por - Jun 3, 2021

The Magnificent Trufflepigs – Análise

The Magnificent Trufflepigs leva-nos a descobrir os encantos de itens enterrados no solo, como se a personagem estivesse a remexer o passado – não o seu, mas da sua co-protagonista. O nome da produtora, Thunkd, poderá não dizer muito, contudo, estamos perante uma aventura que conta com o talento de Andrew Crawshaw, que tem no seu currículo o cargo de designer principal de Everybody’s Gone to the Rapture. Terminado o jogo, nem tudo proporcionou uma estadia prazerosa.

Somos levados até à pacata vila de Stanning, na Inglaterra. Beth regressou à quinta da sua infância para desesperadamente procurar um item e, após vários convites falhados, vê-se a falar com Adam, tentando-o convencer a juntar-se à sua cruzada nostálgica. Quando era jovem, Beth encontrou um brinco e agora coloca toda a sua energia em desenterrar o item que completará o par.

O jogador veste a pele de Adam, aceitando o convite e começando por colecionar três itens: um detetor de metais, uma pá e uma colher de trolha. E estamos preparados para começar a “varrer” os vários campos da quinta, encontrando itens e mais itens, tentando a nossa sorte enquanto escavamos incontáveis enquanto esperamos que o solo seja generoso com a nossa persistência. Uma mapa indica-nos onde é que encontramos os itens, dando-nos uma sensação de exploração cumprida.

Contudo, The Magnificent Trufflepigs não apresenta qualquer desafio. Isto não seria necessariamente um problema, mas os processos da jogabilidade não são propriamente excelsos. Pressionamos um botão para ativar o detetor, o que faz com que Adam se desloque mais lentamente. Uma barra indica-nos visualmente e sonoramente quando estamos perto de um novo “tesouro”, bastando corrigir a trajetória do protagonista enquanto seguimos o pulsar que passa de verde a amarelo e a encarnado.

É verdade que alguns itens estão à superfície, mas são as excepções. O processo banal é usar a pá para desenterrar a oferenda da terra e, posteriormente, pressionar um segundo botão – ou gatilho – para usar a colher até que o item seja finalmente revelado. É um curto procedimento repetido até à exaustão. O jogo tem apenas algumas horas de duração, mas quando os créditos chegarem, a jogabilidade é um exercício maquinal, que não faz muito para manter o jogador totalmente investido.

Adam e Beth não estão no mesmo local, comunicando através de dois walkie-talkie. Após encontrar algo, independentemente do seu valor ou interesse, Adam tira uma fotografia com o seu telemóvel e abre uma linha de diálogo com Beth. Normalmente, isto leva a uma nova porção da conversa entre ambos. The Magnificent Trufflepigs apresenta algumas opções de diálogo, mas são momentos raros. Estas conversas são usadas para fazer o arco narrativo avançar, mas são também usadas diversas vezes para saltos enormes – com um objeto comum a despoletar uma memória profunda, rara.

Não ajuda que a estrutura temporal passe de rotineira a repetitiva. The Magnificent Trufflepigs está dividido por dias, com cada um a ter uma sessão de pesquisa na manhã, uma pausa para almoço, e uma segunda investida pelos campos durante a tarde. Diariamente, Beth pergunta se queremos parar e comer algo, sugestão que podemos rejeitar e continuar a bela arte de encontrar itens metálicos, apenas para minutos depois a bateria do detetor se esgotar e haver um corte para uma série de vistas atmosféricas enquanto os dois conversam dentro do carro de Beth.

É claramente uma decisão de design para a produtora não ter que lidar com modelagem de personagens, mas não faz muito pela imersão, pela ligação entre jogador e personagens. Se a jogabilidade está longe de ser memorável, o que levaremos connosco após terminar The Magnificent Trufflepigs é o seu argumento, ainda que o mesmo também apresente algumas falhas – particularmente, um final com intenção, mas que deixa também a sensação de chegar abruptamente.

Ao longo destas horas ficamos a saber a verdadeira importância que o brinco teve e tem na vida de Beth, o que lhe valeu quando era ainda uma criança, e como a vontade de encontrar o seu par é, na verdade, o bálsamo de coragem que precisa para continuar com a sua vida. A protagonista trabalha na Mudalot, empresa em que estão também o seu pai e a sua irmã, Lucy. Mais do que o peso da responsabilidade empresarial, Beth sente que está presa, raramente aproveitando os impulsos criativos da sua mente.

A jovem está também comprometida, tendo comprado um vestido e um anel para o dia especial; a jovem estava também imbuída na esperança que após este período, a felicidade estava a caminho. Talvez não. Com o passar dos minutos, as cenas via walkie-talkie e no interior do carro revelam-nos que esta estamos a ajudar alguém a encontrar-se, estamos afinal a ajudar uma mente e um coração a perceberem que talvez tenha chegado o momento de fazer as pazes com o passado e caminhar por uma nova avenida na vida.

São lembranças de momentos emocionais, caricatos; são lembranças que revelam, sem grande surpresa, que Adam e Beth têm também um passado partilhado. “Tu e eu. Apenas funciona quando estou num lugar mau. Quando os meus planos falham,” diz Beth a Adam. The Magnificent Trufflepigs não escorrega para terrenos do cliché fácil, não procura o final feliz que muitos certamente anteciparão desde os primeiros minutos. Não, o que a obra da Thunkd quer é ilustrar o momento em que a idade adulta chega, as decisões que tantas vezes fazemos para escamar o passado.

Há charme em algumas linhas de diálogo, há alguns momentos marcados pelas piadas trocadas amiúde. Há trechos de retrospecção existencial. Desde o walkie-talkie até à perspetiva na primeira pessoa e à paleta de cores, não é preciso muito tempo para percebermos que o pessoal da Thunkd jogou – e gostou de – Firewatch. Mas Henry e Delilah experienciaram algo que apenas a Campo Santo conseguiu edificar, pelo que se estão à espera de uma relação idêntica entre Adam e Beth, ficarão inevitavelmente com a sensação de uma proposta mais ligeira.

Escrever sobre a infância, sobre as verdadeiras intenções do núcleo familiar e suas repercussões, é algo nobre e que necessita de uma sensibilidade inestimável. Trazer essas memórias para o presente enquanto se tenta passar uma mensagem coerente, precisa ainda de mais naturalidade e da certeza que se vai desenterrar memórias de todas as estirpes. A escrita de The Magnificent Trufflepigs não é má, mas também não tem o talento para nos fazer sentir que mergulhamos sem quaisquer filtros nas vidas destas personagens.

O meu tempo passado com o jogo foi investido na versão PC com todos os parâmetros em “High”, o máximo que o título permite. Tecnicamente, o grafismo faz um bom trabalho ao ilustrar uma quinta bucólica, solarenga. Somos convidados a uma jornada pela encantatória primavera, com verdes até perder de vista – ou até que a vista encontre os edifícios rústicos de pedra ou as enormes turbinas de vento no horizonte definido pelas montanhas.

Não esperem texturas de luxo nem cenários pejados de detalhes, mas a Thunkd consegue dotar a sua obra com uma atmosfera coerente, capaz de nos encher os olhos com as diferentes representações da natureza, ladeadas por muros e por caminhos de terra batida. No fundo, The Magnificent Trufflepigs com a arte de Laura Dawes ilustra umas “férias” das personagens e um local onde certamente muitos de nós não se importariam de passar uma jornada contemplativa.

Na sonoplastia, os destaques são as prestações dos dois atores que dão vida aos protagonistas. Luci Fish empresta a sua voz a Beth e Arthur Darvill é o ator responsável pelo que ouvem Adam dizer. São competentes, especialmente nos momentos em que é necessária uma maior entoação. Quando estão a trocar piadas ligeiras são momentos em que a química é mais evidente, em que sentimos que estamos a assistir a uma reunião de dois amigos que não se viam há muito, mas que têm um chorrilho de momentos partilhados como base destes dias.

The Magnificent Trufflepigs não chegou a 2021 para ser uma das obras mais memoráveis do ano, mas não é um falhanço total, especialmente se gostarem de videojogos sem grande desafio para permitir o estudo das subtilezas narrativas. O encanto de sermos surpreendidos com objetos podia ser melhor nutrido e a escrita podia ter ido ainda mais longe, mas fica uma história sobre o salto para a vida adulta e como às vezes é preciso abraçar o desconhecido à procura de realização pessoal.

veredito

Sem oferecer um desafio ao jogador, The Magnificent Trufflepigs conta-nos a história de dois amigos que lembram o passado para encontrar um futuro mais alicante. Pelo caminho, teremos que encontrar inúmeros objetos enterrados nos campos de uma bucólica quinta em Inglaterra.
6 Cômputo geral da história. Atmosfera capta a melancolia. Jogabilidade torna-se maquinal. Escrita tem momentos aquém do potencial.

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The Magnificent Trufflepigs

para Nintendo Switch, PC
The Magnificent Trufflepigs

Lançado originalmente:

31 December 2021