Por norma, o VideoGamer Portugal coloca com frequência a menção à Nintendo Switch no título de análises de várias obras multiplataforma testadas na consola da casa nipónica. Fazemos isto não tanto pelo diferencial de poderio técnico em relação às restantes plataformas, mas sim porque tratam-se muitas vezes de relançamentos de jogos publicados há algum tempo noutros aparelhos ou até que já tinham sido analisados por nós aquando da sua estreia no mercado.

Com The Outer Worlds, no entanto, esta referência ganha uma importância bastante maior. Sim, trata-se de uma obra lançada primeiro no PC, PlayStation 4 e Xbox One que não tivemos oportunidade de analisar nesse momento, mas o fator de maior realce prende-se com a constatação de que a versão Switch do RPG da consagrada Obsidian Entertainment deixa muito a desejar, com demasiadas concessões técnicas que afetam de forma significativamente negativa a experiência de jogo.

Depois de várias adaptações bem sucedidas de jogos populares como The Witcher 3, DOOM e Skyrim, The Outer Worlds acaba por ser uma confirmação dolorosa das limitações técnicas da consola da Nintendo e da tarefa hérculea que é colocar uma obra construída de raiz para as plataformas mais poderosas da atualidade a correr em condições na Switch. No fundo, esta versão do título da produtora agora sob a alçada da Microsoft é uma sombra daquilo que é nos restantes dispositivos em que está disponível.

Por muito apetecível que possa ser a perspetiva de jogar um bom RPG fazendo uso da portabilidade do sistema, o resultado final é demasiado pobre para justificar qualquer recomendação. Acima de tudo, a versão Switch pode ser encarada como uma solução de recurso, isto é, se não têm um PC capaz de correr o título, nem uma PlayStation 4 ou Xbox One, então sim, talvez seja interessante a possibilidade de o jogar na consola da Nintendo. Tenham apenas a noção de que a obra é bastante melhor do que aquilo que vão acabar por experienciar.

É certo que um videojogo é muito mais do que um grafismo poderoso ou uma framerate imaculada, mas a verdade é que a extensão a que a Virtuos teve de limitar o departamento visual da obra para este lançamento resultou numa perda total de qualquer estilo visual e opções estéticas face às versões originais. Texturas de baixíssima resolução e fraca qualidade, cenários completamente desprovidos de vegetação, enfim, toda a vida e personalidade da obra encontra-se ausente nesta versão.

Os problemas estendem-se também para a ação. Tratando-se, de uma forma genérica, de um atirador na primeira pessoa, ainda que possam optar por privilegiar o combate corpo-a-corpo, os Joy-Con estão longe de oferecer o controlo fluido que se pretende de uma obra do género. Contudo, os principais problemas são efetivamente do foro técnico. Por um lado, a framerate é sofrível sempre que o número de inimigos no ecrã aumenta e a ação se torna mais caótica. Por outro lado, a baixa resolução faz com que muitas vezes seja difícil perceber o que está sequer a acontecer no ecrã, tal é o fraco nível de detalhe.

Com todo este decrépito exterior, é por vezes demasiado fácil esquecer que o seu interior esconde um bastante bom Role Playing Game, ou não estivéssemos a falar de uma obra assinada pela Obsidian, responsável por Fallout: New Vegas, Pillars of Eternity e South Park: The Stick of Truth. Rico em possibilidades, desde a forma como decidem construir a vossa personagem, focando-se em aspetos relacionados com o combate, com a exploração ou com a personalidade, The Outer Worlds faz um excelente trabalho em dar impacto às nossas decisões, seja durante as conversas com o elenco secundário, na abordagem às missões e nas escolhas que tomamos até à conclusão da campanha.

Apesar de Halcyon, a colónia espacial em que a história tem lugar, apresentar inúmeras fações, muitas das quais em oposição cerrada, os sistemas RPG são competentes ao ponto de permitir que a diplomacia e a chegada a um acordo entre as diferentes partes seja quase sempre possível. Contudo, mesmo quando esse confronto é inevitável, o jogo faz um bom trabalho em “vender-nos” as diferentes perspetivas para que tomemos a decisão que nos pareça mais acertada, basta para isso que explorem ao máximo as opções de diálogo das diferentes personagens que vão conhecendo pelo caminho.

Felizmente, a escrita em The Outer Worlds é excelente, o que torna as longas interações com personalidades distintas, e não raras vezes excêntricas, bastante mais interessantes. Sem nunca se levar demasiado a sério, a obra da Obsidian prima sobretudo pela utilização do humor autodepreciativo para dar uma maior vida a este mundo. Não é uma abordagem propriamente inovadora, mas resulta para provocar o sorriso no jogador e para contrastar de forma clara com as condições de vida desoladoras e impiedosas da colónia.

O próprio elenco secundário que pode compor a nossa party fornece igualmente algumas linhas narrativas de qualidade e inúmeras interações bem humoradas, consoante a forma que as decidirem combinar e os momentos da história em que, por vossa decisão, estejam presentes para oferecer as suas interjeições, frequentemente desagradáveis, durante conversas importantes sobre o estado e o futuro de Halcyon. As missões de lealdade não têm o mesmo impacto daquilo que vimos, por exemplo, em Mass Effect, mas ajudam a dar robustez a estes nomes que nos acompanham durante uma parte significativa da experiência.

The Outer Worlds é assim um bom jogo, um muito bom RPG minado de forma substancial pelas limitações técnicas da consola da Nintendo. Não é apenas visualmente pobre, é uma obra desprovida de vida nos seus cenários. Mas mesmo olhando para lá do grafismo, o desempenho sofrível sempre que a ação se intensifica é um lembrete constante de que há lugares muito melhores para se jogar o título da Obsidian.