Se acompanham com frequência as publicações no VideoGamer Portugal - mais concretamente a rubrica O que andamos a jogar - é provável que já estejam cansados de me ver escrever sobre Trails of Cold Steel II. Lançado em meados de novembro passado na Europa, menos de um ano após o lançamento do capítulo original desta subsérie da saga The Legend of Heroes - podem ler a análise a Trails of Cold Steel aqui -, o meu progresso no RPG foi feito um pouco aos soluços por força de outras obras que foram chegando ao mercado nas semanas que se seguiram.

Apesar disso, sabia que era importante entregar uma análise ao jogo, não só porque analisei e incluí o seu antecessor no meu Top 5 de 2016, mas principalmente devido à sua qualidade e à possibilidade de apresentar a obra a jogadores que podem não estar sequer cientes da sua existência. 70(!) horas depois, a minha PlayStation Vita poderá agora voltar à sua missão habitual de ganhar pó até ao próximo RPG nipónico que por lá apareça. Disponível igualmente na PS3, este é um jogo que se adapta bem à portátil, uma vez que é adequado tanto para curtas sessões de jogo de progresso ligeiro, como para autênticas maratonas, se assim preferirem.

Imagens Trails of Cold Steel II Analise

Beneficiado pela proximidade do lançamentos das duas obras no ocidente, os eventos que marcaram a conclusão de Trails of Cold Steel ainda estavam bem presentes na minha memória quando iniciei a aventura pela campanha da sequela. Começando imediatamente após o término do jogo original - um cliffhanger que quase dá vontade de arrancar cabelos tendo o conta o número de horas de jogo necessárias para lá chegar -, Trails of Cold Steel II coloca-nos novamente no controlo de Rean Schwarzer, estudante da academia militar de Thors e um jovem que terá um papel muito importante a desempenhar na Guerra Civil que entretanto se despoletou pelo território de Erebonia.

Pela primeira desde a sua chegada à academia, Rean está só e longe daqueles que se tornaram lentamente nos seus melhores amigos, os restantes elementos da Class VII. A nossa missão é voltar a reunir as tropas e trabalhar para recuperar acesso a Trista, a cidade onde está localizada Thors e que serve atualmente de base para uma das fações envolvidas na guerra. Tal como no jogo original, as jogadas de poder e políticas voltam a ser uma parte integrante do arco narrativo principal, mas têm agora um efeito palpável na vida destes adolescentes, na forma como veem o mundo e nas suas relações.

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Dito isto, é nas personagens que compõem o elenco principal da série que reside o seu sucesso. Trails of Cold Steel II sabe isso, mas colocou-se numa posição difícil de retirar partido desse elemento. É notório ao longo da aventura a ausência do ambiente escolar do primeiro jogo e do espiríto de camaradagem a ele associado. É por isso que o primeiro Ato da campanha - são três Atos no total, com a existência ainda de um prólogo, epílogo e episódios intersticiais - é de longe a parte mais fraca do título no que diz respeito à componente narrativa, porque os eventos que marcam a conclusão do jogo original levam a uma enorme demora até podermos ver finalmente todo o grupo a interagir novamente.

Felizmente, após o primeiro Ato, que ainda assim demorou-me cerca de 20 horas, a narrativa melhora significativamente, voltando a focar-se no seu melhor elemento, as suas personagens, e fazendo um excelente trabalho para tornar o arco narrativo que liga as duas obras, ou seja, os eventos que levaram à guerra civil, interessantes e cativantes, algo que não tinha acontecido em Trails of Cold Steel. Aliás, a principal prova da sua qualidade surge já perto do seu final e na forma como através de uma cinemática acompanhada por um arranjo musical nos leva a perceber o quanto gostamos verdadeiramente destas personagens e o nosso grau de investimento na sua aventura pelas duas obras.

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No entanto, existem alguns problemas notórios neste departamento da obra. Para além do já mencionado início algo lento e desapontante, após a conclusão do terceiro e último Ato, o jogo arrasta-se por demasiado tempo ao ponto de se tornar cansativo. Percebe-se a intenção de querer preparar os jogadores para aquilo que surgirá no futuro Trails of Cold Steel III, mas a execução é fraca e compromete um pouco o impacto emocional do Ato final. Não faz sentido o epílogo arrastar-se por mais de cinco horas e ter a mais longa e também mais difícil dungeon do jogo, principalmente numa altura em que o jogador só está mesmo à espera de uma conclusão definitiva que parece nunca mais chegar.

Já no que diz respeito à jogabilidade, a sequela mantém-se praticamente inalterada relativamente ao seu antecessor, salvo algumas exceções. Uma delas é a possibilidade de poderem escolher livremente os membros ativos da vossa party, estando apenas limitados ocasionalmente pela narrativa. Para além disso, detetei dois pormenores que não estavam presentes no jogo original: o primeiro prende-se com o facto das personagens recuperarem automaticamente toda a sua saúde (HP) e energia (EP) sempre que sobem de nível, enquanto o segundo está relacionado com os Link Attacks, ou seja, sempre que desequilibram um inimigo, o parceiro de combate ao qual estiverem ligados poderá igualmente assistir o ataque desequilibrador para um maior dano em menos turnos. Contudo, no passado, sempre que optassem pela opção Rush, disponível após acumularem 3 assistências, perdiam todos os Bravery Points, mesmo que tivessem mais do que os três necessários para ativar essa opção. Pois bem, isso já não acontece.

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Em termos de novidades de relevo, destaca-se a presença de um maior número de membros passíveis de serem incluídos na vossa party, embora a maioria deles apenas esteja disponível em pequenas secções do jogo, assim como a introdução da mecânica Overdrive, que consiste numa esfera que vai sendo preenchida através do vosso desempenho nos vários confrontos contra inimigos ao longo da campanha. Após estar totalmente preenchida, a ativação desta estratégia de ataque permitirá à personagem que ativou a mecânica e à personagem à qual está ligada recuperar um pouco de HP, EP e CP (Craft Points), atacar ininterruptamente por três turnos, usar Arts sem tempo de espera e ter uma possibilidade de 100% de desequilibrar o inimigo com ataques físicos. Embora a sua utilização seja, de uma forma geral, apenas necessária contra inimigos mais poderosos, Overdrive oferece mais uma estratégia interessante para abordar determinadas batalhas.

A principal novidade, no entanto, é a introdução das batalhas de Divine Knights, mecânica que surgiu pela primeira vez nos últimos minutos do jogo original. Divine Knights são essencialmente gigantes criaturas mecânicas construídas por uma antiga civilização e que possuem enorme poder e competência em combate e na cobertura de grandes distâncias em pouco tempo. Estas batalhas servem como uma muito necessária diversificação dos momentos de combate do jogo e tornam-se rapidamente num dos seus melhores elementos, pecando apenas pela sua escassa utilização ao longo da aventura. A dada altura, Rean ganhará a habilidade de chamar o seu Divine Knight para batalhas tradicionais, mas a sua utilização nas mesmas é, obviamente, extremamente limitada.

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De resto, a jogabilidade de Trails of Cold Steel II mantém-se fiel ao seu antecessor, pelo que aqueles que jogaram o primeiro título sentir-se-ão rapidamente em casa na sequela. A utilização de Arts, Crafts e itens continua a ser uma parte importante das batalhas, assim como estudar as vulnerabilidades dos vários tipos de inimigos, a análise cuidada da vossa posição no campo de batalha e a personalização dos vossos Orbments com diferentes Quartz para conferir determinadas habilidades, resistências, ataques e bónus estatísticos aos membros das vossa party. A componente estratégica continua bem presente no jogo e é graças a ela que o combate se vai mantendo fresco mesmo com o acumular de horas no relógio. A opção de enfraquecer ligeiramente os inimigos sempre que saírem derrotados de uma batalha também volta a estar presente, removendo assim a necessidade de recorrer ao habitual grinding que costuma caracterizar obras deste género.

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Assim como no jogo original, este título volta a ter vários momentos em que dará aos jogadores a opção de escolher com quem passar algum do seu precioso tempo livre. Para além da óbvia componente narrativa associada a estes momentos que, dependendo das vossas opções, levarão a diferentes cenas no terceiro Ato, estes momentos servem igualmente para aumentar o nível de Link entre Rean e as personagens em questão, algo que por sua vez desbloqueará diferentes habilidades que poderão utilizar em combate, sejam estas dar cobertura perante ataques inimigos, desferir o golpe final num inimigo com pouca saúde ou regenerar um pouco da vossa própria barra de saúde. Quanto mais elevado o nível de relação de Rean com a personagem à qual se liga no campo de batalha, mais benefícios daí retirarão.

No departamento técnico, Trails of Cold Steel II mostra alguma idade, algo que é facilmente compreensível se pensarmos que o jogo foi lançado no Japão em 2014 e que foi produzido com a PlayStation 3 e PlayStation Vita em mente. Analisei a obra na portátil - tal como tinha feito com o jogo anterior - e, embora não seja deslumbrante, é uma obra competente que apenas em algumas cinemáticas perto do final do jogo vê a framerate descer para valores perigosos. Felizmente, tais problemas nunca sucedem em momentos de jogabilidade. Relativamente à banda sonora, o jogo volta a utilizar os principais temas da obra anterior, algo que se adequa tendo em conta que regressarão aos locais pelos quais passaram no título original durante a nova aventura. Dito isto, temos aqui uma sonoplastia que sabe como puxar os botões emocionais do jogador quando o tem que fazer.

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Em suma, Trails of Cold Steel II é um excelente RPG que se fixa como um digno sucessor a uma igualmente excelente entrada original da série. A narrativa, mesmo com alguns problemas, volta a ser um dos elementos mais fortes de um título que apenas peca por não saber quando parar, acabando por se arrastar demasiado nas últimas horas da sua campanha. A jogabilidade continua tão aprimorada e satisfatória como antes e a introdução das batalhas com Divine Knights serve como uma forma eficaz de diversificar um pouco os momentos de combate, embora merecesse uma maior utilização do que aquela a que teve direito. No fundo, esta é uma sequela que não fica a dever em muito ao seu antecessor e que fará certamente as delícias de quem adorou o jogo original.