Não há uma jogabilidade tradicional nos moldes em que The Complex se apresenta. O jogo da Wales Interactive apresenta-se em Full Motion Video (FMV) e dá aos jogadores a possibilidade não de controlar as personagens, mas sim de fazer as escolhas que influenciarão as cenas seguintes e os finais. É uma proposta que pode ser facilmente terminada numa tarde, mas que graças a uma teia bem urdida pede mais do que uma passagem pela trama.

São quase duzentas cenas que conduzirão a nove finais diferentes. Antes de chegarem a qualquer dos finais terão que viver uma aventura de ficção científica que como se esperava assenta no confronto com o falível e imprevisível comportamento humano. Isto leva a mudanças óbvias em quem podemos confiar e em quem nos apunhala pelas costas, não olhando tanto para a humanidade e mais para os seus próprios interesses.

A obra arranca em Kindar, uma país ficcional na Ásia. A Kensington Corporation tem usado os locais como testes para desenvolvimentos médicos. Não demora nada para que os sintomas de duas pessoas façam a Doutora Amy Tenent ter que escolher quem salva: uma rapariga que está grávida ou uma criança inocente. The Complex coloca assim em cima da mesa aquilo ao que vem.

É uma cena introdutória e o grosso do arco narrativo decorre cinco anos depois no Reino Unido. Continuamos a vestir a pele de Amy quando alguém - Clare - exibe sintomas preocupantes em público. Chamados a intervir, percebemos que teremos que ser nós a investigar o que está a correr terrivelmente mal. Amy estava a experimentar com nanocélulas e, sem grande surpresa, os sintomas de Clare foram provocados porque alguém misteriosamente a injetou com as células estaminais que contém nanotecnologia.

A protagonista está assim implicada no que Clare está a experienciar. Como se salvar a vida de alguém não fosse suficiente, esta tecnologia experimental tem potencial para mudar a medicina e a humanidade como a conhecemos, sendo inclusivé uma das chaves que poderá desbloquear a exploração espacial. Os ecos de Kindar ainda são bem audíveis quando entra em cena o Doutor Rees Wakefield, personagem que se acovarda nos momentos iniciais e regressa mais tarde para ajudar na nova investigação, mas que não demora muito para começar a irritar pela personalidade efervescente.

Extrair as nanocélulas de Clare depressa se revela uma prioridade para a Kensington, olhando mais aos cifrões do que propriamente para a vida humana que está em causa. Os tentáculos empresariais são representados pela fundadora da empresa, Nathalie Kensington. Amy, Clare e Rees estão no mesmo sítio, ou seja, num laboratório isolado do resto do mundo. As ligações com Nathalie e a assistente Emily são feitas por videochamadas.

The Complex, que importa acrescentar foi escrito por Lynn Renee Maxcy, figura respeitada depois de ter editado o argumento de The Handmaid’s Tale, não se escusa a cair em alguns clichés - como a suspeita de que Clare é uma terrorista que falhou o alvo do seu ataque - mas sofre sobretudo pelo ritmo lento e lânguido da primeira parte. Algumas escolhas narrativas parecem também algo forçadas: como tentar sair do laboratório à força despejando potássio na sanita ou até mesmo a já mencionada escolha logo nos minutos iniciais.

A segunda parte é francamente melhor e, ainda que o desenvolvimento das personagens seja algo fracturado - possivelmente pela forma de acomodar os diferentes caminhos que as escolhas dos jogadores abrem - há espaço para que a nossa opinião sobre alguns intervenientes mude. O caso mais gritante é Rees, sim, a personagem que se torna irritante graças às piadas com uma temporização questionável e que usa The Complex para se redimir perante a desilusão de Amy.

Na reta final é ele que dá vigor ao argumento, não só dando algum contexto às escolhas que foi fazendo durante os cinco anos que passam entre a introdução e a aventura principal, mas sobretudo porque revela um lado que pode ser encarado como sacrifício. Ainda assim, no miolo da aventura Rees revela também que aprendeu a ser hacker e isto leva-nos a cenas com uma realização francamente rudimentar e com efeitos onde se nota claramente que o orçamento não terá sido o maior da indústria.

Estes efeitos paupérrimos são ainda mais gritantes na cena em que temos que escolher se Clare é transportada para o laboratório de ambulância ou de drone. Se escolherem o drone, são brindados com um corte repentino para o rosto de Amy e para os seus cabelos a esvoaçar. Isto indica que o drone está a descolar, mas não está no plano, claramente porque sabiam que os efeitos seriam maus. Segundos depois isto é comprovado com um plano já do drone futurista no ar, uma criação que mesmo à distância quebra por completo a imersão e a plasticidade da ficção científica.

Nesta segunda parte voltam as escolhas fracturantes, contudo, funcionam muito melhor do que nos momentos iniciais, pois temos uma ligação às personagens, tentando perceber nos escassos segundos que a barra demora a esvaziar-se quem é que teremos que sacrificar. E ainda sobre a escrita, longe de ser imaculada, aproveita para colocar no videojogo algumas piadas que resultam consideravelmente melhor do que o simples “foi isso que ela disse”.

Um dos casos mais memoráveis é quando The Complex vai beber inspiração a outras obras. Mais concretamente, quando Rees, já armado em Elliot Alderson, resolve que uma das formas de sair do laboratório era enganar o sistema de videovigilância injetando no sistema um loop de imagens pré-gravadas. Se estão a pensar que já viram isto noutras obras, não são os únicos. Quando Amy questiona Rees sobre a sua brilhante ideia, é o próprio a confessar que a tinha visto num filme. Isto resulta porque, mesmo sem evitar o cliché, brinca com a situação e com o género em que a mesma está inserida.

The Complex não é complicado de seguir, como já foi aludido, contudo, faz um trabalho interessante na hora de se moldar às escolhas. Além das escolhas, há outra mecânica no seu cerne: o estado da personalidade de Amy e os seus diferentes atributos que o jogador pode consultar. Honestidade, coragem, curiosidade, inteligência, sensibilidade - são estes os diferentes parâmetros. Estas características andam de mãos dadas com as relações que vamos tendo com as outras personagens. As escolhas que fazemos são responsáveis por influenciar tudo isto e, consequentemente, as cenas a que vamos assistindo e o final que nos calha.

Percebe-se assim que há uma maior profundidade do que é originalmente sugerido. Ou seja, na prática, os valores de produção e as performances com algumas incongruências prejudicam o jogo como um todo. É pena que assim seja, pois The Complex brilhava mais se essa complexidade não fosse explanada por camadas progressivamente mais profundas. O pior é que essas falhas minam a camada que está à superfície, ou seja, a que serve como primeira impressão a todos que derem uma oportunidade à produção da Wales Interactive.

Do elenco, o nome mais sonante é Kate Dickie, atriz que interpreta Nathalie depois de ter dado vida a Lysa Arryn em A Guerra dos Tronos. Dickie é também o destaque no que a prestações diz respeito, roubando todas as cenas em que marca presença e fazendo de Nathalie alguém que provoca emoções junto do jogador. Michelle Mylett (Amy) e Al Weaver (Rees) também não estão terrivelmente mal, mas não conseguem ser inequívocos nos seus papéis. Kim Adis (Clare) faz o que pode com o material que lhe é dado, mas falta nuance à forma como uma personagem que esconde durante bastante tempo o início de como a sua contaminação começou.

Não é o pior jogo FMV que chegou ao mercado e como todos sabemos têm sido várias as ofertas aquém ao longo dos anos, mas The Complex perde-se à procura da melhor altura para jogar os seus trunfos que, quando o faz, já perderam a força e algum do poder de consequência. Há arestas por limar, há um argumento que merecia um orçamento maior, e há um rendilhado de desenvolvimentos narrativos que precisam de ser caçados. Há nove finais diferentes, ficando por esclarecer quantos fãs de ficção científica estarão dispostos a dar as oportunidades necessárias ao jogo.