Pedro Marques dos Santos por - Feb 11, 2019

The Stillness of the Wind – Análise

Resultado de uma parceria entre a Lambic Studios e a Memory of God, produtora de Where the Goats Are, The Stillness of the Wind é uma obra que foge claramente aos cânones da indústria dos videojogos, isto é, uma experiência que está muito longe da primeira imagem que nos vem à cabeça quando pensamos sobre a diversão que este tipo de entretenimento normalmente oferece. É certo que a inovação ao longo dos anos tem moldado aquilo que significa ser um videojogo, mas é ainda assim inegável que este é um título bastante distinto de tudo o resto que inunda o mercado.

Infelizmente, como muitas vezes é preciso recordar, ser diferente não é, nunca foi, nem nunca será sinónimo de qualidade garantida. Não quero com isto insinuar que este seja um jogo fraco, apenas de que o seu conceito louvável e interessante não se traduz numa experiência que se torna verdadeiramente cativante. Acima de tudo, The Stillness of the Wind tem na forma como capta a monotonia da rotina diária longe da azáfama da cidade uma das suas principais valências.

No entanto, mais do que transmitir uma sensação de solidão – que o consegue em certa medida -, paz e tranquilidade, a monotonia aqui representada é precisamente isso, um aborrecimento que faz com que o jogador acabe por perder o interesse nos eventos que vão sucedendo no ecrã. Isso é um problema porque um jogador aborrecido perde facilmente a motivação e o seu investimento, algo que se verifica quando o título se mostra incapaz de voltar a agarrar a atenção com momentos marcantes.

Descrito como uma obra contemplativa sobre a vida e a morte, The Stillness of the Wind coloca-nos ao controlo de Talma, uma avó que vive isolada na sua quinta depois de todos os habitantes de uma aldeia em tempos repleta de vida a terem abandonado para viver na cidade. Há claramente uma mensagem que o jogo tenta passar de forma abstrata – ou poética, se preferirem – sobre a dicotomia entre a vida no campo e a vida na cidade e, claro está, a associação da vida e da morte aos dois espaços.

Isso fica um pouco mais evidente através das cartas que Talma vai recebendo dos seus familiares, naquele que é o seu único contacto com o mundo exterior, e que se vão tornando cada vez mais estranhas, confusas e misteriosos. Porém, o pouco trabalho da obra para nos investir na vida das pessoas que assinam as cartas faz com que o fio narrativo que as produtoras tentam entregar através da mesma nunca resulte verdadeiramente e que acaba por dar ao título um tom algo pretensioso que não é recomendável.

Para além do acompanhamento das cartas que nos chegam através do vendedor ambulante com o qual temos curtas interações e com o qual vamos realizando a troca de bens – por exemplo, o queijo obtido do leite das cabras permite obter feno para as mesmas, assim como sementes para cultivar flores ou até mesmo vegetais se quiserem ter uma horta ou jardim na vossa quinta – , o resto do tempo é passado a realizar as tarefas do dia-a-dia.

Não há nenhuma ordem sobre o que devem ou não fazer, pelo que podem optar por obter leite das cabras para aumentar o stock de queijo, recolher ovos das galinhas, tratar do jardim, obter água do poço, explorar as redondezas para recolher cogumelos que lá se encontram ou interagir com objetos que despoletam a memória da protagonista. O vosso único entrave é a falta de luz solar, já que a lenta movimentação de Talma e a vontade de dormir dos animais limita as atividades que podem fazer em qualquer dia. Apesar da tranquilidade desta rotina, não demora até que essa paz e tranquilidade dêem lugar à monotonia e à incerteza sobre o que é deviam estar efetivamente a fazer.

Na verdade, a progressão é tão obtusa que terminei a minha estadia na obra sem saber se poderia ter prolongado a duração da mesma um pouco mais ou se poderia verdadeiramente evitar por completo os ataques dos lobos selvagens que ameaçam os nossos animais, ou seja, o mesmo é dizer que nos tentam roubar o nosso ganha-pão. É certo que há a possibilidade de obter mais galinhas e um bode para acasalar com as cabras para tentar evitar os prejuízos causados pelos lobos que têm de ser afastados a tiro de caçadeira, mas o jogo nunca torna claro a quantidade de bens que temos de libertar para realizar ou se estas decisões têm alguma espécie de efeito no desfecho da obra.

Numa obra com um ritmo tão lento e sem grandes momentos de rotura com a monotonia do mundano, tornava-se imperioso que o departamento técnico suportasse devidamente o ciclo rotineiro do dia-a-dia e a verdade é que o título não desilude neste aspeto. Isto é conseguido com um estilo esbelto que prima pela utilização da cor para pintar um bonito quadro desta quinta, mesmo quando a meteorologia não é a melhor. A banda sonora ajuda igualmente a contribuir para a melancolia da experiência, sendo partilhada com a sonoridade ambiente da vida numa quinta.

Desta forma, pode dizer-se que The Stillness of the Wind capta com sucesso a solidão do isolamento e a monotonia de uma rotina que se vai repetindo sem grandes sobressaltos. Infelizmente, fá-lo também de uma forma que deixa o jogador praticamente tão aborrecido como a própria protagonista, fazendo de nós, assim como de Talma, um espectador distante dos eventos verdadeiramente interessantes e entusiasmante que vão decorrer aos membros desta família que se encontram na cidade. Existem pontos para serem apreciados, mas não esperem que a obra desenvolva muito para lá daquilo que é nos seus minutos iniciais.

veredito

The Stillness of the Wind consegue capturar com sucesso a solidão do isolamento e a monotonia da rotina diária, mas isso não se traduz numa experiência capaz de preservar o interesse do jogador.
5 Belo estilo visual. Coloca-nos no mesmo estado de ataraxia da personagem. Progressão algo obtusa. Aborrecido com frequência.

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The Stillness of the Wind

para iOS, Nintendo Switch, PC

Lançado originalmente:

01 January 2018