percebe finalmente o que o motiva a produzir música e como é que pode deixar de estar na sombra do seu talentoso tio. The Artful Escape está tão bem escrito que sentimos os problemas internos de Francis como se fossem nossos, a luta que tem consigo próprio para vencer na arte de fazer música. Na vida nem tudo nos é dado de mão beijada e é precisamente quando lutamos, para superar adversidades, que nos transcendemos enquanto seres humanos e profissionais da nossa área laboral – no caso de Francis Vendetti é a arte de criar música.

Esta jornada pela autodescoberta de Francis é feita pelos jogadores em vários segmentos de game design em The Artful Escape. Temos secções em que estamos a saltar como num jogo de plataformas, cheio de estilo a tocar guitarra elétrica à medida que se avança; em outros pontos do jogo paramos os saltos para subir em pequenos palcos para entreter extraterrestres com as nossas power chords e riffs, assim como os nossos solos a dedilhar infinitamente. O resto do jogo é seguir a narrativa a falar com estranhas personagens em diálogos ainda mais bizarros que se poderia prever.

The Artful Escape é uma experiência audiovisual memorável. A direção artística é fenomenal e percebe-se o porquê de ter levado três nomeações na última edição dos prémios The Game Awards nas categorias de Melhor Música e Banda Sonora, Melhor Estreia de um Jogo Indie e Melhor Direção Artística. Esta é uma viagem pelas alucinações de Francis, uma viagem pela mente criativa de um guitarrista desiludido, com receio de mostrar a arte que realmente tem vontade de criar e livrar-se de forma definitiva do seu nome que está associado ao sucesso de outra pessoa. Portanto, não estranhem se virem espaços com cogumelos que se iluminam com o som vindo do dedilhar na guitarra elétrica. Como é óbvio, visto que vão fazer uma viagem intergaláctica, até aos confins do universo, também vão conhecer criaturas muito estranhas que parecem ter saído de um desenho animado de ficção-científica dos anos noventa.

Um grande destaque deste jogo é a música. The Artful Escape tem uma Banda Sonora original onde o instrumento predominante é a guitarra. Não admira que a Banda Sonora seja tão boa, afinal o jogo foi feito, em grande parte, por Johnny Galvatron, músico da banda de prog rock australiana The Galvatrons. Dado que o tio do nosso protagonista angustiado parece ser inspirado em Bob Dylan (uma lenda da música norte-americana), as músicas do jogo refletem este facto. Assim, felizmente, os nossos ouvidos agradecem pelas melodias divinais de acordes de guitarra acústica, que podem ser ouvidas no Spotify ou no YouTube Music. Há um bom balanço entre a guitarra acústica e a elétrica, ambas enriquecem o jogo nos momentos certos.

Desta forma, The Artful Escape é o resultado da vontade de um músico em querer criar um videojogo. O resultado do labor da produtora australiana é, assim, um jogo que aborda um tema muito interessante do ponto de vista psicológico: a já mencionada autodescoberta pessoal. A situação de Francis é particularmente peculiar por ser uma pessoa frágil que se fortalece numa viagem à sua própria mente, visto que acaba por ser forçado a confrontar os seus problemas pessoais, a imagem que tem de si próprio e os seus medos quanto à entrega da sua arte enquanto músico que vive na sombra de um sucesso que não é seu.

Claro que podemos argumentar facilmente que as mecânicas não nos motivam o suficiente, porque promovem uma certa apatia no jogo em si. Todavia, fiquei completamente absorto na narrativa, que tem tanto de dramática como de cómica, apesar do dramatismo ser muito subtil e a comédia ficar sempre muito mais destacada. Há um elenco de personagens tão interessante e carismático, com vocalizações de atores bem conhecidos, como Carl Weathers e Lena Headey, tal como uma escrita tão arrojada e bizarra que é bom descobrir para onde é que somos levados.

Beethoven & Dinosaur tem um nome tão invulgar para uma produtora de videojogos que só podia de lá sair uma obra igualmente peculiar. Nem tudo o que sai fora dos padrões tem de ser automaticamente ignorado, por não conseguir gerar barulho suficiente nas redes sociais. The Artful Escape é muito bom, o arco narrativo de Francis fica com algumas pontas soltas quando encerra, mas ficamos satisfeitos com o que nos é entregue. Joguem esta obra australiana, é uma viagem memorável.

veredito

Uma experiência que vos levará ao mundo da criatividade musical com uma escrita sublime. Este jogo é único no que faz, dado que a narrativa é tão imprevisível quanto fascinante.
8 Direção artística. Banda Sonora original. Personagens memoráveis. Pouca precisão para tocar guitarra.

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The Artful Escape

para PC, Xbox One, Xbox Series

Um jogo de plataformas, ação, exploração e narrativa musical.

Lançado originalmente:

9 de setembro, 2021