Todos sabemos o poder da memória e o perigo que pode ser recordarmos algo de forma distorcida. A passagem do tempo tende a fazer isso, ajustando a seu bel-prazer lugares, as pessoas que marcam presença, e até os desfechos do que aconteceu anos atrás. The Shattering faz o seu protagonista lembrar-se, mostrando o poder e o sofrimento das memórias.

Desenvolvido pela Super Sexy Software, o jogo é o resultado do trabalho de “cinco amigos próximos”. O jogador veste a pele de John Evans, que vai mantendo conversas com um médico. São quatro atos e um epílogo que me demoraram aproximadamente quatro horas a terminar, vivendo os altos muito altos e os baixos muito baixos da vida de John.

The Shattering é uma obra na primeira pessoa, thriller por designação. Na prática, é uma ilustração de como todos nós somos o produto de vários momentos-chave que nos definiram, que nos conduziram até este momento nas nossas vidas. Consequentemente, o presente pode ser também o momento definitivo de quem seremos daqui a meses, anos, décadas.

O arco narrativo é então a grande aposta da produtora. Logo nos momentos iniciais, John lembra-se do hotel para onde foi tentar inspirar-se para escrever. Quase nada corre como planeado, incluindo a quantidade absurda de vezes que é interrompido. O final deste ato é a primeira indicação que The Shattering não chega ao mercado amanhã, dia 21 de abril, para contar uma história ligeira. Uma banheira e um caco de um espelho partido, é assim que o protagonista se lembra deste período da sua vida.

E esta parte não é a mais dolorosa - para John e para o jogador. Querendo “estabelecer uma verdade comum” com o protagonista, o médico pede-lhe memórias de um período anterior da sua vida - a sua infância. Estamos então no seu quarto. É uma casa que se transforma num orfanato. Sem estragar a surpresa, vale a pena destacar que a infância foi cruel para John, tanto pelos abusos dos seus colegas, como pela dureza dos professores.

Posteriormente, este sofrimento continua em evidência quando o protagonista tenta encontrar emprego. A esperança rara e um emprego que acaba por ser um sorvedouro para a sua criatividade mantêm a mente de John num buraco com muito pouca luz ao fundo do túnel. Na reta final, vale a pena acrescentar, The Shattering muda o seu argumento para passar a incluir memórias de um interesse amoroso. É um retrato que começa com as emoções calorosas de qualquer relação que está a começar quando as pessoas ainda estão na fase da descoberta.

Seria injusto descrever o que acontece com essa relação, até porque é a rampa que leva até ao epílogo, mas The Shattering tem um final que efetivamente faz o jogador encarar tudo o que jogou com outros olhos, escapando ao cliché que muitos certamente vão pensar que adivinharam a léguas. Praticamente todos os atos situam John num momento distinto da sua existência até então e todos mostram algo nutritivo para o jogador digerir a custo.

Do ponto de vista da jogabilidade, não há sustos fáceis nem desafios. Aliás, são processos que fazem quase tudo o que podem para sair do caminho e deixar o jogador a sós com a história. Na sua essência, somos convidados a interagir com os objetos espalhados pelos diferentes cenários, sendo uma obra com um ciclo de jogabilidade fácil de identificar e que quase nunca quebra o molde estabelecido bem cedo.

Chegamos a uma área e as portas são fechadas, com The Shattering a colocar o jogador precisamente onde quer. Há então uma lógica de interação para resolvermos o “puzzle” proposto. Explorar todos os recantos da divisão, encontrar objetos, usar esses objetos para fazer a exploração avançar. Por exemplo, encontrar pilhas para colocar numa lanterna que posteriormente vai iluminar uma tenda para descobrirmos um dos desenhos que John desenhou em criança para avançar a narrativa.

Nunca foi uma obra que retém o jogador durante muito tempo perante uma situação. Torna-se, todavia, um ciclo algo cansativo ao longo das horas. É verdade que há algumas quebras, como os testes de Rorschach, identificar a Austrália no mapa-mundi ou resolver uma equação matemática, mas são raros e espaçados. Outros detalhes: escrever uma história em que as personagens e atos saltam do monitor de John no seu trabalho, caminhar por entre os brinquedos que assumem um tamanho gigante, as diferentes escolhas que podemos fazer durante a aventura.

Como provavelmente já tiveram oportunidade de compreender pelas imagens que acompanham este texto, outra das particularidades de The Shattering é o seu departamento gráfico quase sempre ilustrado a preto e branco. Há excepções: os testes de Rorschach, a capa do jornal onde procura emprego, o ecrã que aparece no seu monitor, as pétalas espalhadas pelo chão quando John casa, ou o sangue que aparece em diversas cenas.

Esta escolha dá um tom próprio ao jogo e dá-lhe também o desprovimento de grandes alegrias, mostrando assim o desespero do protagonista. Há alguns cenários com bastante detalhe: itens espalhados pelo balcão, o quarto de hotel que vai progressivamente sendo destruído, o local do casamento. Todavia, nem todas as áreas receberam este polimento, o que permite experienciar trechos com texturas rombas e um grafismo que fica aquém no momento de detalhar os cenários que marcaram o protagonista.

Outra das falhas técnicas é a framerate. Por diversas vezes há quebras notórias. O jogo permite interagir com os objetos e com o cenário, assim como usarmos esporadicamente uma mecânica de Focus para vermos certos pontos com mais clareza, e a habilidade de correr. É precisamente quando estamos a correr e fazemos uma viragem brusca que a framerate mostrar não ter capacidade para aguentar todas as exigências do jogador.

Finalmente, fica uma nota para a sonoplastia e para o trabalho de vocalização. É uma amostra sólida, com o destaque a ser Andrew Wincott como Dr. W. Richards. O seu papel é importante porque guia John. Podemos discutir se usa os melhores métodos ou as melhores direções, mas Wincott consegue dar profundidade à personagem nos momentos em que está a liderar a narrativa. Não é um elenco muito grande e a prestação não será lembrada no final de 2020, mas não é por aqui que The Shattering treme.

Em última análise, o jogo alerta para a saúde mental e para as surpresas desagradáveis com que todas as existências, mais tarde ou mais cedo, têm de lidar. Não cede. Ou seja, faz o protagonista lembrar-se do seu inferno pessoal, mas não termina com um final feliz e ligeiro. Quem gosta de obras focadas na psique humana tem aqui uma proposta que não se limita a reciclar ideias; quem gosta da jogabilidade no centro de tudo, não encontrará em The Shattering um videojogo para mais tarde recordar.