Apesar de estar longe de ser aquilo que os jogadores pretendiam quando o logótipo da Dontnod surgiu no ecrã durante a conferência da Microsoft na E3 - ou, para os mais atentos, quando Hawt Dawg Man foi avistado -, The Awesome Adventures of Captain Spirit captou de imediato a atenção da fervorosa comunidade de fãs de Life is Strange quando foi confirmado que este seria uma espécie de prólogo, uma introdução ao mundo e personagens da muito aguardada sequela.

Disponibilizada há poucas horas de forma totalmente gratuita, esta apresentação de Life is Strange 2 tem alguns laivos daquilo que de melhor caracteriza a série episódica, ou seja, o seu charme, a capacidade para tornar frequentemente o quotidiano, o mundano em algo interessante e cativante. Na verdade, este pequeno capítulo tem, se formos um pouco generosos, apenas dez minutos de verdadeira progressão narrativa. 

Essa narrativa é, sem sombra de dúvidas, não mais do que um aperitivo para o que virá depois, oferecendo alguns vislumbres do rumo que a sequela poderá seguir. É demasiado pouco para retirar qualquer tipo de conclusões, embora seja suficiente para perceber que a Dontnod volta a não esconder-se de temáticas mais pesadas mesmo em aventuras protagonizadas por personagens jovens e na flor da idade. Resta saber é se estas serão capazes de nos marcar da mesma forma que Max, Chloe e Rachel o fizeram.

Aqui o protagonista é Chris, um jovem com o poder de imaginação intacto que passa o seu sábado a utilizar essa importante ferramenta para se divertir e entreter. São várias as ações que podem realizar, sendo que não precisam de fazê-las todas para terminar este capítulo, entre as quais se incluem a construção do fato do alter-ego de super-herói de Chris, a batalha contra o Water Eater, a interação com os diferentes vilões do universo de Captain Spirit e até a descoberta de um tesouro.

Acima de tudo, estas pequenas tarefas opcionais acentuam a ausência de uma linearidade propriamente dita, uma vez que essa é substituida por eventos ativados pela passagem natural do tempo, algo que fica evidente logo no início com o cada vez mais irritado chamamento do pai de Chris para que este vá tomar o pequeno-almoço se demorarem demasiado tempo a explorarem o vosso quarto. O próprio final desta introdução apenas fica disponível após determinados eventos terem acontecido, eventos esses que não resultam da intervenção direta do jogador.

Até tal ficar disponível, o tempo é vosso para fazerem o que vos bem apetecer, seja realizar as tarefas relacionadas com Captain Spirit ou ações mais mundanas como aquecer comida no microondas para o pai do protagonista, deitar o lixo fora ou lavar a loiça. No fundo, as aventuras de Chris têm muito pouco de fantásticas e o jogo faz questão de nos relembrar isso mesmo, revelando sempre o “segredo” por detrás de todas as ações que a personagem faz parecer sobrenaturais ao longo da aventura. 

Alguns puzzles e tarefas travam um pouco a progressão daqueles que quiserem realizar tudo o que este título gratuito tem para oferecer antes - ou até mesmo depois - de os créditos rolarem pelo ecrã, o que se torna algo aborrecido porque fica sempre a ideia que vos está a escapar algo óbvio. Importa também mencionar que o ritmo de The Awesome Adventures of Captain Spirit é lento, bastante lento. Ainda mais do que aquilo a que Life is Strange nos habituou, mas apenas nos momentos que já mencionei, quando não sabem o que fazer para realizar determinada tarefa, é que o aborrecimento fica à espreita.

Como provavelmente já repararam, pouco ou nada escrevi sobre a narrativa da obra. Sendo esta uma aventura focada na história, ainda por cima gratuita, não faz sentido estar aqui a colocar detalhes sobre esta componente do título. Ainda assim, é de referir que, mesmo preservando o mundano e o poder da imaginação na infância que caracteriza a experiência, existe sempre um tom sombrio que rodeia a aparente banalidade desta família de dois membros, algo que é materializado no final do mesmo.

No que diz respeito ao departamento técnico, a obra da Dontnod preserva o mesmo estilo visual dos jogos da série, o que é o mesmo que dizer que é capaz de criar cenas e cenários belos, mas que deixa um pouco a desejar ao nível da modelagem e das animações. Dito isto, se gostaram da banda sonora que acompanhou Life is Strange e Life is Strange: Before the Storm, The Awesome Adventures of Captain Spirit não vos desiludirá. O trabalho de voz é igualmente sólido.

The Awesome Adventures of Captain Spirit é um aperitivo interessante para Life is Strange 2, mas não mais do que isso. Não esperem encontrar nesta experiência gratuita o mesmo tipo de conteúdo ou a mesma capacidade para desferir socos emocionais pelos quais a série é conhecida. Depois de terminado, continuo sem grandes certezas sobre o real potencial da sequela para sequer se aproximar do original - e a sua respetiva prequela -, mas não teremos que esperar muito para descobrir o seu real valor.