A PlayStation Vita pode ter deixado a desejar na sua promessa de entregar experiências dignas de uma consola caseira em formato portátil, contudo, se existe departamento no qual a plataforma da Sony não tem desiludido é no número bastante simpático de Role-Playing Games nipónicos que têm agraciado o seu catálogo desde a sua chegada ao mercado. Tal como a sua antecessora, a portátil tem sobrevivido muito às custas destas obras de longevidade gigantesca e que se adaptam na perfeição a sessões de jogo mais curtas.

Loh trails of cold

Trails of Cold Steel é o mais recente exemplo desta tendência e a mais recente desculpa para os aficionados deste popular género de obras jogáveis voltarem a retirar as suas portáteis da gaveta, limparem-lhe o pó do ecrã e dedicarem-lhe o tempo de uso a que estas não têm direito ao longo do ano. Negligenciada durante meses a fio, a consola vai mantendo-se ativa graças ao fluxo de JRPG's que nos vão fornecendo, de forma constante, razões para regressar à plataforma que tem servido de casa às principais entradas do género nos últimos anos.

Produzido pela Nihon Falcom como parte da sua já longa série The Legend of Heroes, Trails of Cold Steel transporta os jogadores para uma realidade alternativa que combina ambientes rústicos, quase medievais, com uma sociedade tecnologicamente avançada, embora ainda dividida por antiquados sistemas de classes sociais. Tendo lugar no império de Erebonia, tal como outras entradas da saga, a narrativa coloca-nos no epicentro de um período conturbado da sua história, recheado de intrigas e lutas pelo poder por parte das diferentes Noble Houses que compõem a aristocracia, bem como um clima de tensão associado ao possível início de uma guerra entre as diferentes nações.

Loh trails of cold steel

Apesar de estar incluído numa série com um largo historial, este título é um excelente ponto de entrada para novos jogadores, contando uma história num universo pré-estabelecido, mas que não nos bombardeia com informação sobre a qual é impossível ter qualquer tipo de conhecimento sem terem jogado os capítulos anteriores. Como indica o subtítulo, este jogo conta uma narrativa completamente independente de tudo o que lhe antecedeu e que pode ser desfrutada de igual forma tenham ou não desfrutado das restantes entradas da saga.

Na verdade, o arco narrativo geral de Trails of Cold Steel serve sobretudo como pano de fundo à aventura do grupo de protagonistas, uma vez que as personagens e as relações entre si são o principal foco da história e representam os seus momentos de maior interesse e inspiração. Seguindo a vida escolar de um grupo de adolescentes recém-chegados à academia militar de Thors para integrar a misteriosa Class VII, uma turma composta por aristocratas e cidadãos normais, no qual se inclui o protagonista Rean Schwarzer, personagem que controlarão durante a maioria do vosso tempo com o jogo, o jogador terá de balancear a vida social, os estudos, a preparação física e técnica de combate, bem como o seu conhecimento da realidade da situação em que se encontra a população de Erebonia.

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Contudo, isto não significa que o título vos force a escolher a que aspeto da vossa vida pretendem dedicar mais tempo, muito pelo contrário. O jogo apresenta um ciclo de jogabilidade que é rapidamente identificável e cobre todos as componentes da vida estudantil em tandem com a narrativa. Começando em abril e terminando em outubro, todos os meses são compostos por um dia livre, no qual farão tarefas para a Associação de Estudantes, um exame prático e uma visita de estudo que vos levará a algumas das principais localizações dos impérios. Apesar de ser um ciclo repetitivo, estas atividades sofrem alterações que são mais do que suficientes para evitar que a obra se torna monótona ou até mesmo previsível.

Mais do que fornecerem cada vez mais camadas ao arco narrativo que envolve toda a aventura e que demora bastante tempo até começar a ganhar tração, todos estes momentos servem sobretudo para estabeleceram as diferentes personagens que nos acompanharão ao longo do ano letivo e suas personalidades, bem como as diferentes dinâmicas entre membros da aristocracia e os commoners, como são designados a pessoas sem ligação à nobreza, relativamente às suas perspetivas do mundo e origens distintas.

Apresentando-se numa fase inicial como uma panóplia de diferentes clichés, este grupo de estudantes vai lentamente transformando-se num conjunto de personagens extremamente reais com as quais é bastante fácil nos identificarmos. Tal como tantas vezes acontece em obras do género, as personagens são o centro de toda a experiência e a principal razão pela qual se torna tão frequente investirem dezenas e mais dezenas de horas nestas aventuras. A narrativa política e os vilões misteriosos podem cativar a vossa atenção numa fase inicial, mas são as personagens ricas e interessantes que vos manterão investidos na experiência.

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No que à jogabilidade diz respeito, Trails of Cold Steel é um tradicional Dungeon Crawler que faz uso de um combate por turnos bastante familiar para os fãs do género. Fazendo uso das suas armas de eleição para ataque tradicionais ou da tecnologia Arcus para aplicar ataques especiais que dão pelo nome de arts e crafts, o jogador terá de gerir as barras de saúde e dedicadas aos ataques especiais para destruir os seus inimigos, inimigos esses que possuem resistências e vulnerabilidades a diferentes elementos e que podem ser mais suscetíveis ao infligir de estados como paralisia, confusão, congelamento, entre outras.

Para conferir uma maior profundidade e componente estratégia ao combate, o título coloca enorme ênfase na movimentação e posicionamento das personagens na área de batalha, sendo possível evitar as investidas dos inimigos mantendo uma distância de segurança, embora isso impossibilite os vossos ataques tradicionais e vos force a consumir as barras dos ataques especiais. Para além disso, uma vez que a narrativa levará a alterações no grupo de protagonistas que vos acompanharão em combate, é de salientar que o jogo permite alterar os quartz, esferas utilizadas para darem novas habilidades e poder ao Arcus, e dessa forma atribuir novos ataques especiais e características únicas a personagens específicas, sendo possível substituí-las praticamente a qualquer momento, exceto durante combates.

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Embora possa ser uma opção quase insultuosa para muitos jogadores, Trails of Cold Steel oferece a possibilidade de, sempre que são derrotados em batalha, poderem voltar a tentar o mesmo combate, mas com os inimigos ligeiramente mais enfraquecidos. Pode parecer contraproducente, no entanto, o facto de o jogo não permitir abandonar as batalhas com os bosses para poderem aumentar um pouco mais o nível dos protagonistas e dessa forma fortalecê-los acaba por dar azo a situações em que estarão claramente em desvantagem relativamente aos inimigos, sendo esta opção uma forma de evitar que fiquem presos durante demasiado tempo na mesma batalha. Ainda assim, podem sempre voltar a tentar a batalha nas suas circunstâncias originais se assim desejarem.

Em termos de novidades relativamente a outras entradas da série, este título introduz uma nova mecânica de combate denominada Tactical Link, o que se traduz em ligações que permitem, sempre que conseguirem desequilibrar os inimigos, combinar ataques com um dos parceiros de batalha. Dependendo da classe da personagem em questão e do nível de ligação entre ambos, podem ainda desfrutar de benefícios como restituição de um pouco de saúde ou o cobrir o parceiro de um ataque inimigo. Será através de interações nos dias livres que terão de optar sobre quais as personagens com que pretendem solidificar e fortalecer essa ligação, estando essa decisão dependente tanto da vossa preferência em relação às diferentes personalidades, como da utilidade das mesmas em combate.

Graficamente, Trails of Cold Steel está muito longe de ser uma obra tecnicamente impressionante, mostrando por diversas vezes alguma idade - foi lançado originalmente no Japão em 2013 -, sobretudo no que diz respeito à qualidade das texturas. Ainda assim, a aventura leva-nos a uma variedade bastante agradável de localizações, todas elas com uma identidade bastante própria. Por outro lado, a banda sonora encaixa na perfeição na obra, sendo facilmente percetível os diferentes momentos das experiências apenas através da música que os acompanha. A vocalização das personagens é também bastante sólida, embora seja utilizada de forma mais escassa do que era desejável.

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Em suma, o Role-Playing Game da Nihon Falcom é mais uma sólida entrada na já longa série The Legend of Heroes e uma excelente iteração para introduzir novos jogadores à saga. Com um combate sólido, profundo e altamente estratégico, um universo rico e cativante, uma narrativa interessante e um elenco de personagens memoráveis, Trails of Cold Steel é uma entrada obrigatória para os fãs deste género e também para os detentores de uma PlayStation Vita, podendo perfeitamente oferecer mais de 60 horas de jogo.