Foi preciso esperar, mas valeu a pena. Três anos depois do lançamento do seu antecessor no ocidente e dois anos após a sua estreia no mercado nipónico, Trails of Cold Steel III, o terceiro capítulo da subsérie integrada na saga de títulos The Legend of Heroes, está finalmente acessível deste lado do globo. Pode não ser a oferta mais espetacular ou impressionante do género no mercado atual e tem defeitos fáceis de identificar, mas depois de longas e marcantes aventuras com este elenco é difícil não ficar imediatamente investido neste regresso a Erebonia.

E nesse sentido é preciso fazer desde já uma ressalva. Ainda que não seja propriamente surpreendente, uma vez que estamos a falar da terceira entrada numerada de uma série, o novo jogo não é, de todo, convidativo para aqueles que não jogaram os dois capítulos anteriores, sendo muito pouco recomendável que esta seja a vossa porta de entrada para esta saga. Na verdade, Trails of Cold Steel III tem fortes ligações às outras séries sob a chancela The Legend of Heroes, o que inclui os jogos Trails in the Sky e obras que nunca chegaram ao ocidente, pelo que quem os jogou retirará muito mais do regresso de várias caras familiares.

É uma opção arriscada e que dificulta a chegada da série a novos jogadores com o seu mais recente lançamento, especialmente quando falamos de obras com uma duração que pode chegar bem perto da centena de horas, contudo, é também uma opção que premeia de forma constante aqueles que acompanham esta aventura desde o peculiar exercício de orientação que marcou a criação da Class VII. Cada reencontro de Rean Schwarzer, o protagonista, com os seus companheiros de turma é igualmente um recordar de várias memórias por parte do jogador, uma sensação de familiaridade que só é possível com um elenco que ficou connosco muito depois dos créditos rolarem pelo ecrã.

Dessa forma, é fácil constatar que a narrativa e as personagens continuam a ser o elemento mais sólido da experiência. Agora como instrutor e ao comando de uma nova Class VII, Rean está de regresso à academia militar de Thors, ainda que numa sede secundária ao campus principal. Isto permite que a estrutura narrativa se mantenha bastante próxima dos jogos anteriores, isto é, mantém-se o ambiente escolar e cada capítulo é marcado por um “exercício no terreno” que leva o protagonista e os seus alunos até diferentes territórios de Erebonia, sempre com alguma ligação a um dos alunos, onde serão expostos aos problemas locais e aos jogos de bastidores que assolam o continente e o mantém num permanente estado de conflito e tensão.

Apesar do regresso à escola, Trails of Cold Steel III volta a focar-se na componente política e militar do seu arco narrativo, em detrimento das incidências da vida escolar. Elas continuam lá, e a possibilidade de fortalecer laços com o vasto elenco através de conversas opcionais também, mas se na obra original houve mais tempo para que miúdos ingénuos e inexperientes se transformassem em jovens adultos competentes e capazes de alterar o rumo de uma nação, aqui esse crescimento é feito como uma consequência dos eventos do fio narrativo principal. Isto significa que há menos momentos de leviandade, embora o humor marque presença ao longo da aventura.

Dito isto, o que mais impressiona em Trails of Cold Steel III é a contínua capacidade para dar voltas e reviravoltas ao seu enredo sem se tornar excessivamente confuso. Há sempre perguntas para responder, novas conspirações à espreita, novas fações cuja lealdade raramente é fácil de perceber e novas revelações sobre o mundo e o seu passado para serem desvendadas. As personagens podem ser a cola que agarra a atenção do jogador à narrativa, mas o lento desenrolar do gigantesco novelo que é a história desta saga é igualmente cativante.

Ainda assim, a obra da Nihon Falcom não consegue evitar uma sensação de cansaço à medida que as horas se vão acumulando. Precisei de cerca de 110 horas para chegar ao final da aventura, realizando todas as atividades secundárias que encontrei pelo caminho até lá, o que são definitivamente demasiadas horas. Obviamente que o enredo não é o principal culpado pela situação, mas ser presenteado com um cliffhanger é bastante frustrante, principalmente quando ainda não há confirmação da localização do quarto e último capítulo desta subsérie.

Claro que este número pode ser bastante reduzido se não tentarem explorar todos os cantos e recantos do jogo ao máximo, no entanto, isso não evita que algumas secções de combate se arrastem por mais tempo do que seria desejável. O combate é bastante bom, ainda que com poucas alterações em relação aos títulos anteriores, oferecendo uma importante componente estratégica e uma diversidade simpática de opções aos jogadores graças à enormidade de personagens que, a dada altura, podem compor a nossa party, com a união da nova Class VII à original.

Mas tudo isso não chega para prevenir que, após centenas de batalhas contra inimigos que inevitavelmente se tornam carne para canhão, a repetição se acabe por instalar. As masmorras são demasiado longas e os corredores tornam-se rapidamente monótonos, enquanto as estradas repletas de monstros que ligam as diferentes áreas de exploração também pouco fazem para se diferenciar. É verdade que não precisam de lutar contra todos os inimigos que aparecem no vosso radar, mas se mesmo fazendo isso acabei por ser dizimado em algumas batalhas contra bosses, fica a ideia que quem não fizer chegará a essa batalhas muito pior preparado. Felizmente, a possibilidade de enfraquecer inimigos após cada derrota continua presente e será a vossa única salvação em alguns momentos.

Essa monotonia e repetição das masmorras e cenários pode-se explicar também pelo facto de estarmos perante uma obra tecnicamente datada. Ao contrário dos seus antecessores, que foram produzidos de raiz para as PlayStation 3 e PlayStation Vita, Trails of Cold Steel III sempre teve como destino definido a PlayStation 4. No entanto, apesar de uma melhoria nas texturas, sobretudo comparativamente à portátil, o novo capítulo continua a ser limitado no aspeto visual. Os cenários urbanos impressionam pela arquitetura, mas ficam-se por aí.

Não é uma obra feia, contudo, também não deixará ninguém de queixo caído. É uma obra que poderia perfeitamente ter saído na geração anterior de plataformas, sem serem necessários grandes ajustes. Por sua vez, a banda sonora continua a alternar entre os tons mais melódicos, tranquilos e joviais durante os momentos de vida escolar, e o tom mais pesado e intenso sempre que a narrativa assim o exige. Há muitas faixas provenientes dos jogos que o precedem, o que ajuda a criar a sensação de familiaridade e a colocar-nos de novo neste mundo.

The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel III é assim uma sólida continuação do que veio antes. Não reinventa a fórmula, mas também não precisava de o fazer. O arco narrativo e a relação entre as suas personagens continuam a ser a principal força motriz da série, mantendo o jogador ligado à experiência nos momentos em que o cansaço começa a surgir. Tecnicamente, está muito longe de competir com os mais impressionantes títulos do género. Ainda assim, é um jogo difícil de largar e que por isso se torna uma recomendação fácil para os fãs da série, e de RPG em geral, com as ressalvas já referidas anteriormente.