Começa, como sempre, com aquela janela de caixilho branco. As cortinas bamboleiam ao sabor do vento enquanto espreitamos para um mundo que não o nosso, olhando para dentro de nós e para as ruínas deixadas pelo arco narrativo principal de The Last of Us. O exclusivo PlayStation 3 pode ter sido lançado em junho de 2013, contudo, as vivências foram tão fortes que as memórias parecem ter sido adquiridas na semana passada. Não terá sido tarefa fácil, mas a Naughty Dog correu o risco de remexer a história do jogo, publicando hoje Left Behind, o único DLC que acrescenta algo à história de Joel e Ellie.

Pouco mais de duas horas depois, os créditos celebravam o final de Left Behind e eu, ainda sem saber, gastaria mais tempo a assimilar o que tinha testemunhado durante esse tempo. Como já devem ter lido, Left Behind situa-se antes dos acontecimentos do jogo principal e explora a relação de Ellie com Riley. Alexandre O'Neill, um dos maiores poetas portugueses, escreveu: "Mal nos conhecemos inaugurámos a palavra amigo": A dupla de protagonistas já se conhecia antes do plano inaugural da obra, porém, a produtora fez-me sentir como um terceiro membro recém-chegado aquela amizade, assistindo na primeira fila ao florescer emocional.

Falar sobre o argumento de Left Behind é como andar descalço em brasas: é preciso o maior cuidado em não estragar uma frase do que merece ser descoberto por cada um, portanto, é preferível expressar os sintomas que provocou, excluindo tudo o resto. A estrutura das missões não é tão simples como assistir a um prólogo, o que permite ver Ellie em diferentes fases, alternando entre fases da sua bravura, da sua melancolia, da maneira como o jogo a faz encarar as situações que tem pela frente. Esta diferenciação espelha também as armas que tem à sua disposição: em alguns trechos pistolas, arcos, facas; noutros, a arma mais poderosa de todas: a confiança.

The last of us left behind

Apesar da sua curta duração, estamos perante um trabalho pródigo em momentos marcantes que, no fundo, são exclamações que ditam a adição de novas camadas à amizade. Podem parecer tarefas mundanas douradas com uma cinematografia brilhante, mas fazendo o inventário emocional do que joguei, quase todos são marcantes. Falar sobre eles pode estragar o impacto que terão quando jogarem Left Behind nas próximas horas, mas posso falar de um que aparece no vídeo de lançamento publicado pela produtora. Ellie e Riley andam num carrossel e são meninas novamente. Esquecem a desolação onde estão imbuídas e têm o sorriso tão genuíno como as crianças num parque de diversões e imagino-as a repetir para si próprias que está tudo bem, está tudo bem, vai ficar tudo bem. Não está e não vai.

Comecei Left Behind melancólico e terminei-o emocionalmente onde presumo que a produtora me queria. Os diálogos entre as duas protagonistas são quase sempre imaculados, tocando-me especialmente num momento que revolve à volta de um livro com piadas. É difícil captar o comportamento natural de duas raparigas daquela idade, mas está lá tudo, especialmente no desalento quando as piadas são más. Este tipo de escapes fazem com que as personagens saiam daquele universo dantesco, porém, comigo funcionou precisamente ao contrário, fazendo-me pensar no mar de desalento que banha aquela ilha temporária de felicidade.

Contudo, o equilíbrio entre as cenas emocionais e as de ação acaba por não ser o melhor, resultando em duas cenas fatigadas de inimigos que parecem querer compensar o prato da balança que contém todas as cenas relacionais de desenvolvimento das personagens. Dependendo do nível de dificuldade em que estão a jogar, isto pode representar um pico de agrura que era escusado. Sem estas hordas de inimigos, muitos poderiam criticar Left Behind por não ter ação, mas pessoalmente não sinto isso: o desenvolvimento da amizade entre as duas protagonistas está escrito de uma maneira tão ponderada e profunda que justifica por si só a aquisição deste conteúdo adicional.

The last of us left behind

The Last of Us é um portento técnico e Left Behind está à altura. Graficamente continua a ser um excelente exemplo do poderio da PlayStation 3, com cenários detalhados, modelagem das personagens excelsa e efeitos visuais que adornam tudo isto e ajudam a criar o ambiente certo à experiência. Convém mencionar ainda que a banda sonora não é uma cópia do jogo principal, com Gustavo Santaolalla a ser novamente quem assina as várias composições audíveis. Destaque ainda para a suspeição que os detalhes sonoros provocam, colocando o jogador em sobressalto, ou seja, a fórmula testada no ano passado continua a ser eficaz.

Como seria de esperar, o jogo está localizado em português, tanto a legendagem como a vocalização e, novamente, o cômputo geral é assinalável. Continua a ser uma localização arrojada, não se escusando à inclusão dos palavrões, ainda que a maior parte seja justificada, alguns tendem para o lado mais gratuito, mas nada que coloque em causa o trabalho como um todo, afinal, estamos perante um jogo recomendado para maiores de 18 anos.

Depois de assinar um dos melhores jogos da geração passada, a Naughty Dog tinha a árdua tarefa de dar continuidade ao argumento, um dos pontos mais fortes de The Last of Us. Todos os jogadores que terminaram o jogo queriam mais e quase todos tinham a sua versão do que deveria ser essa expansão. Impossível de agradar a todos, de um modo geral a produtora conseguirá agradar à maioria. Preenchido com momentos marcantes - e que deverão ser motivo de falatório nos próximos meses, Riley é uma personagem interessante e profunda o suficiente, enquanto Ellie é convidada a revelar um pouco mais de si.

Terminar Left Behind é um momento marcante. Seja pelos momentos finais em si, seja por sabermos que é um ponto final nesta iteração. Dada a qualidade, todos ficarão a querer mais, porém, quando se trata de uma obra tão delicada e brilhante como é The Last of Us, haverá uma insaciabilidade que nunca será preenchida. Tirando as já mencionadas áreas em que os inimigos escusadamente se atropelam para entrar em cena, tudo está no sítio devido e terminar o DLC é apenas o início da sua discussão, algo que o manterá relevante por muito mais tempo. Queria mais, mas racionalmente o ponto final está no sítio devido.