As aventuras Full Motion Video estão outra vez a habitar uma área interessante na cena dos videojogos. Quando muitos pensavam que obras como Night Trap eram pertença do passado, eis que surge o recomendadíssimo Her Story e, consequentemente, títulos como The Bunker e Late Shift. Agora a proposta é The Infectious Madness of Doctor Dekker; agora é a lembrança do cuidado que é preciso ter com este género.

Na sua essência, The Infectious Madness of Doctor Dekker é suficientemente interessante para despertar a curiosidade. O problema é que, não sendo um desastre completo, a execução deixa a desejar na hora de manter o jogador investido até ser hora de revelar o seu cômputo geral. O ritmo e alguns passos em falso do diálogo danificam o alcance do arco narrativo, como poderão descobrir se continuarem a ler esta crítica.

O jogador encarna o papel de um psicoterapista. Curiosamente, não é o Doctor Dekker, uma vez que o médico que empresa o seu nome à obra foi brutalmente assassinado. Nós, o novo médico na cadeira de Dekker, temos que ir percebendo quem é que afinal cometeu o crime hediondo. Para tal vamos conhecendo e interagindo com vários pacientes que estavam a ser seguidos pelo falecido médico.

The Infectious Madness of Doctor Dekker acaba assim por se dividir entre a nossa ajuda aos seus problemas psicológicos e às peças do puzzles que vamos juntando sobre a morte de Dekker. Para o fazer, porém, vamos colocando perguntas. As respostas dadas pelos pacientes vão abrindo novas árvores de diálogo por onde podemos conduzir as sessões - o jogo vai decorrendo ao longo de vários dias.

Onde o jogo está melhor é na forma como nos apresenta um leque tão diverso de personalidades, com cada paciente a ser completamente diferente do anterior. Além disso, é interessante perceber até onde vai a psique humana, perceber até onde os pacientes estão envolvidos na sua própria versão da realidade, o que na verdade a torna uma realidade para si mesmos.

O jogador acaba assim por ser também um detetive. Uma mulher desmaia e acorda na praia, outro paciente acredita que tem uma hora adicional no seu dia enquanto o mundo à sua volta está parado. Há quem acredite e argumente que pode assumir a imagem de outra pessoa. São personalidades que acabam por estar ligadas - a assistente de Dekker, por exemplo, é agora a nossa assistente - e a sua história está relacionada com vários pacientes.

Fazendo-nos acreditar que cada escolha que fazemos como resposta terá um impacto na condução da história, somos levados a acreditar que a nossa atenção à leitura e à indagação sobre o que realmente se está a passar e assim compreender o que se passou. O jogo ajuda-nos e dá-nos pontos de interesse nas conversas, chegando mesmo a entregar “sugestões” que basicamente são dicas se ficarem completamente perdidos na investigação.

A questão é que The Infectious Madness of Doctor Dekker consegue, de facto, reunir um grupo de pessoas fascinantes como um todo, mas falha em mantê-las interessantes com o passar das horas. Possivelmente para alimentar uma longevidade que não deixasse os jogadores desconsolados, há incontáveis diálogos que se arrastam e que têm que ser peneirados para que o foco continue a ser o mais fascinante de cada caso.

Além das perguntas e respostas, há também fotografias e documentos que vão servindo como provas, há as notas, há o varrimento que permite alternar entre os pacientes que estão presentes em determinado dia. Contudo, o que falha é o interesse para aturar e ficar investido no mundano. Há perguntas que mostram a personalidade e há perguntas que nos questionam uma e outra vez sobre o mais básico.

São perguntas e perguntas e perguntas que sabemos que não, não contribuem em nada para o apuramento das verdades, seja a verdade sobre a morte de Dekker - que tinha sempre uma garrafa no gabinete e acreditava que se pensássemos que não íamos sentir dor, perfurar a própria mão não provocavaria uma hemorragia (sim, há pacientes como testemunhas do fenómeno) -, seja a verdade sobre cada paciente.

Assim, o acumular de horas em The Infectious Madness of Doctor Dekker acaba por trazer à superfície estas fragilidades de ritmo. Mais: este tipo de longevidade faz com que o encanto e o interesse fiquem dormentes. E é frustrante que as mortes retratadas no jogo e as personalidades dos pacientes sejam uma matéria-prima capaz de mais, assim a produtora tivesse imprimido um ritmo à sua obra que não nos fizesse verificar o nosso próprio pulso ocasionalmente.

Quando a escrita e a profundidade mental se alinham, sim, The Infectious Madness of Doctor Dekker faz-nos querer continuar. Quando sentimos que estamos num pântano narrativo, começam os suspiros e a clara sensação que estamos a desperdiçar o nosso tempo - e não, a possibilidade de escrevermos as nossas próprias perguntas não ajuda muito, uma vez que na maioria das vezes, mesmo que seja o mais básico, a resposta soa demasiado a algo enlatado.

Aludindo à primeira frase deste texto, importa não esquecer que estamos a falar de um videojogo em que as personagens são interpretadas por atores e atrizes de carne e osso. A disparidade é impressionante. Temos atores cheios de carga dramática e outros que parecem estar a ler de uma folha de papel que está ao lado da câmara. Isto até podia ter piada, mas não quando a  produtora coloca essas tiradas cómicas como entregas que deveriam ser dramáticas. 

O resultado é um jogador que perde a devoção. A bolha para uma outra realidade que devia ser um videojogo é quebrada, deixando-nos com os olhos revirados quando percebemos a diferença entre o que aquela cena deveria ter sido e o que acabou por ser. Enquanto que Her Story me arrebatou praticamente desde o início e me deitou ao chão com a sua reviravolta, The Infectious Madness of Doctor Dekker fez-me, por diversas vezes, pensar o que raio é que eu estava a ver, tamanha é a discrepância entre talentos.

Por muito que a escrita queira ser - e consiga algumas vezes - ser acutilante e dar dimensão às personagens enquanto vamos tentando perceber o que é que aconteceu, outras vezes as atrizes e atores têm que lidar com uma edificação de caráter pejada de clichés, tanto no lado masculino como feminino. Ou seja, são humanos que são interessantes, mas que não escapam ao banal. E também aí há a desilusão de perceber que a construção de mentes fenomenais teve a sua incepção em mentes que ocorrem na ocasional banalidade.

Derradeiramente, a resposta à questão se The Infectious Madness of Doctor Dekker é uma obra recomendável, é relativamente fácil. Por cada ponto que a obra faz bem, há um ponto que fica aquém. Há performances boas, mas há performances rídiculas. A história é interessante, mas a escrita tem momentos banais. As mecânicas de exploração tem momentos inspirados, mas há ramificações triviais. Então, The Infectious Madness of Doctor Dekker oferece algo interessante, mas que é minado pela instauração das areias movediças que é o ritmo de jogo. Sim, descubram estas personalidades, causas e actos, mas não esperem um Her Story ou uma obra sem falhas que não precisam de uma lupa para serem identificadas.