Aventuras narrativas estão, desde há um tempo a esta parte, muito em voga, com a indústria a mostrar cada vez mais uma capacidade para entregar histórias de elevado impacto emocional, de apresentar novas perspetivas ao jogador, de abordar temáticas mais sérias e maduras, de criar enredos que sirvam para mais do que um simples pano de fundo à aventura ou de motivação para as ações do protagonista. Com maior ou menor grau de sucesso, este género de videojogos já provou por diversas vezes ser merecedor de atenção e são cada vez mais aqueles que os consomem.

The Lion’s Song é mais um desses títulos. Lançado inicialmente em formato episódico, o jogo chega agora na sua totalidade à Nintendo Switch, ou seja, com os seus quatro episódios e a respetiva galeria que mostra as ligações descobertas entre as diferentes histórias e protagonistas que compõem cada um dos capítulos. Desenvolvida pela produtora austríaca Mi’pu’mi Games, esta aventura sobre génios oprimidos, seja pela sociedade antiquada, pela sua própria auto-crítica ou pela pressão que lhes é imposta, encanta acima de tudo pela forma como cria empatia entre jogador e protagonista.

Embora estejamos perante autênticos prodígios das áreas da alta sociedade, os seus problemas, hesitações e medos são bastante humanos e não é preciso serem génios para se identificarem com os mesmos. Ao colocar o foco de tal forma centrado nos seus protagonistas, a produtora garante que o jogador permanece sempre investido nas suas dificuldades e nos eventos marcantes das suas vidas. A curta duração - cada episódio anda à volta dos 60 minutos de duração - contribui igualmente para a entrega de narrativas concisas e sem matéria supérflua.

Em The Lion’s Song, Viena é o pano de fundo para as histórias de Wilma, Franz Markert e Emma Recniczek. Wilma é uma estudante considerada um prodígio da composição musical, uma mestre do violino que parte para uma cabana isolada nas montanhas para tentar encontrar o sossego e a inspiração para fugir à pressão sobre a sua próxima peça cuja apresentação está a apenas alguns dias de distância. Silence, título do episódio, brilha precisamente na forma como nos coloca na pele da jovem, na maneira como esta consegue encontrar melodias onde elas não parecem existir, na forma como bloqueia mentalmente as distrações da sua mente, bem como ir beber inspiração às mais estranhas fontes.

Por sua vez, Anthology acompanha os esforços artísticos de Franz Markert, um jovem pintor que começa já a dar nas vistas, mas que vive atormentado pela incapacidade de representar nos seus retratos tudo aquilo que vê nos seus modelos. Com blackouts frequentes e visitas ao consultório de Freud pelo meio, a história mostra um outro lado da genialidade: a obsessão e a constante procura da perfeição de forma muitas vezes pouco saudável. Mais uma vez, é a forma como o jogo representa a personagem que a torna tão cativante.

O mesmo se aplica a Emma, protagonista de Derivation, o terceiro episódio do jogo. Aqui o destaque vai igualmente para a representação da sociedade do início do século XX, mais concretamente a forma como a presença de mulheres em áreas dominadas pelo sexo masculino era encarada. Emma é uma matemática brilhante que se vê forçada a ocultar o seu género para conseguir ser ouvida e não ignorada pelos seus pares. A dualidade é um tema transversal à sua história e vai muito para além da simples troca de roupa.

Dependendo de determinadas escolhas que façam, podem assistir a pequenas interseções entre estas três narrativas, contudo, estas são totalmente independentes uma das outras e são melhores por causa disso. O quarto e último episódio, Closure, revisita as três personagens através de terceiros com ligações às mesmas e é de longe o menos interessante, falhando na sua missão de entregar algo de novo ou empolgante às histórias contadas anteriormente.

Outro ponto menos bem conseguido da obra prende-se com as decisões que são apresentadas ao jogador. Para além de poucas terem uma real influência no desenrolar dos acontecimentos, aquelas que têm impacto são de tal forma fáceis de tomar que mais valia nem sequer serem uma opção. Aliás, a própria alta percentagem associada à maioria das decisões que tomei provam isso mesmo. O jogo faz um mau trabalho em “vender” a ilusão de escolha, o que não seria um problema se a obra não colocasse tanto destaque nas mesmas.

Ao longo dos quatro episódios, é impossível não destacar igualmente o seu departamento visual pixelizado demarcado pelo tom sépia que dá ainda mais força à atmosfera da cidade que tanto inspira, como atormenta os protagonistas. A banda sonora é igualmente bastante eficaz, conferindo uma certa melancolia à aventura. Como não poderia deixar de ser, esta destaca-se sobretudo no primeiro episódio ou não fosse Wilma uma compositora a trabalhar na sua próxima peça orquestral.

The Lion’s Song pode não retirar o máximo proveito das capacidades únicas de entregar narrativas em formato jogável, mas aquilo que entrega é de inegável qualidade. Mesmo que as decisões que oferece sejam pouco significativas e que a interatividade seja pouca, o mais importante, isto é, as suas histórias e personagens são suficientemente cativantes para nos manter investidos nos acontecimentos em questão. O departamento técnico é igualmente bem executado.