Depois de um período de maiores dificuldades e de alguma perda de relevância, os últimos anos têm-nos proporcionado um muito bem-vindo ressurgimentos dos Role Playing Games de origem nipónica. A qualidade média dos seus lançamentos subiu consideravelmente e com ela também a exigência dos jogadores ocidentais para com os mesmos. Com a oferta atualmente disponível, são preciso obras verdadeiramente especiais para se destacarem das demais, especialmente quando se tratam de novas propriedades intelectuais.

The Lost Child, obra da autoria da Kadokawa Games, é claramente um exemplo dos esforços que simplesmente não se conseguem mostrar à altura do acontecimento. Um Dungeon Crawler RPG com apresentação bem ao estilo de um Visual Novel, este título coloca-nos no controlo de um jornalista especializado em matérias do oculto que dá por si envolvido numa batalha entre o Céu e os demónios do Inferno. Enquanto o Chosen One numa missão de Deus, o jogador coloborará com um anjo para eliminar estas criaturas do Reino dos Mortais.

Como é óbvio, a missão não é tão simples como parece e, para além dos demónios, existem igualmente Fallen Angels, anjos que deixaram de seguir as ordens de Deus e habitam entre os comuns dos mortais, que têm também um papel importante no desenrolar dos acontecimentos. No papel, a trama de The Lost Child tinha sumo suficiente para oferecer uma história altamente cativante. Infelizmente, a sua execução está longe de ser a melhor e acaba por deixar o jogador mais confuso do que propriamente intrigado com aquilo a que vai assistindo no ecrã.

Não só não consegue entregar a sua narrativa de forma interessante e apresentar-nos convenientemente o seu mundo populado e batalhado por forças divinas, como também é incapaz de introduzir as suas personagens sem recorrentes a estereótipos já utilizados até à exaustão no género. Isto não significa que o arco narrativo não se torne mais apelativo à medida que as horas se vão acumulando ou que as personagens não ganhem mais profundidade à medida que as interações com as mesmas se vão sucedendo. Significa sim que quando tal acontecer, já a motivação para continuar a jogar poderá ter desaparecido.

Isto porque também na execução dos elementos fulcrais da sua jogabilidade existem demasiados problemas capazes de mitigar a experiência. Como já referi, The Lost Child é um Dungeon Crawler com exploração na primeira pessoa. Apresentando alguns traços óbvios de Shin Megami Tensei na forma como nos permite capturar demónios para depois usar em batalha, o jogo sofre de forma óbvia com as masmorras aborrecidas, pouco imaginativas, repetitivas, excessivamente longas e com puzzles desenxabidos que vão desde o desnecessariamente simples até ao ridiculamente obtuso.

O combate é, de longe, o seu melhor elemento, mas acaba por ser prejudicado pelos restantes defeitos da obra. Uma vez que as masmorras se arrastam durante demasiado tempo e os encontros com inimigos são aleatórios, torna-se quase inevitável que o próprio o entusiasmo do combate acabe por estagnar. O facto de ser extremamente fácil elevar o nível dos demónios que escolhemos para compor a nossa party para níveis bem acima dos inimigos que enfrentamos faz com que o único desafio surja quando enfrentamos um Boss.

Ao contrário do que sucede com o protagonista e com o anjo que nos acompanha, os demónios não sobem de nível através de pontos de experiência obtidos durante os confrontos, mas sim através de Karma largado pelos inimigos ou obtido nos poucos momentos em que o jogo nos pede para escolher uma opção de diálogo. Com diferentes habilidades, resistências e fraquezas, os demónios apresentam igualmente diferentes níveis máximos. Este nível pode posteriormente ser aumentado através do processo de EVILing que aumenta o potencial máximo dos demónios, em troca de um regresso ao nível de poder inicial.

Permitindo-nos definir os movimentos de cada elemento da party antes de cada turno, o combate mantém-se interessante até percebermos que a dificuldade raramente aperta, que os encontros aleatórios se tornam bastante irritantes quando estão a tentar resolver um dos puzzles obtusos de uma masmorra e que não existe real incentivo à troca de demónios na nossa party assim que nos é oferecida a possibilidade de transferir habilidades um demónio para outro. Essencialmente, estarão melhor servidos a manterem-se fiéis aos demónios iniciais, melhorando-os e complementando-os com diferentes habilidades de outros demónios entretanto capturados, do que a alterarem constantemente a vossa party.

Para além do progresso pelo caminho principal da campanha, The Lost Child conta também com missões secundárias que surgem sob a forma de rumores e fenómenos misteriosos que teremos de investigar enquanto jornalistas do oculto. Infelizmente, isto está longe de ser tão interessante como pode parecer. Basicamente, tudo o que terão de fazer é falar com pessoas nos locais relevantes para obter a informação que vos levará até uma das masmorras já exploradas para enfrentar novamente demónios. Não há nada de memorável ou de diferente nestes casos secundários, uma vez que o título nem sequer consegue tornar os próprios mistérios cativantes.

Também no departamento técnico a obra da Kadokawa Games está bastante longe de deslumbrar. A banda sonora será porventura o seu melhor elemento, sobretudo na forma como tenta dar um ritmo mais acelerado aos confrontos com demónios, mas o grafismo no interior das masmorras é incrivelmente datado. O facto das batalhas e dos diálogos serem apresentados ao estilo de um Visual Novel disfarçam um pouco o pobre estilo visual da obra, mas não o suficiente. Já a vocalização é, de uma forma geral, sólida, mesmo que tenha de proferir algumas linhas de diálogo questionáveis.

Como provavelmente já perceberam, The Lost Child não é claramente um RPG de excelência. A sua melhor componente - o combate - vê a sua profundidade ser desperdiçada e os restantes departamentos da obra são pautados por uma mediocridade que impedem a experiência de se tornar em algo passível de ser recomendado. Poderá ser capaz de matar a vossa sede por um Dungeon Crawler, mas não se conseguirá manter fresco durante as muitas horas necessárias para chegar até à sua conclusão.