por - Sep 2, 2019

The Dark Pictures Anthology: Man of Medan – Análise

Até agora, a Supermassive Games é uma produtora definida sobretudo por Until Dawn. Desde que o exclusivo PlayStation 4 chegou ao mercado, encontrou uma audiência saudável de fãs que se dedicaram a encontrar todos os segredos da obra. Contudo, no final da semana passada chegou ao mercado Man of Medan, o primeiro jogo inserido no novo esforço da produtora britânica, The Dark Pictures Anthology.

Depois de o ter terminado, porém, salva-se a aposta na componente multijogador, onde são apresentadas interessantes que acrescentam algo novo ao género do terror. A essência da aventura a solo é diferente, entrando e saindo de cena com pouco dito de forma marcante, com poucas ideias e com um arco narrativo ligeiro que não é ajudado por um elenco composto por vidas sem grande profundidade e impacto. Ou seja, salvam-se apenas alguns momentos avulso.

Man of Medan começa com um curto prólogo que serve para levar os jogadores até aos anos quarenta. Durante estes minutos, é-nos mostrado como era a vida e, sobretudo, a morte a bordo de um misterioso navio. Pouco depois, a obra salta para o presente e apresenta-nos as cinco personagens a que vestiremos a pele durante as horas seguintes. Os seus problemas têm início quando sobem a bordo de um pequeno barco, Duke of Milan, para irem procurar um avião da Segunda Guerra Mundial. Alegadamente, este avião está no fundo do mar e nunca foi tocado por outro ser humano desde se ter despenhado.

Mais concretamente, os eventos começam a ganhar forma quando duas personagens mergulham para explorar o avião. Os namorados Alex e Julia estão a metros de profundidade quando a vida no Duke começa a correr mal, bastante mal. Graças à invasão de um grupo de pescadores que parece saído do filme Capitão Phillips, é perdido à força o controlo dos acontecimentos, o que leva o grupo a encontrar o navio Medan, precisamente onde decorre o prólogo da aventura.

São personagens que, de forma pouco surpreendente, acabam em diferentes pontos do navio. Teremos que tentar escapar ao grupo de pescadores, tentar que o grupo sobreviva para se reencontrar e, no melhor desfecho possível, escapar do navio fantasma com vida. Ainda que não seja propriamente uma premissa nunca antes vista, resultaria se a viagem pelos corredores de Medan fosse interessante e capaz de despoletar momentos marcantes. Todavia, não é isso que se verifica durante as horas seguintes.

Os destinos das personagens estão nas mãos dos jogadores. Durante Man of Medan temos oportunidade de fazer escolhas que vão conduzindo o arco narrativo. Com a pressão patrocinada por um contador em contagem decrescente, temos habitualmente a escolha de entre duas opções, sendo que permanecer em silêncio é também uma saída válida. O cerne da jogabilidade é também indissociável da história, pois a produtora inglesa voltou a dotar uma das suas obras com inúmeros Quick Time Events (QTE).

São momentos em que temos que pressionar o botão que é indicado no ecrã durante um sucinto período de tempo, ainda que Man of Medan ocasionalmente faça o jogador arrastar a retícula para o ponto ilustrado pelo jogo. Importa ainda mencionar que está presente um minijogo de ritmo que imita o batimento cardíaco. A nossa responsabilidade é pressionar o botão no momento certo, mantendo, por exemplo, a personagem calma quando tudo à sua volta continua a desabar.

Estas mecânicas obrigam, obviamente, a que o jogador esteja sempre pronto para intervir, sendo a diferença que pode levar, por exemplo, uma personagem a ser alvejada, alguém a ser apanhado pelos inimigos; pode ser também a diferença entre uma personagem morrer ou continuarmos a explorar o seu ramo narrativo. É um sistema amplamente usado, mas que surte o efeito desejado, ou seja, a repentina descarga de adrenalina. De notar apenas que ocasionalmente alguns QTE parecem deixar a sensação que o comando do jogador não é registado atempadamente pela obra.

Temos ainda obviamente que deslocar estas personagens pelos cenários, sendo que é a obra a determinar quem do grupo é que controlamos em determinado momento. Contudo e tal como em Until Dawn, o movimento das personagens é pesado e algo rombo. Esta constatação dá azo a alguma frustração se tivermos em consideração que a obra decorre maioritariamente em cenários sombrios e que a produtora não se acanha no uso de corredor estreitos e esquinas apertadas no design da composição.

Durante estes trechos de jogabilidade mais convencional, vamos também prestando atenção aos pontos brilhantes espalhados pelos cenários que aguardam a nossa interação. Este é um processo que precisa do pressionar de um gatilho e, em alguns casos, de um analógico para uma ação complementar. Estes cenários devem ser explorados com o maior cuidado possível, pois estão pejados de colecionáveis que dão mais contexto ao arco narrativo. Além disso, há ainda quadros/ilustrações que nos mostram premonições que, tal como os Totem em Until Dawn, têm como propósito indiciar o que vai acontecer e assim ajudar a tomar algumas decisões.

Sendo uma obra com uma longevidade a solo que ronda as cinco horas, o arco narrativo e os protagonistas precisavam de ser interessantes e dotados com personalidades distintas, profundas e capazes de investir o jogador nas suas vidas. Man of Medan tem para consulta um menu onde os jogadores podem verificar como está o relacionamento de cada personagem com os restantes membros do elenco, porém, quanto os créditos aparecem é difícil não se ter a sensação que se fica com muito pouco. Além disso, como raramente há o investimento emocional, as mortes ou os salvamentos no limite não têm a exultação merecida.

No centro do argumento está Conrad, um fã incondicional da cerveja e suficientemente irritante para sem grande custo ser o eleito a tentar salvar a tripulação do sequestro inicial. Temos também Julia e Alex que, como já foi mencionado, são namorados. Todavia, Julia é também irmã de Conrad e Alex é irmão de Brad, o introvertido do grupo que pesquisou o suficiente para encontrar o avião que está na origem desta expedição. E temos ainda Fliss, a capitã do Duke of Milan e figura autoritária do grupo.

Basta ter-se dedicado algum tempo ao entretenimento e à cultura para se compreender que a intenção da produtora era colocar em cena cinco pessoas diferentes, esperando que o argumento motivado pelas escolhas dos jogadores as fizessem colidir, mas para tal acontecer teria que haver um interesse mais forte por parte de quem controla os acontecimentos. Há algumas cenas que são genuinamente complicadas, como avisar alguém ou esconder-se; levar ou não equipamento pesado.

A Supermassive conseguiu também engendrar algumas deixas em que podemos colocar na personagem a nossa própria personalidade de forma menos gritante. Algumas das decisões associadas a emoções, como ser calmo e assertivo ou demonstrar agitação, medo, ocasionalmente são vislumbres do que Man of Medan poderia ter sido. Do ponto de vista da narração, nem tudo precisa de ser um berro para ser ouvido, aliás, são inúmeras as obras que brilham precisamente porque contam uma história com raízes profundas sem precisarem de se colocar em bicos de pés.

São personalidades então que vão varejando clichés e que apanham o que vai ficando à mão. Alex, por exemplo, acha por bem levantar a suspeita que Fliss está secretamente a colaborar com o grupo de pescadores. Não é preciso muito para se perceber que a personagem está a tentar colocar esta ideia no subconsciente do jogador, como se lhe estivesse a perguntar de forma pouco subjetiva se já tinha começado a colocar esta hipótese. Tenta nos fazer a nós, mais do que aos restantes membros do grupo, desconfiar de Fliss – tal como é corroborado pelo facto de apenas alguns minutos depois estar a pedir desculpa à responsável pelo Duke.

Julia, noutra cena, passa vários corredores a dizer que está com medo. Quando Alex dá um grito minutos depois, genuinamente assustado, ela, indignada, diz-lhe para não estar com brincadeiras. Alex gritou porque algo se moveu ao seu lado num barco onde a morte e os fenómenos andam a rodos. Man of Medan nem sequer consegue escapar ao tradicional cenário onde todos estão calados e alguém liberta o “shhh, façam pouco barulho”. Mesmo compreendendo que alguém esteja nervoso, é uma tirada que serve sobretudo para quebrar a tensão da cena e para revirar os olhos.

É uma obra do gato e do rato, de uma espiral alimentada pelo “agora estão presos, agora conseguiram libertar-se novamente, tentem fugir durante mais uns minutos. Mais: é uma obra que raramente consegue compreender o poder do silêncio narrativo. O estar calado seria certamente mais eficaz num jogo de terror que consecutivos “isto é estranho”, “isto é muito estranho”, “que sítio é este?” e “este sítio é estranho”. Não é uma persistência no diálogo que desgasta o jogador, mas sim que o irrita enquanto se dilui numa cacofonia de chavões cansados.

É um elenco que tem muito a perder, com vários a terem a perder em várias frentes. Raramente as sensações de urgência e de quem está prestes a sumir conseguem edificar emocionalmente sobre essa base periclitante, seja pela escrita ou pelas prestações vocais que raramente chegam às emoções extremadas que nos fariam acreditar. Mesmo nos momentos finais, caso tenham perdido alguma das personagens, a devastação de ver alguém que pode ser familiar ou namorado(a) desaparecer é rapidamente trocada pela cena seguinte.

Man of Medan apresenta ainda o The Curator, mas nunca chegamos a jogar com o misterioso homem que aparece entre actos principais para preencher os buracos narrativos. Rodeado de livros, com uma caveira na secretária e cheio de falas suaves e seguras, é uma personagem que existe sobretudo para contextualizar e para ajudar, especialmente se optarmos por lhe pedir uma “dica”. Na prática, não faz nada tão importante que nos permita ver os acontecimentos com uma nova perspetiva. Está correcto quando diz que estas decisões que tomamos são feitas muitas vezes “em pânico” e “à pressa” – mas isso já todos sabíamos desde há muito tempo.

A produtora pensou também nos jogadores que preferem uma experiência na companhia de amigos e familiares, colocando à disposição de quem comprar Man of Medan duas opções multijogador: Shared Story e ainda Movie Night. Quando experienciado na companhia de outros jogadores, a obra torna-se mais tragável apesar de não se transformar subitamente numa excelente obra. O primeiro modo é online e comporta até dois jogadores que podem passar a aventura em conjunto. Em Movie Night, o número de jogadores sobe para cinco, contudo, a experiência é local.

Os dois jogadores que acederem ao Shared Story podem jogar ao mesmo tempo, com personagens diferentes que participam nas respectivas cenas em simultâneo. É um modo que permite encarnar personagens que não têm grande tempo de antena em determinadas cenas a solo, ou seja, permite assistir a alguns trechos de forma mais alargada comparativamente à aventura a solo.

Por sua vez, o modo Movie Night pisca o olho aos Party Games, colocando-se em destaque para fazer de Man of Medan uma opção nos serões passados com os amigos ou a família. Cada jogador controla a sua personagem e vai passando o comando quando termina a sua vez. Graças à dependência das escolhas e das relações entre as cinco personagens, é um bom complemento para as opções a solo ou de cooperação. São dois conceitos que resultam em ideias sólidas e uma boa adição ao género de terror.

No lado oposto temos uma Supermassive que falha em compreender uma das bases do género. São horas onde se acumulam vertiginosamente os sustos fáceis, tantos que acabam por deixar de ter qualquer efeito. A fórmula de aproximar a câmara e de fazer algo aparecer subitamente no ecrã em simultâneo com um efeito sonora é aplicada com uma cadência ridícula, tornando-se praticamente uma paródia.

Outro dos tiques apresentados por Man of Medan é a tentativa de distrair o jogador com um ponto no cenário, apenas para o tentar surpreender com algo brusco noutra zona. Também aqui estamos perante uma técnica que perde o efeito rapidamente. É a saída mais fácil para assustar o jogador, mas que acaba por subtrair à experiência, pois denota falta de ideias, de preguiça e de uma má gestão do crescendo que poderia alimentar a tensão.

Apesar de se notarem alguns soluços na framerate quando jogado numa Xbox One X e ainda que tenha uma modelagem de personagens que oscila entre o impressionante o aspecto de cera, o grafismo de Man of Medan apresenta efeitos e texturas nos cenários bastante bem conseguidos. É pena que as vistas em exposição não sejam mais variadas, mas por onde nos vamos deslocando está cheio de detalhes, fazendo o jogador parar diversas vezes para contemplar as suas redondezas.

Como primeiro jogo inserido na The Dark Pictures Anthology, Man of Medan não é motivo para rejeitar desde já a nova aposta da produtora. Ainda que seja um molde que se presta bem a várias passagens pela campanha, tentando novas abordagens e o salvamento de alguém que tenha ficado pelo caminho, o destaque são as ideias que a Supermassive apresenta no multijogador. É uma pena que todo este trabalho e estes elevados valores de produção não tenham personagens mais desenvolvidas, uma história mais interessante, e mais técnicas para manter o jogador na beira do assento. Esperemos que em 2020, com Little Hope, a Supermassive esteja de regresso à sua melhor forma.

veredito

Depois de terminar Man of Medan, ficam as ideias do multijogador e a atenção dada pela produtora aos cenários. Infelizmente, como obra de terror, raramente consegue mostrar argumentos válidos. Não ajuda que as personagens e a história não tenham profundidade.
5 Boas ideias na componente multijogador. Cenários denotam cuidado e atenção ao detalhe. Arco narrativo e personagens não têm profundidade. Poucas ideias para assustar os jogadores.

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The Dark Pictures: Man of Medan

para PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

01 January 2019