The Caligula Effect: Overdose é, de forma mais ou menos evidente, uma segunda oportunidade para uma obra que esteve longe de deslumbrar aquando do seu lançamento original. Sim, The Caligula Effect começou a sua vida como um exclusivo da entretanto defunta PlayStation Vita e os problemas técnicos que assolaram a sua experiência eram demasiado óbvios para ignorar. Agora numa panóplia mais vasta de plataformas e suportado pelo Unreal Engine, Overdose apresenta-se como uma espécie de remake do jogo original em busca de um melhor lugar ao sol.
Para além da expansão da audiência à qual se colocou disponível e do recurso a um motor de jogo mais competente, o título aproveitou também para fazer algumas melhorias e adições à aventura original. Contudo, e talvez sem grande surpresa, os problemas de raiz deste RPG continuam bem patentes, mesmo que a framerate já não tenha tanto soluços. The Caligula Effect é uma obra com ideia interessantes, mas de uma forma geral é só mesmo isso que são: interessantes. Isto porque são ideias e conceitos que não se materializaram numa experiência de qualidade mais convincente.
![]()
É uma pena, porque com mais talento e atenção ao detalhe, esta podia perfeitamente ser uma adição de valor ao subgénero de jogos RPG que se serve do cenário escolar para alimentar a sua trama e que tem na série Persona o seu expoente máximo - e em Trails of Cold Steel o parente mais próximo. Infelizmente, a obra da Aquaria não chega sequer perto da qualidade destes dois exemplos e acaba por desapontar em praticamente todos os seus departamentos.
A história acompanha a aventura do protagonista - ou da protagonista - e do restantes membros do Go Home Club que tem lugar num mundo virtual conhecido como Mobius. Mobius é uma versão idílica da realidade, onde cada habitante experiencia uma realidade ajustada aos seus desejos. Todos os habitantes são estudantes inseridos num ciclo interminável do ensino secundário, isto é, após concluírem o ano de finalistas, voltam a ser caloiros no ano seguinte e reiniciam o percurso. Este mundo virtual é controlado por μ, uma estrela Pop digital cujas canções têm o poder de trazer pessoas infelizes para esta realidade alternativa e alcançarem a felicidade.
![]()
No entanto, Mobius esconde um segredo perturbador. Para que este seja efetivamente capaz de representar um novo início para as almas atormentadas que nele se encontram, as suas memórias são completamente apagadas para que não se apercebam que estão perante uma realidade falsa. Isto é feito com recurso às músicas de μ e dos restantes Ostinato Musicians que servem essencialmente como um método de lavagem cerebral para assegurar que as memórias dolorosas não regressam.
Os membros do Go Home Club são dos poucos que têm a consciência que estão num mundo virtual e por isso, tal como o seu nome indica, pretendem abandonar Mobius para regressar à realidade. Contudo, uma vez que Mobius não foi criado para permitir o regresso de pessoas à realidade, a sua vontade colide diretamente com a viabilidade do mesmo, ou seja, estes jovens - ou aparentes jovens - terão de derrotar μ e destruir o seu mundo virtual, forçando todos, mesmo aqueles que não têm esse desejo, a regressar à realidade pura e dura.
![]()
Apesar de o jogo tentar explorar esta dicotomia moral de uma decisão que nunca poderá agradar a todos, a forma como The Caligula Effect o faz é demasiado atabalhoada e aborrecida para resultar. Aliás, a dada altura da aventura, terão inclusivamente de alternar entre lutar ao lado do Go Home Club e lutar ao lado dos Ostinato Musicians, fator que o título utiliza para tentar dar algum peso à decisão final que obrigará o jogador a tomar na reta final da campanha. O problema é que a obra não faz um bom trabalho a apresentar de forma similarmente convincente os dois lados da barricada, pelo que a escolha final tem tanto de fácil, como de inevitável.
Igualmente problemática é a velocidade a que o arco narrativo vai mostrando os seus trunfos. Isto é particularmente notório no tempo que o título demora a dar alguma profundidade aos elementos do seu elenco secundário. É certo que quando os créditos começarem a rolar pelo ecrã já terão estabelecido uma ligação com a vasta maioria dos membros do Go Home Club e dos músicos, mas o processo para lá chegar é tão lento e monótono que se torna difícil justificar o tempo investido.
![]()
Não deixa de ser algo estranho que o jogo utilize o número gigantesco de alunos no Mobius - várias centenas - como um dos seus elementos de destaque. Sim, esses alunos estão lá, mas as interações são completamente descartáveis e não trazem grandes benefícios à jogabilidade. O mesmo se aplica ao Wired, um sistema de conversação por telemóvel que podem utilizar para conversar com os diferentes alunos com os quais já iniciaram uma “relação”. No entanto, estas conversas apresentam-se sobretudo como um interrogatório de perguntas aleatórias e não dão qualquer relevo adicional às personagens.
No fundo, The Caligula Effect não consegue entregar uma narrativa que cative do princípio ao fim, demorando demasiado a tornar-se interessante e apresentando períodos demasiado longos caracterizados pela monotonia total. Ora, num RPG com mais de três dezenas de horas de duração, não ter um fio condutor que mantenha o jogador sempre motivado a continuar a jogar é um problema grave e coloca desde logo o ónus nos restantes departamentos da obra para segurar a sua atenção.
![]()
O problema é que o título é pobre em praticamente tudo aquilo que entrega. O combate por turnos, que permite ao jogador prever o resultado dos nossos ataques e dos oponentes antes de nos comprometermos com uma sequência estratégica, é bastante interessante. Todavia, as dungeons são tão aborrecidas, tão longas e tão desinspiradas em termos de design que as constantes batalhas não só se tornam rotineiras, como acabam por permitir que o jogador se torne rapidamente demasiado forte para os inimigos que encontra pelo caminho, eliminado por isso qualquer necessidade de uma abordagem mais planeada.
Com masmorras que se tornam rapidamente repetitivas e um design frouxo, fica difícil encontrar razões para explorar os elementos RPG da obra, como a melhoria e aquisição de determinados ataques ou a aplicação de itens que conferem bónus estatísticos às personagens. É certo que há algumas melhorias visuais graças ao salto para o Unreal Engine, mas analisado numa Nintendo Switch, o departamento gráfico do jogo é simplesmente paupérrimo. O facto de estar apenas vocalizado em japonês, significa que terão muito texto para ler e, como já dei a entender, a motivação para o fazer nem sempre existe.
![]()
The Caligula Effect: Overdose não é necessariamente mau, mas também não é convincente em praticamente nenhuma das suas componentes. O combate é sólido, mas o jogo não nos coloca numa posição que nos obrigue a explorar ao máximo as suas potencialidades. A premissa é interessante e algumas personagens têm motivações que vale a pena conhecerem, mas este processo desenrola-se de forma tão lenta que a vontade para continuar a jogar acaba por se extinguir antes de lá chegarmos. Essencialmente, este é um RPG que não oferece nada de memorável e fica a dever bastante às obras em que se inspira.

/https://s.videogamer.com/meta/ea49/5cf523bc-d788-4f86-b9d8-c63ae518f632_The_Caligula_Effect_Overdose_Analise_Topspot.png)
/https://s.videogamer.com/meta/df2b/b71a8cad-1ac1-4b9d-b23b-e70062fcd23a_b3921d1f-1150-40c4-9fb1-c9ef214e3a93_Caligula_cover_art.png)
/https://s.videogamer.com/images/260d/f1eb4f56-d997-4433-987a-50fb1f985b3d_Gears-5_Kait-Hero-Close-Up.jpg)
/https://s.videogamer.com/images/295b/feac6661-ad37-4b57-9561-c07dd673d2a4_ss_f397a2dcbc648550a0d2c18e73acec15c0521e4a.1920x1080.jpg)
/https://s.videogamer.com/images/5954/97a6afd6-39f3-4cd2-bae1-fba5a7a5abeb_Astral-Chain_2019_06-11-19_004.jpg)
/https://s.videogamer.com/images/5284/gravity_rush_2_15.jpg)
/https://s.videogamer.com/images/1fdf/cd7a3aae-403b-4df8-ab3b-ff9e53cb718f_Code-Vein_2018_05-18-18_031.jpg)
/https://s.videogamer.com/images/eb1b/3b44da1f-7d9b-4cc8-9f30-15c1282b1efd_Luigis-Mansion-3_2019_06-11-19_002.png)
/https://s.videogamer.com/images/4af4/c5cc533e-0280-48fc-b97e-38c2e8adacfb_DlIN1PNUUAAzd3G.jpg)
/https://s.videogamer.com/images/d27e/a7998330-e756-4416-bfc8-7a91fffd6d19_MediEvil_2019_05-09-19_003.png)
/https://s.videogamer.com/images/a339/assassins_creed_4_black_flag_91.jpg)
/https://s.videogamer.com/images/7ecf/46d9f5f1-72d1-4760-b597-88f19c7751a3_The-Legend-of-Zelda-Links-Awakening_2019_06-11-19_001.jpg)