por - Oct 19, 2018

The Spectrum Retreat (Switch) – Análise

Quem segue o que se passa na esfera indie, conhecerá certamente o nome Dan Smith, pois foi vencedor do prémio BAFTA Young Game Designer em 2016. The Spectrum Retreat é o resultado de vários anos de trabalho que não passou despercebido à academia britânica.

O título hoje em análise convida-vos a passar um dia preso numa repetição, ou seja, jogam sempre o mesmo dia, nem que este termine. A primeira impressão que tive foi que estava preso num mistério que tinha de resolver. Estava quase certo. O mistério resolve-se por si próprio, mas para que este caso se solucione temos que resolver quebra-cabeças na primeira pessoa. 

O nosso protagonista acorda num quarto de hotel, mas não é um hotel qualquer. Em Penrose Hotel, todo os funcionários são robôs, máquinas sem expressão física nenhuma, onde a pouca personalidade que transmitem é através da sua voz. Estes robôs são os manequins que vemos expostos nas montras das lojas de roupa, que têm no local da boca vários furos de onde sai o som da coluna que emite a sua voz monocórdica. 

É tudo muito estranho, acordar num hotel onde está tudo minuciosamente organizado. Dá a sensação de estarmos num museu com uma decoração art déco, onde decorre um mistério do qual não vemos lógica aparente. Por isso, a nossa curiosidade acaba por ser saciada com a nossa ação, pelo primeiro momento em que nos é dada uma direcção para nos encaminhar para diferentes destinos. 

Se esta situação inicial já não fosse estranha o suficiente, temos ainda um telemóvel pelo qual somos contactados por alguém que revela ser Cooper, uma funcionária da empresa que está a gerir a simulação em que nos encontramos. Por muita ajuda e indicações que nos dê, Cooper não nos vai dar uma solução direta, a saída daquele bizarro hotel vai depender totalmente da nossa capacidade de resolver puzzles. Afinal isto é um videojogo, tem de haver uma certa interacção. 

Ao longo da campanha vão desvendar factos sobre o passado do protagonista, sobretudo, a vossa identidade e quais as circunstâncias que vos levaram a acordar naquele hotel envolto em mistério. Estas revelações, na forma de memórias visuais ou escritas, aparecem espalhadas pelo hotel e em algumas divisões com puzzles. Portanto, fugir desta simulação, que se repete a cada vinte e quatro horas, não é um processo imediato. Há a necessidade, nem que seja para saciar a nossa curiosidade, de vermos as nossas questões respondidas. 

Cooper, a nossa ajuda vital para escapar ao hotel, vai nos levar para o elevador onde cada andar corresponde a uma série de desafios em forma de puzzle. Após a conclusão do primeiro puzzle, no dia seguinte, ou quando o dia recomeça, vão para o segundo andar. Depois vão para o terceiro e assim sucessivamente, até chegarem eventualmente ao último andar. Este título tem uma jogabilidade assente na troca de cores entre cubos que emitem luz. Coloquem a luz correta no cubo respetivo e ser-vos-á dada passagem para o caminho que estava previamente bloqueado. 

O jogo em si é complicado, não que seja difícil jogar The Spectrum Retreat, o que nos dificulta a resolução dos puzzles é descobrir a sua lógica. Há blocos luminosos que precisam de uma determinada cor para estes abrirem, finalmente, aquilo que estão a barrar. As cores funcionam quase como chaves, com interruptores que bloqueiam um lado para abrir outro. A dificuldade reside no “transporte” da cor necessária para nos abrir a porta. 

Esta fórmula é utilizada até à exaustão, com novos ingredientes adicionados ou retirados desta equação que faz variar a dificuldade, conforme o andar em que nos encontramos. Há blocos que retomam imediatamente a sua cor original após a termos retirado. Neste caso, se transportamos uma e trocamos num cubo deste tipo, perdemo-la definitivamente. 

O jogo não depende só de puzzles, mas também requer alguma exploração. É preciso saber seguir as indicações que nos são dadas para o próximo desafio, nada de difícil, pois a função principal é a de dar uma pausa à nossa massa cinzenta que pensa nas resoluções dos puzzles que nos são apresentados. Porém, é pena que não haja uma ligação forte entre estas duas partes: a exploração do hotel para a narrativa e a resolução de puzzles. A jogabilidade não serve para contar a história, mas para algo que um destes dois elementos não se sobreponha ao outro. 

Tecnicamente, o que mais ficou comigo o fim de cada sessão não foi o grafismo de um hotel que parece ter sido edificado e decorado por um mérchant d’art moderne nos “loucos anos vinte”, mas a vocalização. Cooper é uma mulher que entrega uma voz rica em emoções, mesmo sem nunca a vermos, ficamos sempre com a sensação que sabe mais do que aquilo que põe ou quer revelar. Amelia Tyler não vai ficar recordada como uma atriz de voz fenomenal, apenas porque o alcance mediático deste título independente não ser o mesmo como um daqueles que Nolan North, Troy Baker ou a veterana Jennifer Hale participaram.

Resumindo, está aqui uma boa história para apreciar que revela uma maturidade acima da média. O final revela-se uma decisão difícil de tomar, estamos na ponte da ambiguidade, onde a nossa interpretação de tudo o que nos levou àquele momento vai influenciar a nossa vontade de ir para um lado ou outro do encerramento do jogo. The Spectrum Retreat, por um lado, quer ser Portal, sobretudo na jogabilidade, por outro, quer ser uma narrativa dramática, sem aliar uma à outra.

veredito

The Spectrum Retreat é um bom jogo, mas quem não tiver paciência em resolver os seus puzzles vai sentir-se incapaz de apreciar uma narrativa bem construída.
7 Narrativa empolgante. Vocalização excelente. Narrativa e jogabilidade não têm nenhuma ligação entre elas. Encontrar lógica dos puzzles pode ser bastante difícil.

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The Spectrum Retreat

para Nintendo Switch, PC, PlayStation 4, Xbox One
The Spectrum Retreat

Lançado originalmente:

01 January 2018