The Quiet Man é um jogo fascinante, tal como é escrever sobre o novo jogo da Human Head Studios. Entre o conceito e a execução há um fosso tão grande, onde se nota claramente que aquilo que nos é dado a jogar está muito longe de surtir o efeito desejado pela concepção da obra. Na prática, estamos perante um título que desaba como um baralho de cartas em frente a uma ventoínha.

O primeiro ponto que devem saber sobre The Quiet Man é que é uma mistura de secções com atores e cenários reais e trechos com jogabilidade propriamente dita. Infelizmente para quem comprar o jogo, nenhuma das vertentes é razoável, falhando em diversos quadrantes e deixando o jogador confuso em certos pontos, aborrecidos noutros e frustrado em praticamente todos.

Reconheço a ambição da produtora querer fazer algo novo, porém, é a execução daquilo que nos chega aos sentidos que é mau. Vestimos a pele de Dane, um protagonista que é surdo e que parte numa viagem de redempção e de vingança. O quadro geral do arco narrativo não é nada de relevante, não faltando até vários flashbacks para tentar dar dimensão a Dane enquanto somos transportados para o seu universo.

O problema com a história de The Quiet Man é que, uma vez que o protagonista não consegue ouvir, a produtora achou que o jogador também não deveria ter esse sentido. É uma decisão nobre, especialmente se conseguir sensibilizar os fãs para as pessoas que têm que lidar com estas situações no seu quotidiano. O problema é que enquanto videojogo, a forma como isto é colocado em prática não funciona.

Percebendo apenas as linhas de diálogo como sons sem tradução, o jogador é deixado sem grande solução para verdadeiramente compreender o que se está a passar. É verdade que já foi confirmado que o jogo receberá uma atualização grátis que vai acrescentar som, mas no estado em que está, The Quiet Man não faz grande sentido e o final é simplesmente uma enorme chapada na cara de quem tentou perceber o que se passava.

Não interessa se a atualização vai revelar o verdadeiro final ou se tudo fará sentido depois da sua chegada. O facto é que o som só ficará disponível numa segunda passagem pela obra, ou seja, terão na mesma que jogar estas horas confusas, estas horas à espera que o final ate as pontas, estas horas até perceber que o final faz precisamente o oposto.

E se estão a pensar que as secções com jogabilidade propriamente são melhores, então podem parar de pensar isso. Quando não é um filme, The Quiet Man é um jogo de luta corpo-a-corpo. Não só os comandos são básicos (esquivar, ataque mais forte, ataque mais rápido, etc), como a sua implementação deixa a desejar, especialmente porque além de ser repetitiva - secções já na segunda metade com hordas e hordas de inimigos - a jogabilidade não é precisa.

O jogo só apresenta um vislumbre de alguma dificuldade contra alguns “bosses”, porém, a produtora conseguiu arranjar maneira de estragar essas sequências. Graças a uma Inteligência Artificial que rivaliza com uma pedra, os adversários não têm propriamente padrões de ataque, ou seja, isso aliado a comandos pouco precisos e à repetição acaba rapidamente por ser o decreto de uma jogabilidade bastante aquém.

Então e tecnicamente, The Quiet Man consegue redimir-se? O grafismo seria deveras impressionante se o jogo tivesse sido publicado na PlayStation 3. Mas não, o título foi analisado numa PlayStation 4 Pro, ou seja, o grafismo é fraco, desenxabido, sempre a patinar nos mesmos tons - o jogo decorre durante uma única noite, mas a diversidade podia e devia ser superior. 

The Quiet Man é também fraco na prestação dos atores e atrizes, que parecem estar a fazer um frete: nem mesmo quando há mortes e momentos fracturantes o elenco mostra verdadeiramente emoções, o que verdade seja dita aproxima The Quiet Man ainda mais de um campo bizarro, quase como se estivesse a gozar com os títulos FMV que foram chegando ao mercado há algumas décadas. Infelizmente, os sintomas desses mesmos jogos estão também visíveis em The Quiet Man.

É curioso como um jogo que dura apenas algumas horas consegue despertar tamanha estranheza, falhando em praticamente todos os pontos que fazem um bom videojogo e, ainda assim, sendo assinalável o risco que a produtora correu. Vou dar uma nova oportunidade à obra depois da mencionada atualização ficar disponível, mas para já esse risco não valeu a pena - The Quiet Man é estranho antes de ser simplesmente mau.