Nos últimos tempos parece ter havido uma ressurreição do género Full Motion Video (FMV) nos videojogos, com o caso mais recente a ser o descartável The Quiet Man. Uma das produtoras que tem estado na frente deste “movimento” é a D'Avekki Studios e, depois de The Infectious Madness of Doctor Dekker, agora é a vez de The Shapeshifting Detective.

Escrever que The Shapeshifting Detective é melhor do que The Infectious Madness of Doctor Dekker não é necessariamente escrever que estamos perante um bom videojogo. Como terão oportunidade de ler, a premissa é mais interessante e o próprio argumento é mais cuidado, porém, ainda são várias as falhas que não permitem que The Shapeshifting Detective seja uma obra facilmente recomendável.

Jogando as suas cartas desde muito cedo, a obra começa com o jogador a perceber que alguém morreu e que, sem grande surpresa, somos o escolhido para perceber quem é que matou Darota Shaw, uma talentosa artista. Contudo, o grande gancho narrativo chega-nos diretamente do título: podemos vestir a pele de várias personagens que vamos conhecendo ao longo da obra - com algumas a serem apresentadas com o passar dos capítulos para manter a trama fresca.

A maior porção do jogo decorre connosco a visitar os quartos de hotel onde estão alojadas as várias personagens, porém, é também possível chamar um táxi e falar com o chefe da polícia, com Oscar, o namorado da vítima, com Zak, o fotógrafo que tirou fotografias ousadas da vítima e até, por exemplo, com uma locutora de rádio que terá um papel mais importante do que o inicialmente previsto.

Para trocar de personagem basta visitar o nosso quarto e escolher de entre as personagens que temos disponíveis. É tudo muito básico e a própria jogabilidade não complica em nada os processos de The Shapeshifting Detective, aliás, o aborrecimento só não é ainda mais vincado graças à habilidade de trocar de personagens, pois permite várias formas de recolha de informação.

No cômputo geral, estamos perante um acumular de interrogatórios que dependerão das escolhas que forem fazendo, sendo que é também possível eliminar algumas das opções se acharem que a conversa flui melhor sem elas. Então, a mecânica de troca de personagens é útil porque permite-nos obter confissões e segredos que as personagens não contariam a Sam - é esse o nome da personagem quando não está no corpo das restantes.

Importa esclarecer que muito do arco narrativo que alimenta o mistério de quem é afinal o homicida assenta no facto de o hotel onde estamos alojados ser partilhado com um grupo que se dedica à leitura de cartas tarot - baralhos especiais e tabuleiros de Ouija incluídos - ou seja, há um núcleo que partilha segredos entre si, até porque o jogo faz questão de alimentar um “mistério secundário” sobre o que aconteceu em Birmingham antes do grupo chegar onde o jogo decorre.

É óbvio que levar as personagens a falar com o jogador pensando que estão a falar entre si é o grande fator que vai despoletar novas opções de interrogação, porém, depois da primeira hora e mesmo com a apresentação de novas personagens/personalidades, o ritmo da obra entre em modo cruzeiro e falha em captar a curiosidade do jogador ao ponto de se sentir o impulso para continuar a jogar até o final chegar - final esse que está dependente do vosso trajeto.

Isto é especialmente notório numa obra como esta, em que o jogador passa a esmagadora maioria do tempo a ler e a escolher. Aliás, isso é praticamente tudo o que há a fazer, com The Shapeshifting Detective a cair num ciclo em que os capítulos vão ficando para trás sem grandes memórias serem feitas. A estrutura, ou pelo menos a sua teoria, é interessante, mas a execução cai em várias armadilhas típicas do género.

Sendo um título FMV, claro que há uma palavra ou duas sobre a prestação do elenco, que verdade seja dita tem performances inconsistentes. Algumas personagens são apenas cinzentas, outras parecem caricaturas do que já vimos noutras propostas de entretenimento e outras são sólidas - tanto do ponto de vista da escrita como dos atores. Tal como já tinha acontecido em Doctor Dekker, quando os atores estão no seu pior, isso acaba sobretudo por retirar à escrita dos argumentistas, minando a mensagem a passar e, sem grande surpresa, fazendo a tensão e a intriga colapsar sem grande esforço.

The Shapeshifting Detective tem no entanto alguma diversidade graças a um elenco longo - e que vai aumentando com o passar do tempo. É também mais seguro na sua apresentação e ocasionalmente chega a proporcionar um vislumbre do que a produtora está a tentar fazer; chega a proporcionar um vislumbre de que a produtora parece estar a aprender a cada lançamento que vai colocando no mercado.

Investigar uma série de pessoas graças a um misterioso homicídio podia ser muito mais cliché do que acaba por ser e algumas das reviravoltas - será que é apenas um homícidio? - dão alguma esperança que eventualmente teremos um título FMV de compra obrigatória. Contudo, não é em The Shapeshifting Detective que vão encontrar esse título. De destacar que o preço não é exorbitante, pelo que se quiserem dedicar algumas horas a ler uma história num hotel situado numa pacata localidade que parece ter o chefe da polícia mais incompetente do mundo, vejam pelo menos o vídeo de lançamento.