Obra tida como uma aventura de exploração na terceira pessoa, The First Tree é sobretudo um videojogo que ficará conhecido pelas histórias que conta, particularmente pela emoção que coloca em quase todos os minutos e pela forma arranjada por David Wehle para as contar. O jogador é convidado para uma experiência contemplativa, enquanto joga e depois dos créditos finais aparecem no ecrã.

Foi exatamente isso que me aconteceu enquanto lhe dedicava o par de horas aproximadamente necessárias para completar o jogo. Há uma viragem bastante acentuada nas expectativas praticamente desde o primeiro minuto. O jogo mostra-nos uma raposa que procura as suas crias desaparecidas. O desespero perpetua a tristeza por esta montanha gelada, contudo, Wehle não demora muito a demonstrar que The First Tree não é apenas um conto centrado nesta raposa.

Ao mesmo tempo, um homem acorda e começa a contar à sua parceira a história da sua vida, começando pela sua juventude, atos de rebeldia, a sua preparação para o resto da vida enquanto relata episódios com a sua família, mais concretamente recordando memórias do seu pai. O paralelismo é imediatamente traçada entre os dois cenários familiares, em que os dois lutam para evitar e lidar com a perda e choque advindo desse processo e conclusão.

Até aos minutos finais, o jogador controla a raposa numa perspetiva com a câmara de jogo na terceira pessoa. Enquanto procura as suas crias vai-se deparando com pontos no cenário em que a raposa pode escavar, o que leva a mais uma cena áudio entre o casal. Pode parecer uma mecânica simples e é, contudo, é também uma forma refrescante de contar uma história dolorosa em várias frentes que nunca se cruzam, mas que se complementam e permitem aos jogadores sentir este chorrilho emocional mais rente ao osso.

Estas descobertas que vamos fazendo são normalmente auxiliadas por pistas visuais no cenário, o que ajuda na aproximação dos dois planos em que The First Tree se desenrola. Os cenários contam ainda com estrelas que funcionam como colecionáveis, sim, mas que tentam servir como pontos de orientação, pequenas ajudas que servem para os jogadores interiorizarem se já calcorrearam determinada área ou não. The First Tree não tem um enorme mundo aberto para ser explorado, porém, conta com cenários suficientemente grandes para ocasionalmente a exploração ser algo obtusa.

Escrevo ocasionalmente porque já na segunda metade há uma área em que temos que encontrar e colecionar três itens para desimpedir o caminho. Nada de novo, todavia, a ausência de um mapa e de grandes referências visuais deixadas pelo design da obra, fica a clara sensação da ausência de direção e um apoio mais na sorte do que propriamente num caminho focado. Eventualmente, acabei por usar o sol como guia, o que diz bem do quão arcaica a exploração é nesta zona.

A jogabilidade também não ficará na história - nem tinha que ficar num título desta estirpe. A raposa tem duas velocidades de locomoção e pode saltar. São processos que fazem o que podem para não se intrometer na forma como o arco narrativo é contado, mas que ainda assim se revelam rombos em determinadas situações. Por exemplo, quando o duplo salto é chamado à ação para recolher certos colecionáveis ou quando o cenário da obra afunila e é necessária alguma precisão. Não são momentos que quebram por completo o título, mas que nos lembram do quão frágil é a jogabilidade da obra.

É possível jogar The First Tree com comentários do seu criador espalhados pelos cenários. Foi exatamente isso que fiz e Wehle revela várias pensamentos interessantes, não só sobre momentos importantes, como certas decisões e obstáculos que teve que ultrapassar enquanto desenvolvia a obra. É revelado, por exemplo, que gostaria de colocar a raposa a nadar, mas que não conseguiu e portanto os locais com água no jogo são apenas isso. É revelado também a forma como teve que contar com a ajuda de outras pessoas ou a forma como a movimentação da raposa não é mais fluida. São pormenores que ajudam a perceber um pouco melhor como o jogo foi feito, graças a comentários que parecem ser honestos do início ao fim.

Esta variação na execução pode também ser testemunhada no departamento técnico. Os gráficos, por exemplo, entregam alguns momentos com uma atmosfera inspirada, pessoal, capaz de nos transportar para aquelas vistas. Contudo, um olhar mais atento noutros pontos permite compreender que as texturas não são as melhores e que a animação tem momentos com quebras acentuadas. Por outro lado, é assinalável a diversidade dos cenários atravessados pela protagonista e a surpresa que é a reta final da obra, desde o aparecimento (e explicação) do que é “a primeira árvore”, mas também pelo vislumbre da vida da personagem humana.

A sonoplastia tem mais momentos bons do que medianos. A banda sonora é bastante boa, acompanhando bem os momentos cruciais do jogo e bem temporizada por Wehle. No longo diálogo que as duas personagens têm, contudo, ainda que a escrita seja boa, há algumas incongruências na entrega. De notar que as duas personagens são vocalizadas pelo próprio Wehle e pela sua companheira na vida real, ou seja, não há atores profissionais a entregar o texto. De uma forma geral, isto não danifica a mensagem a passar e certamente não rompe com a espessa bolha emocional em que The First Tree está colocado.

Sem nunca complicar em demasia, The First Tree sabe o que quer contar. David Wehle continua a apostar em histórias profundas e pessoais na emoção, depois de já o ter feito com Home is Where One Starts. Tem algumas falhas, mas o seu cômputo geral não sai irreparavelmente danificado. Se estão à procura de um jogo capaz de vos fazer contemplar a interligação do início e do final da vida, têm aqui uma obra digital que é também uma chispa para essa linha de pensamento. Se querem um jogo com uma jogabilidade aprumada ou algo recompensador, este não é o título para esse fim.