Pedro Martins por - Oct 16, 2017

The Evil Within 2 – Análise

Demorei quinze horas e quinze minutos para terminar The Evil Within 2, mas não fiquei com a sensação que o jogo se arrastou em demasia. Sendo um jogo de terror, para o jogador ficar com esta sensação tem que haver um divulgar de ideias e de conceitos por fases, revigorando a vontade de se estar nestes mundos. Felizmente, é precisamente isso que a nova obra da Tango Gameworks faz.

Não é um jogo perfeito, mas é uma aventura munida de vários ingredientes que nos fazem querer superar os momentos mais desinspirados. Tal como no primeiro jogo da série, o protagonista é Sebastian Castellanos, ex-detetive que volta a passar por um inferno pessoal até os créditos preencherem o ecrã. Completamente destruído pela culpa de não ter conseguido proteger a sua família, Sebastian recebe a oportunidade de tentar salvar a sua filha, Lily.

The Evil Within 2 não perde quase tempo nenhum para enviar o protagonista de volta para o mundo STEM, uma realidade alternativa descrita como uma consciência coletiva. Ainda que resgatar Lily seja a espinha do arco narrativo, é uma história que, contrariamente ao primeiro jogo, deixa o jogador curioso, levando-o a tecer as suas próprias teorias, tentando perceber como é que, contra tudo e contra todos, Sebastian vai encontrar e salvar a sua filha.

Imagens Analise The Evil Within 2

Não vou estragar o decorrer dos eventos, mas escrevo apenas que o verdadeiro vilão não é quem se pensa originalmente e que a forma como as ocorrências no mundo STEM e as operações da organização MOBIUS no mundo real vão aumentando a desconfiança do jogador naquelas personagens e nos seus verdadeiros motivos. Lily não é apenas a filha do protagonista, sendo importantíssima para a operação como um todo. E Kidman, a nossa intermediária e ligação ao mundo real, tem um papel fundamental no desfecho da obra.

Além disso, o final verdadeiro – fiquem para depois do créditos – abre completamente o caminho a um hipotético The Evil Within 3 ou pelo menos a DLC. Ainda que o arco seja interessante, o diálogo tem algumas sequências más. Além disso, pedia-se mais emoção das personagens nos momentos marcantes, especialmente nas despedidas e nos reencontros. A sério, quantas vezes consegue Sebastian dizer What the…?

Esta longevidade e o desprendimento da realidade deu liberdade à equipa para criar mundos que, além de serem díspares, vão oferecendo aos jogadores cenas completamente alucinantes onde reina a tensão e a alucinação, como se a família Castellanos participa-se colectivamente num sonho febril.

Imagens Analise The Evil Within 2

Mas é preciso dar-lhe tempo para o jogo revelar o melhor de si. No primeiro terço reina o suspense e alguns jump scares, mas é no último terço que o terror imediato e mais fácil dá lugar às principais memórias que acompanharão o jogador. Os capítulos Bottomless Pit e Stronghold chegam a fazer lembrar os interiores de Silent Hill.

Antes, muito antes, percebemos que The Evil Within 2 aposta muito mais em cenários abertos. Não têm a escala de Grand Theft Auto ou de Assassin’s Creed, mas ainda assim permitem explorar o equivalente a dois ou três bairros. É uma fórmula que é intercalada ao longo do jogo, ou seja, quando os cenários começarem a recorrer mais a corredores, não quer dizer que seja uma decisão definitiva.

Esta abertura do design dos níveis faz também com que o jogo tenha personagens secundárias para conhecer – e ajudar em alguns casos, o que leva a missões que não são obrigatórias. Terminei essas missões e sem grande surpresa aconselho que o façam também, não só para conhecerem mais do jogo, mas também para serem generosamente recompensados. 

Imagens Analise The Evil Within 2

Sebastian tem um dispositivo que permite captar frequências e marcá-las no mapa. Normalmente, explorar estes pequenos “desvios” é uma boa prática, pois permite conhecer mais das personagens e, novamente, ser recompensado. Sem obrigar o jogador a explorar os cenários de uma ponta à outra, a produtora torna evidente que é esse o caminho a seguir, com The Evil Within 2 a esconder uma parte significativa do seu cômputo geral nessa exploração.

No meu caso, não demorou muito a tornar-se uma obsessão. Não só tive acesso a armas como por exemplo a besta e a caçadeira de canos cerrados, como tive oportunidade de recolher recursos que me permitiram melhorar consideravelmente a personagem e vários aspetos do poder bélico que fui conquistando.

Ao longo do jogo vão acumulando Green Gel, matéria que pode ser usada para melhorar o protagonista no seu porto seguro – sim, têm novamente que se sentar na cadeira na companhia de Tatiana. Além disso, vão recolhendo Weapon Parts que permitem melhorar o armamento. Com o passar do tempo, contudo, acabarão por perceber que terão também que apanhar Red Gel e High-Grade Weapon Parts, itens que desbloqueiam as melhorias mais avançadas.

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Começando pelas melhorias de Sebastian, são cinco pontos diferentes: combate, saúde, recuperação, furtivo e físico. Como cada um destes pontos comporta vários subgéneros, torna-se imperativo que angariem o máximo Gel possível – desde a exploração dos cenários à participação nos combates. Seja o aumento da saúde e/ou da resistência (stamina), a recuperação de situações à beira da morte, ao aumento do dano causado no combate corpo-a-corpo, ou ao aumento da velocidade quando estão agachados, há mais de cinquenta parâmetros onde podem gastar o Gel.

Uma das minhas maiores apostas foi o aumento da resistência e da saúde – adquirindo todas as melhorias nos dois sectores -, o que teve um impacto notável na forma como lidei com os confrontos mais exigentes, particularmente contra os bosses. Contudo, cada um melhorará o “seu” Sebastian consoante o seu estilo de jogo.

Importa mencionar que é possível criar itens fora das estações de trabalho (Field Crafting), contudo, é algo que custa mais recursos, ainda que seja valioso se ficarem sem balas, por exemplo. As armas, como já disse, podem ser melhoradas, contudo, com o desbloquear de mais armamento – quando terminei até uma metralhadora tinha, além de uma caçadeira de canos serrados, uma Sniper e de uma besta, apenas para mencionar algumas – torna-se prudente que estudem bem aquilo que querem melhorar. Novamente, torna-se claro que quanto mais explorarem, mais partes terão para investir.

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Seja a velocidade de recarregamento, a capacidade dos carregadores, a velocidade do disparo ou, no caso da besta, os vários tipos de munições (fumo, choque, explosivos, congelamento, etc), há novamente muito onde investir as partes. Apesar de ter explorado os cenários, estou neste momento numa segunda passagem pelo jogo – quando o terminam desbloqueiam a opção New Game Plus, assim como algumas recompensas – fatos, armas, e um modo cinemático que acrescenta duas barras pretas ao ecrã.

E a variedade não é muito diferente nas matérias que podemos recolher para fazer crafting a balas e equipamento médico, por exemplo. Pólvora, Herbs, fusíveis, pregos, canos, condensadores, enfim, Sebastian vai-se transformando num armazém ambulante.

Tudo isto está intrinsecamente ligado à jogabilidade. Não só têm várias armas para enfrentar os vossos demónios, como têm várias abordagens possíveis de o fazer. O jogo é dotado de mecânicas que permitem o assalto direto, mas também abordagens furtivas aos confrontos, existindo uma indicação se a vossa presença já alertou os inimigos. Inimigos que, sem grande surpresa, são particularmente sensíveis ao barulho que fazem.

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Isto partindo do princípio que querem participar nesses confrontos, pois The Evil Within 2 permite também evitá-los. Tenham em atenção que sem medirem forças também não recolhem os despojos, algo que já foi amplamente sublinhando como importantíssimo. É um caso de saberem escolher as vossas batalhas, pois as munições não são propriamente abundantes. Existe, por exemplo, uma criatura que faz uso da coluna do DualShock 4, acrescentando assim uma camada extra aos arrepios pela espinha abaixo. Não é uma novidade, mas é um bom uso dessa particularidade do hardware.

Permeado de confrontos com bosses – piscadela de olho incluída ao primeiro jogo -, ao longo destas horas é possível ir experimentando com os vários estilos de jogo, usando garrafas e buzinas dos carros para atrair atenções, matando furtivamente e desaparecendo atrás do cenário, usando o fumo das munições da besta ou os bidões e as vasilhas espalhadas em alguns cenários, The Evil Within 2 quer que experimentem o quanto quiserem.

Resulta bastante bem como um todo, mas há algumas secções que quebram este ritmo. Claro que não podem ser quinze, dezasseis ou vinte horas de ação e tensão frenéticas, mas em alguns trechos sente-se que o caminho do ponto A ao ponto B podia ser mais dinâmico. Além disso, os tempos de carregamento quando acedemos a The Marrow, as secções que fazem ligação entre mundos, são mais longos do que seria desejado.

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Não é nada que torne a obra em sessões cansativas, pois como já escrevi, o incentivo à exploração e a variedade do que podemos fazer é mais que suficiente para se continuar a jogar sem descanso. Além disso, há vários colecionáveis, alguns dos quais oferecem recompensas interessantes. Há estátuas que escondem chaves para abrir cacifos junto de Tatiana com itens úteis, há slides que depois de vistos enquanto falamos com Kidman dão frascos com Gel – sim, são entregues pelo gato preto de olhos vermelhos.

No departamento técnico, The Evil Within 2 é uma obra sólida. A vocalização e a banda sonora fazem bem o que lhes compete, sendo uma obra pejada de apontamentos sonoros que, especialmente nos cenários interiores, nunca nos dá descanso. O grafismo leva-nos a incontáveis cenários com algum gancho que fica na memória. Seja os corredores ferrugentos, seja os bosques, seja o mundo em que tudo é branco, a direção artística dá-lhe carisma, dá-lhe tonalidades e uma plasticidade que ajuda à tensão e ao terror.

E sim, o jogo é bastante gráfico. Num determinado momento usam uma motosserra num inimigo durante segundos suficientes para Sebastian ficar pintado de vermelho. Há litros e litros de sangue, corpos espalhados e também amontoados, há corpos pendurados pelo pescoço, empalamentos, enfim, não é uma obra minimamente contida na hora de chocar. 

Imagens Analise The Evil Within 2

Numa altura em que as melhorias para a PlayStation 4 Pro e para a Xbox One X ainda não estão disponíveis, o ponto mais fraco do grafismo são algumas texturas que não têm grande definição. A modelagem das personagens está bem conseguida, mas é claro que há trechos do jogo que parecem ter sido trabalhos por uma equipa diferente. Não é algo que retire alcance à atmosfera, mas é impossível não reparar.

Dando ao jogador uma história interessante, várias abordagens à jogabilidade, uma atmosfera quase sempre tensa, e muito para explorar e recolher, The Evil Within 2 é uma obra que merece ser experimentada. Sim, tem algumas falhas, mas é um jogo que vai recompensado quem mais investir nele. Por exemplo, matar um boss, ficar com o seu lança-chamas, matá-lo mais duas vezes no mundo, recolher os dois tanques, reparar a arma e lançar o caos – desbloqueando até um troféu se matarem uma certa criatura com ele.

veredito

Mesmo com algumas falhas no ritmo e um grafismo algo incoerente, The Evil Within 2 é uma recomendável aventura cheia de tensão, violência, e uma história que faz sentido.
8 Encontros memoráveis. Longo sem se prolongar com futilidades. Atmosfera dantesca. Algumas secções quebram o ritmo.

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The Evil Within 2

para PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

13 October 2017