Num mercado tão saturado de experiências similares e repetitivas, são raras as obras que se conseguem destacar pela implementação de novas ideias em fórmulas que já começam a apresentar alguma idade. Jogos que nos façam repensar os alicerces de determinado género e que aplicam uma nova camada de complexidade às bases tantas vezes reutilizadas não estão ao alcance de qualquer produtora, mas a verdade é que a Facepalm Games conseguiu essa proeza logo na sua estreia.

Na sua essência, The Swapper é um título de puzzles e plataformas como tantos outros, cujo principal é objetivo é testar o intelecto e a resiliência dos jogadores até ao seu limite. Este é um jogo que não pretende facilitar, de maneira alguma, o trabalho a quem tem o controlador na mão e não hesita em levar os mais fracos de espirito até ao desespero, pois acredita solenemente que a recompensa que oferece faz com que o esforço valha a pena.

Toda a jogabilidade da obra assenta no aparelho que recolhemos nos momentos iniciais da aventura. Um aparelho capaz de produzir clones do seu utilizador, permitindo também alternar rapidamente o controlo entre os vários clones e o protagonista. É graças a esta, aparentemente, simples mecânica que o título ganha a sua própria identidade e nos oferece algo único neste género de videojogos.

Em qualquer momento, o número máximo de clones que podem utilizar é de quatro, o que significa que no total terão cinco personagens idênticas e com as mesmas capacidades no ecrã: os clones e o utilizador do aparelho de clonagem. Apesar de o jogador apenas ter controlo total sobre uma das personagens, todas elas se movimentam em total sincronismo, ou seja, se moverem o clone que estão a controlar para a direita, todos os restantes também se vão movimentar para esse lado. No entanto, apenas a personagem controlada pode fazer uso do dispositivo.

Tudo o que foi descrito nos parágrafos anteriores é apenas a base de The Swapper, uma vez que é a maneira como o jogo nos desafia a utilizar as nossas habilidades perante novas e variadas situações que transforma toda a experiência num produto de excelente qualidade. Ao longo da sua campanha, o título vai implementando pequenas variáveis, como luzes que bloqueiam algumas habilidades, utilização de placas de pressão e mecanismos de inversão da gravidade, que evitam que em momento algum o jogador comece a ganhar confiança em relação ao que poderá estar na próxima câmara de teste.

Tal como já referi anteriormente, a obra da Facepalm Games é um jogo bastante difícil e que exige toda a concentração e capacidade de raciocínio do jogador em todos os momentos. A curva de dificuldade é, de uma forma geral, bastante satisfatória e regular, mas isso não significa que esteja isenta de picos súbitos que poderão perfeitamente provocar alguma frustração. Alguns dos puzzles têm resoluções um pouco rebuscadas que estão longe de serem satisfatórias. Felizmente, estes momentos são escassos durante as cerca de seis horas de duração da campanha e a maioria dos puzzles são excecionalmente construídos e transmitem ao jogador uma sensação de conquista após a sua superação.

Apesar de a jogabilidade ser de longe o foco principal de toda a experiência, a curta campanha faz-se acompanhar por uma narrativa que, embora subtil, apresenta uma profundidade que não é comum em títulos de plataformas. Os eventos de The Swapper têm lugar num futuro longínquo em que após a humanidade ter esgotado todos os recursos naturais da Terra, alguns postos de exploração são construídos em planetas distantes e desconhecidos.

Durante o período de exploração, que pode durar décadas, os cientistas vivem de forma totalmente independente do seu planeta de origem e estão por conta própria se algo correr mal. Uma dessas equipas de cientistas, denominada Theseus, é incumbida com a tarefa de explorar um planeta deserto com estranhos complexos rochosos, os Watchers, que parecem apresentar algum tipo de inteligência.

O que inicialmente parece ser uma simples, mas extremamente interessante história de ficção científica, rapidamente se transforma num título de reflexão sobre o que se significa ser humano e tudo aquilo que associamos à natureza humana, abordando não só teorias científicas, mas igualmente crenças religiosas e outros dogmas da nossa sociedade. Mesmo sendo apenas o acompanhamento da jogabilidade, prato principal de The Swapper, a narrativa da obra manterá por certo os jogadores interessados.

A grande maioria da história chega-nos através de diários de bordo que nos vão, gradualmente, oferecendo mais informação sobre tudo aquilo porque os cientistas têm passado para sobreviver, as suas descobertas e também as suas conclusões. Existem também breves cinemáticas e diálogos que conferem um maior impacto à narrativa, embora não sejam tão interessantes como a informação obtida através dos diários.

Graficamente, The Swapper é um título que vale sobretudo pela atmosfera de tensão que cria, seja através dos efeitos de luzes ou dos longos corredores desprovidos de qualquer tipo de vida. Os cenários não são tão variados como seria desejável, mas são competentes em recriar com grande detalhe uma gigantesca estação espacial e todos os componentes necessários ao seu funcionamento.

No que à sonoplastia diz respeito, a obra da Facepalm Games opta por uma via minimalista, utilizando apenas curtos e concisos efeitos sonoros espaçados entre si para ajudar a transmitir a atmosfera de tensão e desespero que se sente a bordo da estação. Nem sempre é necessária uma banda sonora complexa e trabalhada para acompanhar a experiência, uma vez que nada aumenta a tensão como a ausência quase total de som, sendo este título uma prova disso mesmo.

Lançado no ano passado para PC, a versão PlayStation 4 de The Swapper retém todos os elementos que tornaram a obra original tão especial e afirma-se, sem grande dificuldade, como uma das melhores experiências do catálogo da consola da Sony. Não fossem apenas alguns puzzles menos conseguidos e estaríamos perante um jogo a roçar o patamar mais elevado de todos. Ainda assim, este é um título que merece a atenção de qualquer jogador e que dificilmente desapontará os fãs do género.