Decorreram vários anos desde a última vez em que dediquei algumas horas de jogo à série The Sims. Tenho bem frescas na memória, sessões de jogo em que ficava absolutamente agarrado ao simulador da Maxis, evoluindo uma família inteira desde a flor da idade até ao canto do cisne, num único dia.

No processo, as peripécias aleatórias que o jogo escondia reservavam os momentos mais recompensadores, que redobravam a vontade de continuar a explorar todas as facetas do simulador. Desde incêndios gigantescos despoletados pelo colocar de uma carpete em frente da lareira, passando pelos ocasionais assaltos por bandidos munidos de armas extraterrestres, até ao prazer de ver a nossa personagem ascender ao topo da carreira e ter direito a um carro de luxo como transporte para o trabalho, The Sims sempre se mostrou magnânimo na criação de pequenos momentos de deleite.

Catorze anos volvidos desde o primeiro lançamento, creio que o sentimento que predomina depois de ter explorado esta quarta entrega é de que o charme inicial continua todo lá. Aquele conceito fenomenológico que nos faz querer continuar a jogar e a desenvolver determinada personagem e acompanhar a sua vida encontra-se no cerne de tudo o resto. É certo que se desenvolveu toda uma complexidade em torno dessa cúpula central, com os avanços tecnológicos a permitirem que a Maxis ofereça uma experiência que vai ainda mais além, mas é sempre bom saber que o fascínio original continua incólume.

A despeito de tudo isso, quem chega a The Sims 4 quer ver evolução e motivos para que a Electronic Arts volte a ter direito a aceder à carteira do jogador. Afinal de contas, é precisamente disso que se trata adicionar mais um numeral ao nome de um jogo de sucesso. Fazer mais e melhor, recriar novas situações e manter o standard de diversão que ao longo dos últimos anos tem garantido que este é um dos poucos videojogos que passa pelas mãos de muitas pessoas.

Caí no cliché de me recriar a mim mesmo através da componente de criação de personagens da obra. Confesso que, obviamente, já tinha passado por esta tarefa muitas outras vezes nas iterações anteriores, com maior ou menor sucesso, dependendo da inspiração e da paciência para explorar as opções de personalização. Conhecia o processo e as dificuldades que lhe estavam associadas, facto que serviu na perfeição para ser utilizado como ponto de comparação na altura de analisar as alterações feitas a esta vertente.

The Sims 4 passou com nota muito positiva esse primeiro teste. Graças a um conjunto de modificações feitas às mecânicas base dos menus de criação das personagens, fazer pequenas alterações ao molde do nosso Sim é agora muito mais fácil. Com alguns cliques e arrastos no ponteiro do rato, conseguimos alterar pequenas dimensões no corpo da personagem que está no forno, em vez de nos vermos obrigados a procurar num extenso leque de sub-menus.

Essa facilidade com que encontramos as ferramentas necessárias também se estende à construção do nosso futuro habitáculo. Ainda que eventualmente acabemos perdidos à procura de determinado objeto mais rebuscado - sempre tive um grave problema a tentar encontrar caixotes do lixo - na maioria das vezes as novas opções de pesquisa revelam-se um amigo à altura da situação.

Acedendo ao modo pessoal do jogo, temos o primeiro contacto com a nossa personagem recém-criada. Desde há muito que a Maxis nos dá a opção de configurarmos os nossos Sims no que ao foro psicológico diz respeito, qual Frankenstein a tentar dominar um Sim com clara tendência para criar distúrbios em todos os locais onde está. Creio, porém, que essas escolhas nunca tinham afigurado uma repercussão tão vincada como aquela que fui experienciando nesta entrega.

Para além da tendência natural de cada Sim, teremos agora que lidar também como uma variante relacionada com o seu estado de espírito. Esta disposição vai mudando em função de determinados eventos e tem consequências na realização das ações do dia-a-dia. No fundo, é apenas mais uma variável que temos de gerir caso queiramos tirar melhor partido das capacidades da nossa versão digital - escrever um livro com um "mood" inspirado trará muito melhores resultados para o autor, por exemplo.

No ambiente das tarefas diárias a rotina parece continuar igual ao que sempre foi. Não existiam adições significativas ao ciclo que conhecemos nos jogos anteriores, antes pelo contrário. As diferenças que mais facilmente se fazem notar passam pela ausência de alguns pormenores - a fase de crescimento dos Sims entre recém-nascido e criança é uma delas - que, apesar de não comprometerem o jogo, acabam por deixar jogadores como eu a questionar-se em relação ao sentido destas falhas.

Abrindo a porta e observando o mundo que nos rodeia, não tenho dúvidas de que o ambiente que envolve a casa das nossas personagens parece muito mais vívido. As ruas preenchem-se mais rapidamente com os passeios ocasionais de uns, ou com o jogging matinal de outros. A outrora imposta solidão técnica que nos obrigava a ultrapassar uma série de menus para conseguirmos visitar outras casas habitadas para além da nossa já não existe aparentemente, mas apenas são necessários alguns minutos para percebermos que se trata tudo de um pequeno engodo.

Como bom vizinho que sou, logo no primeiro dia em que me instalei fui cumprimentar os proprietários das casas do bairro na tentativa de fazer novos amigos. Infelizmente, foi com grande espanto que me apercebi que a tarefa de atravessar a rua e percorrer dez metros para entrar no quintal de um vizinho exigia que esperasse vários segundos enquanto o jogo fazia o carregamento do cenário. No fundo, as casas estão no ecrã, mas essa presença torna-se verdadeiramente obsoleta quando são separadas por paredes invisíveis que guardam menus de loading e fazem com que os jogadores percam a vontade de se movimentar dentro do seu bairro.

Essas visitas que deviam ser fomentadas graças à criação de condições para que se desenvolvessem da forma mais natural possível passam a ser evitadas. Apesar disso, a atividade social é compensada pela forma como todos os outros eventos no mundo se desenrolam, dando boas opções aos Sims com maior tendência para a vida social.

Esta é aquela parte da análise em que provavelmente já se estarão a perguntar sobre a presença de novidades positiva propriamente ditas. Pois bem, essa dificuldade em encontrar motivos dignos de figurar num parágrafo dedicado representam um dos maiores erros que a Electronic Arts cometeu em The Sims 4. Como já tinha referido anteriormente, a capacidade psicológica e emocional das personagens está efetivamente mais evoluída e permite que sejam criadas algumas situações fora do vulgar, mas não é algo que faça tanta diferença como a editora quis fazer parecer nas informações divulgadas antes do lançamento do seu jogo.

O multi-tasking com que os Sims estão agora dotados segue o mesmo caminho. É uma adição bem-vinda, mas na globalidade acaba por não fazer grande diferença para além de facilitar algumas ações e permitir que seja criada uma pequena dose superior de realismo. Pessoalmente, creio que a alteração que acaba por fazer maior diferença assenta na pedra basilar da componente visual, que mesmo em relação a The Sims 3 não sofreu um upgrade assim tão significativo, mas que acaba por se notar.

Não estou a exagerar quando digo que The Sims 4 se tornou aborrecido demasiado rapidamente. Ao fim de algumas dezenas de horas com o jogo, era impossível esconder a sensação de que esta não é muito mais do que uma rampa de lançamento que a Electronic Arts resolveu montar, como forma de preparação essencial para voos futuros. Desde há muito que a série vive das suas expansões e outro tipo de conteúdos transferíveis. No panorama atual, não é difícil compreender que esta mentalidade deve estar ainda mais presente nas mentes dos executivos que engendram todo o processo.

The Sims 4 é uma excelente opção para jogadores que nunca tenham tido contacto com a série da Maxis. Para todos aqueles que já tinham provado o mel de outras iterações, o número quatro vai parecer despido e desinteressante. Já vimos que é possível fazer muito mais e melhor, sabemos que essa experiência existe. E não é um visual com mais apreço que vai compensar toda esta sensação de estar a jogar uma versão vanilla.

Como disse nos parágrafos iniciais, a essência primordial de Sims continua lá bem viva. Faltam todos os outros motivos que garantem que os jogadores continuam entusiasmados com a experiência ao fim de várias horas. Com isso em mente, resta-nos esperar para ver o que é que a Electronic Arts tem guardado na manga, só tenho pena que não tenha incluído no pacote inicial mais uma boa dose desses trunfos.