Os jogos de terror não são um género muito abundante na Nintendo Switch, nem no mercado dos videojogos de uma forma geral. Os bons jogos são raros e requerem uma muito boa gestão das emoções que se quer que o jogador sinta. Um excesso pode arrumar totalmente o jogo. The Long Reach não é propriamente um título de terror, mas um sub-género mais leve: um thriller psicológico. Depois de ter chegado ao fim em algumas horas, posso afirmar que esta abordagem ao género é a mais acertada, apesar dos puzzles serem um entrave à progressão.

The Long Reach não faz dos seus momentos de tensão o ponto central do jogo, mas sim da narrativa.  Este título ucraniano é um thriller que nos leva até aos limites da psique humana, onde o real se confunde com o imaginado e vice-versa. Por isso, é um jogo que nos pede uma boa capacidade de interpretação dos factos e dos pesadelos das personagens. É um jogo fascinante, mas que que fica refém das suas respostas ambíguas, ou seja, da vossa perceção da mensagem em algum ponto do jogo. 

Analise The Long Reach

Quanto menos souberem da história antes de jogar, melhor. É claro que isto é válido para todos os jogos, mas é especialmente verdade para um que esteja tão focado neste elemento. Vocês são um cientista num laboratório de um instituto científico, onde algo correu muito mal. Controlam Stewart, o mais recente cientista do complexo científico, que desmaiou no momento da catástrofe. 

Como é óbvio, a nossa primeira intenção é descobrir o que aconteceu. Não temos informação prévia em que área é que o grupo de cientistas estava especializado, por isso não sabemos que tipo de evento catastrófico possa ter ocorrido. Desta forma, num ambiente bidimensional navegamos pelos corredores e divisões do instituto científico à procura de respostas imediatas. A primeira é “O quê que aconteceu?”, possivelmente seguida de “Que consequências é que isto terá para Stewart?”. Cada pedaço de informação, seja ele encontrado nos diálogos ou no ambiente, é essencial para juntar os pontos e construir uma imagem do que aconteceu.

Analise The Long Reach

Visto ser uma aventura gráfica, é óbvio que esta não será uma viagem por um corredor contínuo até verem os créditos finais. Há bastantes puzzles que vos bloqueiam o caminho e que se comportam sobretudo como entraves à progressão, pois em vez de acrescentarem ao jogo, diminuem a experiência devido aos momentos frustrantes que acabam por originar. 

O que é necessário para os resolver, é descobrir a lógica que os rege. Temos um ou vários problemas e itens no nosso inventário que fomos apanhando pelo nosso caminho. Por exemplo, logo no início do jogo temos que arranjar o botão para chamar o elevador. E, mesmo assim, a solução é praticamente impossível de adivinhar. Essencialmente, terão de obter um osso de borracha para cão, depois têm de o cortar no vidro partido de uma máquina de venda de snacks e inserir o osso de borracha cortado no painel do botão do elevador. Este é só um exemplo daquilo que está espalhado pelo jogo todo. 

Analise The Long Reach

Não esperava que os puzzles fossem tão bons como o recente Thimbleweed Park, uma vez que é preciso muita experiência para se conseguir atingir tal auge. Mas como este jogo é o resultado de uma game jam, ou seja, feita por quem ainda está muito verde nesta indústria, já tinha alguns receios em relação ao departamento da jogabilidade, receios esses que acabaram por se confirmar. 

O que me surpreendeu foi a qualidade da escrita, apesar de haver momentos dramáticos menos conseguidos devido ao excesso de humor quando não devia acontecer. Quanto mais falamos com as personagens, mais detalhes encontramos dos eventos que levaram àquela catástrofe. Mas não é só de pormenores em volta deste acontecimento desastroso que o diálogo se constrói, formam-se também personalidades fortes, que escondem as motivações de cada um. 

Analise The Long Reach

À medida que se avança, a nossa percepção da realidade do protagonista é alterada. A psique de Stewart é complexa, confusa até ao cair do pano. Os antagonistas também são personagens que acabam por revelar várias camadas de complexidade, ficamos a saber quais as consequências de se mexer com a consciência humana sem termos em atenção aos princípios de ética científica que possa antever resultados como os que testemunhamos. A progressão, com revelações cada vez mais surpreendentes, fazem-nos questionar os limites da mente humana, do que é ou não para além dos nossos valores de moralidade.  

Para um thriller deste calibre, é estritamente necessário uma cuidada atenção aos detalhes técnicos, sobretudo, no departamento sonoro. A música ambiente e os efeitos sonoros estão bem adequados à atmosfera soturna do jogo. Mas são os momentos de maior tensão que a música sublinha melhor, quando há perigo sentimo-lo bem. O pixel art, esta ferramenta ou estilo para desenhar videojogos funciona, novamente, bem para um título deste género. Já vimos esta direção artística muito bem aplicada em Lone Survivor, Claire e The Last Door; The Long Reach é mais um exemplo a juntar-se a estes mencionados.

Analise The Long Reach

Se estão à procura de uma boa aventura gráfica, The Long Reach pode ser uma opção viável, apesar dos puzzles vos atrasarem o avanço. Pessoalmente, nem costumo gostar muito de jogos que tenham um suspense como o que está aqui contido. Assim, The Long Reach pode ser o primeiro de muitos jogos que venha a experimentar deste género. E como nota final, The Long Reach beneficiaria muito mais se se tivesse inspirado na série que melhor representa o género, Silent Hill, em vez de Lone Survivor (também inspirado nos jogos da Konami), talvez assim não fosse tão ambíguo e com um final que deixa muito em aberto.