por - Jul 17, 2019

The Sinking City – Análise

Na música “Amigos Mortais” dos Linda Martini é dito que “tivemos tempo para ser mais, roubar a carne dos chacais”. É um pouco esse o sentimento com que se fica The Sinking City, um jogo que tem tempo para ser muito mais, que podia roubar as atenções para si enquanto se afirmava um dos grandes títulos inspirados por H.P. Lovecraft.

A nova proposta da Frogwares, produtora responsável pelo desenvolvimento da série The Adventure of Sherlock Holmes, alonga-se durante vários dias, com o jogador à espera que chegue o desenvolvimento das mecânicas de jogabilidade e da trama. Mas quando se chega ao outro lado, será muito difícil sair-se com a sensação de uma aventura retumbante.

Vestimos a pele de Charles Reed, veterano na Primeira Guerra Mundial que está de visita a Oakmont, Massachusetts. Depois de terminado o seu tempo a servir o país, Reed tornou-se um detetive privado – ainda que os seus métodos de investigação, tal como é explorado no jogo, não sejam os mais convencionais. Os habitantes da cidade ficcional estão a ser fustigados, segundo uma carta de Van der Berg, por visões estranhas que ninguém consegue explicar.

Reed tinha sonhado com uma cidade submersa e com uma criatura aterradora de tentáculos enormes. Depois de receber a carta de Berg, não foi preciso muito para que o protagonista estabelecesse um paralelismo entre os sonhos que teve e Oakmont, local que está efectivamente a afundar-se. The Sinking City leva-nos a explorar este local enquanto participamos – e solucionamos – inúmeros casos de investigação, alguns dos quais secundários.

Desde o momento em que chegamos ao porto de Oakmont e somos recebidos por Van der Berg, a obra coloca-nos num emaranhado de casos para resolver, onde geralmente o atual termina no início do seguinte. Sem surpresa se tivermos em consideração o historial da produtora, a parte mais significativa da jogabilidade está inserida nas linhas com que são cosidas as investigações.

Há indícios que nos levam até o local onde a próxima investigação começa, deslocando-nos tantas vezes pela parte da cidade que já está inundada conduzindo um pequeno barco. Chegados ao local, há que passar em revista todas as divisões, interagir com todos os objectos, incluindo manipulá-los para em todas as direções enquanto os temos nas nossas mãos. O jogo avisa quando todas as provas principais foram encontradas numa determinada cena.

Quando esta investigação dá frutos, as pistas são adicionadas ao nosso Casebook. The Sinking City está melhor nestes momentos, especialmente na liberdade que dá ao jogador. Não só a área de jogo tem dimensões interessantes, como há locais onde podemos conduzir a nossa própria investigação, como por exemplo nos registos do hospital, da esquadra, da biblioteca ou da redação de um jornal.

Ocasionalmente, importa ainda acrescentar, é preciso fazer este trabalho para compreender onde é que o jogo nos quer a seguir. É uma liberdade apreciável, mas que não se consegue esquivar a alguns momentos de alguma frustração, quando julgamos ter feito tudo o que podíamos e a nossa lógica não está alinhada pela dedução que o jogo esperava de nós.

A obra faz um trabalho decente a colocar o jogador no sítio mental onde ele precisa de estar para chegar a estes avanços, mas basta a sucessão de algumas deduções erradas para que o ritmo quebre. É possível, porém, afixar pontos que julgamos ser importantes no mapa, tal como viajar entre cabines telefónicas depois de as visitarem pela primeira vez. São decisões que mitigam os trechos em que nos sentimos presos, mas não os resolvem de vez, algo que é francamente agravado pela ausência de um minimapa.

Mas voltando aos processos que alimentam as investigações, a grande diferença que torna Charles Reed um detetive tão especial é uma habilidade chamada “Mind’s Eye”. É uma habilidade sobrenatural que permite ao protagonista compreender melhor os eventos pretéritos, ilusões, presságios, ou seja, que aconteceram mesmo antes da sua chegada e que lhe dá, obviamente, uma enorme vantagem para apurar a verdade.

Enquanto jogadores, não têm que fazer muito para que a habilidade seja activada, bastando pressionar um botão. A contrapartida é que o uso da “Mind’s Eye” está intrinsecamente associado à sanidade do protagonista. Há um medidor no ecrã que indica o que está a ser usado, algo que é corroborado pela distorção e escurecimento dos cenários, ocasionalmente também pelo ataque de criaturas.

Também para ajudar a compreender o passado há outra habilidade chamada “Retrocognition”. Aqui temos espectros dos acontecimentos, sendo a nossa tarefa perceber qual é a ordem pela qual aconteceram. Depois de marcadas as diferentes cenas pela sua ordem cronológica, o jogo recompensa-nos com uma nova prova. Outras das mecânicas associadas à resolução dos casos dá pelo nome de “Mind Palace” e é aqui que podemos combinar aquilo que fomos aprendendo (provas e deduções) para chegar a conclusões definitivas.

Nem tudo resulta, como algumas das situações experienciadas através da “Retrocognition” serem demasiado fáceis de ordenar, mas é inegável que The Sinking City, graças à experiência acumulada pela sua produtora, apresenta cenas em que para chegarmos a uma conclusão temos que passar por diferentes camadas. Mesmo que na prática não resulte tudo na perfeição, até a forma como a pesquisa é feita na esquadra, biblioteca, etc, foi pensada para nos fazer sentir um detective, ao dar-nos o poder para fazer uma pesquisa assente em três parâmetros que funcionam como filtros e testam a nossa atenção ao caso.

Quando um jogo é publicado com uma temática tão próxima do mundo criado por Lovecraft, é expectável que os jogadores esperem confrontos memoráveis com criaturas que nos vão perseguir muito depois da consola ou PC terem sido desligados. The Sinking City tem efectivamente cenas com confronto direto, mas somos avisados que ocasionalmente fugir é a melhor solução. Quando ficamos e enveredamos pelo confronto, o combate propriamente dito é desenxabido.

O design das criaturas não é transversal na sua excelência e são confrontos que simplesmente não são memoráveis, sendo aliás notória uma falta de ambição e de polimento. Como a moeda de jogo são as balas, sente-se que a produtora não quer que o seu título seja um atirador, porém, se era para incluir um sistema de combate tão precário, talvez não fosse um erro simplesmente não inclui-lo de todo.

The Sinking City tenta fazer muito e acaba por não fazer quase nada verdadeiramente bem. Por exemplo, há também um sistema de crafting que nos permite criar armadilhas, munições, kits para recuperarmos energia, enfim, o habitual. Obviamente isto faz com que os jogadores se sintam na obrigação de passar a pente fino todo o cenário à procura de materiais como álcool, molas, metal, pólvora, etc. Na prática, porém, não é algo que acrescente nada de verdadeiramente inovador ou redentor a uma mecânica que parece ter sido incluída apenas para que a longevidade fosse maior.

Muitas destas atividades garantem experiência ao protagonista. Por sua vez, isto alimenta um sistema de habilidades assente em Knowledge Points que, como adivinharam, estão associados à experiência conquistada. Novamente sem acrescentar nada a sistemas deste género, podemos melhorar parâmetros associados ao combate, o vigor e ainda à mente do protagonista. Sente-se novamente a inclusão de uma mecânica já executada por inúmeras obras antes, sem fazer nada de verdadeiramente novo.

A escrita é razoável, incluindo os momentos que nos levam a escolhas morais e um esquema que nos deixa escolher de entre várias opções. A grande questão com a escrita e, consequentemente, com a história é a questão racial. Sempre que o jogo arranca, a produtora avisa que a obra “é inspirada pelos trabalhos de H.P. Lovecraft” e que “ilustra uma era onde as minorias étnicas, raciais e outras eram frequentemente maltratadas pela sociedade”.

“Estes preconceitos eram e continuam a ser errados, mas foram incluídos para uma ilustração autêntica daquele tempo, em vez de fazer de conta que nunca existiram”, é ainda declarado. O problema não é a autenticidade ou fazer esta escolha para evitar que a história seja alterada, mas sim a forma como algumas situações parecem estar no jogo mais para chocar do que propriamente para educar.

Ao longo de The Sinking City, o protagonista é frequentemente maltratado, enxovalhado, particularmente pelo facto de os locais o tratarem como forasteiro inequivocamente da forma mais depreciativa. Há mesmo a presença do Ku Klux Klan, ou seja, a produtora chama a palco temas importantes e que devem ser conhecidos, mas que devem ser usados para elevar a narrativa enquanto veículo informativo. A produtora proclama a sua coragem de incluir estes temas, mas esqueceu-se de fazer algo significativo com essa “coragem”. Mafia III, por exemplo, já o tinha feito há anos.

Tecnicamente estamos perante uma obra que consegue edificar um mundo de jogo interessantíssimo, com Oakmont a apresentar ruas e ruelas, fachadas de edifícios e uma atmosfera que nos levam até lá. Olhando para esta ficção à distância, as retinas vão-se demorando no cuidado que foi colocado ao serviço de construir algo coeso e que transmite em todos os momentos que pode fragmentos de uma sociedade em ruínas.

Infelizmente, o jogo estraga a pintura na modelagem das personagens, tanto nas texturas como na movimentação. As criaturas, já se sabe, ficam aquém, mas mesmo os intervenientes com mais tempo de antena precisam claramente de mais trabalho. Não ajuda que, além das faces humanas, o folclore de Lovecraft inclua também os já mencionados Innsmouthers e, por exemplo, Throgmorton, um aristocrata com traços de símio.

De notar ainda que há alguns erros técnicos e os tempos de carregamento são penosamente longos, mesmo com o jogo a correr numa PlayStation 4 Pro. A sonoplastia faz o que lhe compete, oferecendo uma vocalização razoável, que também não se escusa a alguns deslizes no que às entoações mais emocionais diz respeito.

Com The Sinking City, a Frogwares mostra o seu lado mais ambicioso e o desejo de algo mais do que fazer títulos Sherlock Holmes para sempre. Mas na tentativa de incluir mecânicas de vários géneros num mundo amplo – que sim, inclui algumas cenas subaquáticas que também deixam a desejar – está também uma tentativa falhada de entregar uma excelente obra de investigação ou uma excelente obra de ação na terceira pessoa. Fica a meio do caminho nos vários jogos que tenta incluir num único lançamento.

veredito

A Frogwares vai beber inspiração a vários géneros e aos trabalhos de Lovecraft para produzir The Sinking City. Infelizmente, o jogo não consegue ser excelso em nenhum dos seus parâmetros que não sejam as cenas de investigação - sem grande surpresa, a componente onde a produtora tem mais experiência.
5 Cenas de investigação e os métodos cognitivos que ativam. Mundo de jogo atmosférico. Inúmeras mecânicas, mas poucas executadas bem. Erros técnicos, tempos de carregamento longos.

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The Sinking City

para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

31 December 2018