Independentemente de se gostar ou não, é inegável que existe algo de especial em obras que são capazes de testar a nossa capacidade de raciocínio e solucionar problemas ao mesmo tempo que exercitam a nossa massa cinzenta e nos entretêm por horas a fio sem nos aborrecerem da mesma forma que o ensino escolar o faz. Estes títulos podem não ser propriamente acessíveis para uma audiência mais vasta de jogadores, mas a sua presença na indústria é essencial para a diversificar e a tornar apelativa a quem porventura nunca entrou pelos meandros da mesma.

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Mas desengane-se quem pensa que me estou a referir em exclusivo a jogos pertencentes ao género de puzzles, pois tal não é o caso. As obras de quebra-cabeças podem ser o ponto de entrada de muitos ao mundo dos videojogos, mas estão longe de ser o suficiente para expandir o horizonte dos jogadores e mantê-los investidos nas experiências durante horas sem fim. Títulos de estratégia são um exemplo de como testar a nossa habilidade mental, sem descurar a ação e mecânicas mais complexas para manter a jogabilidade fresca por largos períodos de tempo.

The Banner Saga 2 não é um jogo de estratégia, muito pelo contrário. The Banner Saga 2 é um Role-Playing Game de ação com pitadas de elementos de estratégia espalhadas pela sua jogabilidade. As decisões durante o combate são tomadas com vista a maximizar as nossas hipóteses de sucesso com o menor número de vítimas pelo caminho e isso, como é óbvio, apenas é conseguido seguindo uma estratégia bem delineada que pode e deve ser alterada consoante os desafios que nos vão sendo colocados pelos inimigos em questão. Jogar sem pensar duas vezes nas ações que vão realizar é uma receita perfeita para o fracasso.

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De uma forma geral, a sequela da obra produzida pela Stoic e lançada em 2014 mantém-se fiel à experiência original, introduzindo poucas novidades na jogabilidade aprimorada que oferecia. Para além de novas classes com novas habilidades e que oferecem novas estratégias no campo de batalha e diferentes abordagens aos inimigos, seja através de ataques de longo alcance ou no confronto corpo-a-corpo, a escolha dos combatentes a utilizar em cada batalha é fundamental para o sucesso e se existe algo em que o título não desilude é na diversidade de opções que coloca à disposição do jogador.

Na verdade, praticamente todas as componentes de The Banner Saga 2 assentam nos momentos de decisão, sejam eles relativos à narrativa, ao combate ou à progressão das personagens. Escolher investigar uma vila aparentemente deserta sem saber se teremos à nossa espera alimentos e riquezas ou uma emboscada, optar por roubar comida a aldeões para alimentar o nosso exército ou deixá-los juntar aos vossos seguidores, decidir destruir primeiro a proteção do inimigo para provocar mais danos em futuros ataques ou entrar logo a matar, perceber qual é o momento para gastar os pontos de Renown para fortalecer personagens, adquirir mantimentos para os manter alimentados durante mais dias ou para comprar itens que garantem alguns bónus estatísticos são apenas algumas das decisões que tomarão ao longo da campanha de cerca de 15 horas.

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Mais do que influenciar a narrativa e os acontecimentos que se vão desenrolando, estas decisões afetam sobretudo as nossas possibilidades de sucesso no campo de batalha, sejam através da lesão de lutadores importantes que ficam assim diminuídos para futuros combates, a perda de mantimentos, a perda de moral do exército, tudo isto tem impacto na ação propriamente dita e na quantidade de opções que têm à vossa disposição no momento da verdade. Decisões aparentemente inócuas raramente o são e a forma como o jogo as utiliza para nos fazer duvidar de tudo o que possa surgir daí para a frente é extremamente inteligente e torna a experiência bastante mais interessante.

O combate de The Banner Saga 2 segue o formato tradicional por turnos, fazendo os lutadores movimentarem-se por uma grelha limitada de posições no campo de batalha, dando-lhe depois a opção de realizar ataques tradicionais ou usar habilidades especiais. Estes podem ser tornados mais poderosos através da aplicação de pontos Willpower, embora estes tenham um limite para a sua utilização, como é óbvio. As diferentes classes constituem diferentes formas de abordar os combates, todas elas com vantagens e desvantagens e, acima de tudo, todas elas com características muito próprias.

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A jogabilidade é de longe o melhor departamento do RPG tático da Stoic, infelizmente, existem elementos da experiência que não funcionam tão bem, como é o caso da sua narrativa. Seguindo a história de Alette e Rook, dependendo da vossa decisão no início deste jogo ou do final do título original - podem importar os vossos dados guardados de The Banner Saga caso o tenham jogado -, a sequela começa imediatamente após o término do seu antecessor e vê o mesmo grupo de personagens continuar a fazer o seu caminho até à fortaleza de Arberrang em busca de segurança.

Talvez a história faça mais sentido e as personagens sejam mais memoráveis para quem jogou o título original, mas para os restantes, The Banner Saga 2 faz um fraco trabalho em manter-nos interessados no mundo de jogo, nas motivações das personagens e nas personagens em si, especialmente porque nem todas têm direito ao mesmo tempo de antena. As decisões são o principal motivo pelo qual o jogador é forçado a prestar atenção aos longos textos que vão surgindo no ecrã, pois de outra forma provavelmente dariam por vocês a avançar os textos indiscriminadamente. Jogar a obra anterior não é obrigatório para desfrutar da experiência oferecida pela sequela, mas talvez o seja se quiserem retirar o máximo proveito da narrativa.

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A banda sonora deixa também a desejar, não pela qualidade da mesma, que é absolutamente inegável e contribui para dar um tom épico e memorável à aventura, mas sim pela pouca utilização que lhe é dada. Na verdade, durante grande parte das batalhas, das caminhadas pelos diversificados cenários do mundo de jogo e dos diálogos entre as personagens não existe qualquer acompanhamento sonoro para lá de alguns efeitos sonoros para retratar os fenómenos climatéricos, ou seja, som da chuva, os passos do exército pelos terrenos, som de aves a cantar e o vento a soprar pelas folhas das árvores, algo que é uma oportunidade mal aproveitada.

Graficamente, The Banner Saga 2 é um título bastante sólido que faz uso de um estilo visual que parece desenhado e pintado manualmente, fugindo ao fotorrealismo e optando por uma aparência diferente, mas igualmente apelativa e que fica facilmente na memória. O jogo dá a opção de aproximar ou afastar a câmara da ação e o título consegue manter-se extremamente interessante independentemente da vossa escolha, embora seja claro que o aproximar da câmara nos impeça de desfrutar da melhor forma dos cenários criados pela produtora para nos deslumbrarem ao longo da aventura.

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Em suma, estamos perante uma obra que brilha sobretudo graças a uma jogabilidade aprimorada que nos força a pensar de forma estratégica e que nos coloca constantemente decisões com alto impacto no nosso possível sucesso nos momentos de combate. A introdução de novas classes oferece novas opções aos jogadores para as batalhas, enquanto as decisões nos mantêm investidos numa narrativa que deixa algo a desejar. Já a utilização esparsa da banda sonora é incompreensível, tendo em conta a qualidade da mesma. É de salientar ainda que o título sofre um pouco com um início que demora demasiado até nos dar acesso aos seus melhores elementos.