E depois começou a chover. Água a escorrer pela janela, gotas a desassossegar as poças espalhadas pelo chão. Lembranças do trabalho que foi feito no interregno que as nossas vidas deram a The Last of Us: milhões terminaram o jogo na PlayStation 3, escreveram incontáveis comentários que atestavam a sua qualidade e colocaram outro jogo na consola. A Naughty Dog não.

Tido como um dos melhores jogos da geração passada, ascende agora às parangonas das publicações, aos quotidianos de jogadores experimentados e estreantes que vão dedicar mais de uma dezena de horas à chegada de The Last of Us à PlayStation 4.

Sobre o jogo principal já tivemos oportunidade de falar aqui e podem encontrar as nossas palavras sobre o DLC Left Behind aqui, portanto, centremos esta análise no que vale verdadeiramente a versão PlayStation 4 do conto de Ellie e Joel. Terminada a campanha principal de DualShock 4 em riste e depois de ver os créditos finais do conteúdo adicional dedicado a Ellie e Riley, as linhas de pensamento e raciocínio pulsam sem grande esforço.

"Quando entrei e te vi, tudo o que queria fazer era cuidar de ti. Não que precisasses que alguém tomasse conta de ti, mas queria cuidar de ti", disse Troy Baker, ator que encarnou Joel, a Ashley Johnson, atriz que tornou Ellie uma realidade, numa entrevista publicada no Blogue PlayStation. Creio que estas palavras são uma definição bastante apurada do que senti em junho de 2013 e o que voltei a sentir nos últimos dias.

É uma sensação estranha. Lembro-me do final do jogo, recordo-me bem de todos os momentos mais marcantes, contudo, depois de me ter sido confiado o destino de Ellie novamente, sabia que estava mais uma vez agarrado pelos colarinhos e que o jogo só me ia largar quando visse o final novamente, um fenómeno que sempre esteve reservado às melhores expressões artísticas que encontrei na vida, seja rever um filme, recomeçar uma série ou reler um livro que me deixou meses a pensar em como é possível tanto trabalho e talento convergirem numa única obra.

Se nunca jogaram The Last of Us e têm uma PlayStation 4, a recomendação pode ser feita já aqui. Se já terminaram o jogo, acredito que a chave está no último parágrafo. Mais de um ano depois, é uma boa desculpa para reviverem os momentos, sendo que o Remastered é composto, além do óbvio jogo principal, pelo DLC Left Behind, dois pacotes para o multijogador e uma apresentação em 1080p a 60 fotogramas por segundo.

Jogar The Last of Us novamente permitiu-me assistir microscopicamente à escrita de Neil Druckmann. Ainda que a história seja cativante, acredito que um dos pilares mais fortes da obra é, indubitavelmente, o diálogo que aprofunda as duas personagens principais em concordância com o segundo pilar: uma mão cheia de situações que se tornaram icónicas pouco depois dos jogadores começarem a ver os animais de estimação da Naughty Dog nos créditos finais.

Naquele mundo de desolação em que a esperança, esse bastião que aprendi ser o último a morrer, está prestes a espirar a qualquer momento. Druckmann sabe disso e incentiva personagens e jogador a reviverem momentos instantâneos que os ligam a uma vida passada, a uma vida que temos todos como certa. Passar a mão pelo pêlo da girafa, dar uma volta no carrossel, tirar fotografias numa diversão de um parque temático, tudo momentos que acredito serem ligações em que tudo estava bem, em que nos foi prometido que tudo estava bem. E nós acreditamos.

Podem dizer o contrário, mas continuo a pensar que quando Ellie e Joel andaram a cavalo pelos motivos impostos pela narrativa, mesmo que o desespero tenha cavalgado a par nas selas, terá sido um dos momentos em que se sentiram livres novamente. Estas personagens não estão presas numa cela confinada, não, tudo o que se move em The Last of Us, Clickers incluídos, são presos em algo muito pior: as suas vidas.

Jogo tecnicamente impressionante na PlayStation 3, The Last of Us está mais robusto na PlayStation 4. Não pensem que vão encontrar aqui o equivalente a algo pensado de raiz para a nova consola da Sony. Pensem que vão encontrar aqui um emulsionador dos melhores momentos da versão original, em parte porque essa oferta foi um dos jogos mais esbeltos a agraciar o catálogo da PlayStation 3. Efeitos de luz e sombras, fumo e fogo, partículas que dançam livremente no ar, texturas, tudo está melhor em Remastered.

Como seria de esperar, a Naughty Dog deu primazia aos momentos marcantes. Nos corredores que podem ser descritos como trechos entre momentos em que a escrita se combina com poderio técnico deixa o jogador com memórias que lhe vão correr junto do pensamento nos próximos meses, as virtudes da PlayStation 4 não são tão evidentes, contudo, seria uma mentira escrever esta análise sem mencionar que Remastered é a sua versão definitiva.

Olhem para as zonas onde a vegetação é rainha. Desde o chão ao cocuruto das árvores tudo está mais impressionante. A folhagem, os raios de luz que a desafia, as sombras, os reflexos: The Last of Us é uma experiência muito cinematográfica e tudo isto lhe dá um ambiente mais imersivo do que nunca.

Mas nem só de cenários pintados em tons esverdeados vive Remastered. A praia, ou melhor, a areia rasgada por pequenos cursos de água que desafiam assim a sua sorte. Trinta fotografias gravadas no disco da minha consola servem para o comprovar: a luz da lanterna de Joel a incidir numa pequena ilha de seixos, é um prazer estar aqui de novo.

Muito mais à frente, Ellie está à beira de um curso de água enorme. Lá ao fundo montanhas vestidas de branco. É muito fácil sermos todos cínicos, atirar para cima da mesa as memórias que temos do jogo original e argumentarmos que tudo isto não está assim tão diferente. Está. E para o comprovar basta colocarem a versão PlayStation 3 ao vosso serviço novamente.

Como tive oportunidade de escrever na antevisão que fiz ao jogo, esta listagem de infindáveis comparações acaba por ter um efeito secundário nefasto na experiência. Em vez de estarem atento à delícia que são todas as nuances emocionais de Ellie e Joel, muitos jogadores vão ignorar tudo isso e centrar-se exclusivamente nas comparações gráficas: onde os queixos batem nos joelhos; onde a Naughty Dog desiludiu; onde é que os 60 fotogramas têm mais prevalência. Remastered é mais do que uma mera comparação mental entre plataformas.

E abandonando um pouco a torrente gráfica, importa mencionar que a versão PlayStation 4 tem algumas vicissitudes que não eram possíveis na PlayStation 3, especialmente graças as caraterísticas do DualShock 4. Por exemplo, sempre que a lanterna precisa de ser recarregada é preciso agitar o comando, sendo que da sua coluna sai um som que complementa a experiência e faz lembrar as latas de spray de inFamous: Second Son. Mais ainda, o trackpad é usado para aceder rapidamente à vossa mochila, seja para criarem novos itens, como por exemplos kits médicos, molotovs, ou facas, tão úteis contra os Clickers, ou os vários colecionáveis que vão recolhendo ao longo do vosso percurso pelo jogo.

De salientar ainda que a luz frontal do comando da PlayStation 4 emite ainda uma cor de acordo com o estado da vossa energia. Se estiverem perto de sucumbir, a luz emitida é vermelha, por exemplo. Contudo, nunca espreitei para a frente do DualShock 4 para perceber se estava perto ou não de morrer, pois a informação no ecrã é muito mais fácil de ler.

Antes de terminar esta análise, importa passar mais uma das sensações com que fiquei: jogar Left Behind logo após ter terminado a campanha principal de The Last of Us é muito melhor do que ter alguns meses de interregno. Não só a memorização de todos os controlos está ainda fresca, como o argumento está muito mais presente, ou seja, os acontecimentos de Ellie e Riley complementam bastante melhor aqueles que uniram Ellie e Joel. Aliás, é interessante escutar com atenção as últimas linhas de diálogo de Ellie na campanha principal e começar com o DLC minutos ou horas depois.

The Last of Us Remastered não se escusa a relembrar-nos que estamos a jogar um título PlayStation 4. Por tudo o que foi mencionado, pelos momentos em que vemos a fluidez da água a seguir o seu curso, as chamas a dominarem aquele momento especial ou, por exemplo, pormenores como a pele do sofá, as roupas das personagens, as cenas de vídeo em que a qualidade gráfica no assalta o pensamento, novamente. O jogo da Naughty Dog foi um dos colossos gráficos da PlayStation 3, motivo pelo qual alguns trechos não pareçam assim tão diferentes ao ponto de motivarem os jogadores a exercitarem as suas contas nas redes sociais.

E falar da sua jogabilidade, é mencionar como o DualShock 4 favorece o cômputo geral da experiência. Se já experimentaram o jogo saberão que vão disparar muito, seja armas de fogo, combinações explosivas ou, porque não, um lança-chamas, pelo que é com bom agrado que os gatilhos do DualShock 4, um pormenor para muitos, torneiam a experiência, favorecendo o seu aspeto ergonómico.

Para mim, estou perante um excelente jogo, com raízes muito mais profundas que os seus campos técnicos. Todas estas melhorias aperfeiçoaram a experiência, contudo, essa mesma experiência foi de excelência graças à criatividade da Naughty Dog e à criatividade de Neil Druckmann e de Bruce Straley. Como estou desejoso de rever Breaking Bad ou Se7en, terminar novamente o jogo e o DLC fez-me recordar o quão marcante a obra original foi. Pessoalmente, quando finalmente chegar ao mercado, o melhor jogo da PlayStation 4 passará a ser um jogo da PlayStation 3.