Os Vikings são um povo que muitas vezes acaba por envergar uma reputação algo ingrata. Mas apesar de todos os grunhidos e de aterrorizarem os mares com os seus barcos pintados a vermelho e branco, aparentemente, estas "dóceis" personagens até conseguem protagonizar uma história bela, que apesar de ser marcada por um evidente enleio dos acontecimentos, acaba por funcionar suficientemente bem para suportar todas as mecânicas criadas pela Stoic e contribuir positivamente para este role-playing game.

Formada por veteranos da indústria, que até há bem pouco tempo tinham dado o seu contributo através das obras da BioWare, The Banner Saga é um agradável jogo Indie dividido naquilo que se espera ser uma trilogia. A primeira parte já está disponível através do Steam, depois de ter ultrapassado um processo de angariação de fundos muito bem sucedido graças aos fãs generosos que aderiram ao apelo feito através do Kickstarter.

As primeiras qualidades que saltam à vista logo após uma curta estadia neste título estão relacionadas com a componente visual. O tipo de arte escolhido para dar corpo às mecânicas do jogo funciona na perfeição, combinando animações simples com um conceito de desenho também ele minimalista mas que acaba por resultar muito bem. Sem querer ser demasiado ambiciosa, a componente gráfica do jogo é uma agradável surpresa que vai acompanhar os jogadores ao longo de toda a aventura, retratando personagens elegantemente concebidas e cenários convidativos.

Banner

É precisamente através destes cenários que vamos acompanhar a história de um povo que luta para defender o seu território, história essa que será acompanhada a partir das perspetivas de personagens diferentes e ao longo de sete capítulos distintos. Tudo isto, numa aventura que acompanha a vida de três tipos de raças, cada uma com as suas respetivas caraterísticas. Nesta jornada, os diálogos têm um forte papel, uma vez que é através desta componente que acabamos por fazer as escolhas que mais tarde terão um impato direto no desenrolar da ação. Apesar dessa premissa, as escolhas que fazemos ao longo de toda a narrativa acabam por não ter um papel tão preponderante no desenrolar da história. Avaliando aquilo que consegui perceber, independentemente do caminho que escolhemos, vamos sempre ter direito a ver as mesmas cenas de vídeo e a presenciar os mesmos acontecimentos, mas guiados por uma linha orientadora diferente que se vai emaranhando através da influência dos nossos atos.

A transição para as pequenas sequências de conversas que referi no parágrafo anterior representa, na maioria dos casos, uma quebra significativa no ímpeto que o jogo já vinha a conquistar, uma vez que são desprovidas de animações significativas. Em adição, muitas das vezes, esta passividade na interpretação das falas por parte das personagens faz com que nos percamos no meio de tanta informação e que não percebamos bem a influência das nossas escolhas.

A jogabilidade da obra baseia-se quase na sua totalidade num único botão do rato, seja para selecionar a resposta certa nos diálogos, ou para comandar as nossas unidades durante as batalhas. E é precisamente aí que se situa aquele que considero ser o busílis de todo o jogo. Uma componente de combates divididos em turnos e que vão exigir muito da inteligência dos jogadores para que estes consigam sair vitoriosos. Ainda que o jogo apresente a possibilidade de alterar a graduação da dificuldade, em todos os modos é preciso escolher a estratégia correta e ponderar cada um dos movimentos decentemente antes de o efetuar, caso contrário a inteligência artificial rapidamente demonstrará que não está ali para brincadeiras.

Banner

O resto do jogo decorre ao nível de um Role Playing Game tradicional. Adquirir pontos de experiência vai permitir melhorar as caraterísticas de cada um dos heróis que combatem do nosso lado, contribuindo assim para uma progressão ao nível do desempenho no campo de batalha. Mas ao contrário daquilo que muitos podem pensar, The Banner Saga não transmite uma sensação demasiado conservadora derivada do facto de não estabelecer a fasquia da ambição demasiado alta. Em vez disso, não é difícil ficarmos com a sensação de que estamos perante uma obra refrescante, que contribui em muito para honrar a categoria de videojogos em que se insere e que ainda consegue introduzir alguns pontos de rutura numa jogabilidade que de outra forma seria repetitiva.

Ao fim de cerca de uma dúzia de horas chegamos ao fim do arco narrativo do jogo, tendo explorado a esmagadora maioria dos elementos que a produtora introduziu em The Banner Saga. No fim, tive pena de não me ter sentido suficientemente tentado a reiniciar a jornada, optando por respostas diferentes às diversas situações de escolha que à nossa frente são colocadas. Acabei por fazê-lo devido a propósitos editoriais, na esperança de perceber melhor as mecânicas que dividem cada um dos percursos. Infelizmente, o esforço feito no sentido de diversificar os eventos do jogo a partir de cada uma das escolhas acaba por não se revelar suficiente para cativar os jogadores durante mais tempo.

Apesar disso, com um orçamento curto e jogando pelo seguro, a Stoic conseguiu fazer aquilo que muitos tentam sem sucesso. The Banner Saga é uma aventura agradável à vista, desafiante para o cérebro e confortável para os dedos. Uma experiência sólida que explora aquilo que de melhor um RPG pode dar aos jogadores, respeitando todas as normas que constam dos compêndios do género. Algumas falhas estão presentes, mas acabam por tornar-se insignificantes perante a globalidade de uma obra bem conseguida.