Pedro Martins por - Oct 9, 2019

The Bradwell Conspiracy – Análise

The Bradwell Conspiracy começa de forma bastante abrupta. No Stonehenge Museum decorria uma gala com alguns dos convidados mais importantes da sociedade. O motivo merecia-o: a família Bradwell estava a celebrar uma das suas descobertas mais recentes. Infelizmente, uma explosão interrompe violentamente os festejos e a socialização, dando lugar à confusão e à urgência, lançando lembranças do ataque feito contra à família na Bélgica alguns anos antes.

O arranque propriamente dito acontece nos momentos que nos mostram os destroços, o cascalho empilhado no topo de cascalho. Não conseguimos perceber de onde viemos, mas não demoramos a perceber que não podemos sair do museu. A explosão foi tão violenta que o fumo afetou a laringe do protagonista, removendo-lhe a habilidade de falar. No meio da desgraça, há uma boa notícia: há outra sobrevivente à explosão, a Dra. Amber Randall.

A dupla está presa, mas não está junta. Uma vez que o protagonista não fala e como a aventura os coloca em lugares distintos das instalações subterrâneas a que vão parar depois do desabamento do museu, o jogo assenta uma parte significativa dos puzzles na mecânica que os une. A personagem que controlamos, e que começa por ser mencionada como o “invasor”, tem uma câmara fotográfica que está ligada ao sistema, ou seja, podemos tirar fotografias e enviá-las a Randall.

A outra grande mecânica com que os puzzles são resolvidos é uma “arma” secreta. Conhecida como Substance Mobile Printer, estamos perante uma pistola que consegue extrair os esquemas de certos objetos dos cenários e, desde que tenham substância suficiente, recriá-los noutros pontos. O jogador tem a possibilidade de ir alternando entre os vários objetos de que já recolheu os esquemas, o que o obriga a pensar na utilidade de cada um na altura de negociar as diferentes situações que vai encontrando.

São mecânicas que qualquer um consegue compreender, sendo que a dificuldade vai sendo aumentada pela A Brave Plan mediante aquilo que vai recriando na jogabilidade e nos campos técnicos, ou melhor, na sua conjugação. Pessoalmente, nunca encontrei uma parede de dificuldade que me fizesse pensar em abandonar o jogo. O problema está na forma como estes puzzles vão perdendo algum fôlego nas nuances que vão sendo adicionadas.

Desde que vão prestando atenção, a dedução acaba por vos levar a bom porto. Tenham apenas atenção que é possível alterar a orientação com que os objetos são criados, algo que poderá fazer uma diferença significativa. Esta mecânica de criação de itens para ir progredindo está intrinsecamente ligada às fotografias que tiramos e à entreajuda com Randall, algo que fica bem patente desde os minutos que se seguem à apresentação dos processos.

Quando precisamos de manipular um objeto que está preso, mandando-lhe uma fotografia é ela que do seu lado abre a porta necessária. E mesmo quando passamos demasiado tempo numa situação, ouvimos a sua voz a reafirmar que está ali para cooperar e para lhe enviarmos fotografias para ver se consegue ajudar. Há uma clara sensação de que em The Bradwell Conspiracy há duas peças igualmente importantes.

Contudo, o maior entrave que encontrei está associado à jogabilidade. A colocação dos objetos nos cenários é feita apontando na primeira pessoa, mas depende sempre do ângulo e do plano onde estamos. Por diversas vezes, pelo menos no PC – o jogo está também publicado no Apple Arcade e na PlayStation 4, sendo posteriormente lançado na Switch e na Xbox One – é patente a vontade da produtora e também um processo que não tem a refinação necessária para resultar fluidamente na prática.

A precisão, ou falta dela, pode levar um jogador a estar a pensar na solução certa, mas a não a encontrar sem ter culpa. Além disso, também a forma como as fotografias são tiradas apresenta algumas falhas. Por incontáveis vezes, estava a pensar na parte correta do cenário para fotografar, mas por estar uns centímetros fora daquilo que a obra queria, a outra personagem rejeitava a informação visual enviada.

É uma obra onde se sente que muito trabalho foi colocado na forma como os diferentes pontos dos cenários podem ser fotografados. Quando tudo funciona bem, Amber é capaz de mostrar o seu sentido de humor ou até comentar objetos aleatórios que fotografamos, como livros deixados para trás por quem ali trabalhava. Não deixa de ser algo frustrante, todavia, que ela nos peça para não nos esquecermos que ela está ali para ajudar e, segundos depois quando lhe enviamos uma fotografia, a resposta seja para pararmos com o spam e que não sabe o que lhe estamos a tentar mostrar.

The Bradwell Conspiracy coloca a edificação de personalidades em muito do que não se vê. Tanto no que a Amber diz respeito, ou seja, é uma relação baseada simplesmente no que ouvimos, como em relação ao protagonista. Como ninguém lhe consegue ouvir a voz, o mistério e até certo ponto o anonimato é desde logo um trunfo narrativo que se presta bastante a alimentar a curiosidade de quem está a jogar. O argumento pode não ser um completo reinventar das regras da escrita, mas faz mais do que o suficiente para manter a obra com uma história em estado de graça.

Mesmo quando não está ativamente a fazer o arco narrativo avançar, a A Brave Plan é inteligente ao colocar a sua obra num cenário rico em detalhes, que nos permite progressivamente ficar com uma ideia mais concreta sobre o local e sobre a família Bradwell. A destruição está constantemente entrelaçada com as cores garridas da vegetação que sobrou e dos interiores de alguns gabinetes e locais de testes. É um sítio que nunca nos faz sentir verdadeiramente confortáveis, onde a tecnologia abunda e onde se compreende que algo secreto estaria a decorrer.

Isto faz com que o secretismo seja abundante, mas também com que as mecânicas dos puzzles tenham uma mínima justificação para existirem. Os puzzles e a forma como vamos desbravando caminho – ou criando o nosso – podem ser ficção científica, mas têm os mínimos alicerces numas instalações a que o comum mortal dificilmente teria acesso. A produtora foi inteligente na forma como desenhou estes compartimentos e os destruiu para que o nosso “recreio” esteja criado.

No campo da sonoplastia o destaque é a vocalização das personagens – o que é algo irónico num jogo onde o protagonista não fala. A performance mais sólida pertence a Jonathan Ross, que empresta a sua voz a um guia que nos vai apresentando aquilo que temos pela frente. O carisma da personalidade inglesa e a escrita para a personagem transformam-se num cicerone interessante. Amber é vocalizada por Rebecca LaChance, ainda que os resultados não sejam tão contundentes.

O problema não é a prestação de Rebecca, mas os já mencionados problemas com a integração das mecânicas. A voz neste caso é usada como uma manifestação desse lado irritante e mais rombo do jogo. Por outro lado, quando as peças encaixam, então sim, é a atriz que dá essa camada à personagem, deixando o jogador com a sensação de que do outro lado das paredes está alguém disposto a ajudar, alguém que se afirma e desmorona pelo que nos vai dizendo ao ouvido.

The Bradwell Conspiracy começa de forma ambiciosa e refrescante, mas derradeiramente dá alguns passos em falso. Não é mais do mesmo, tentando diferentes abordagens no desafio que coloca aos jogadores. Como consequência dessa ambição, porém, ocasionalmente transparece a ideia de que, mais do que na solução dos enigmas, estamos a pensar em formas como lidar com as mecânicas do jogo.

veredito

Ambicioso, The Bradwell Conspiracy coloca à nossa disposição mecânicas que encantam inicialmente. Com o passar do tempo, fica aquém na edificação de novas camadas e, ocasionalmente, na precisão que a sua jogabilidade precisava para ser imaculada. Felizmente, o local onde decorre e o argumento vão mantendo o interesse vivo.
7 Local carismático, com inúmeros detalhes. Arco narrativo suficientemente profundo. Jogabilidade precisava de ser mais precisa. Ocasionalmente a colaboração não funciona.

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The Bradwell Conspiracy

para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

31 December 2018