The Thin Silence é uma obra com duas faces, uma obra cujas boas ideias são deixadas mal pela sua execução errática, uma obra no cômputo global interessante, mas que é atraiçoada pelos seus problemas técnicos, alguns dos quais podem causar danos irreversíveis na qualidade da vossa experiência com a mesma. Olhem para lá dos seus defeitos mais óbvios e encontrarão um jogo que faz por merecer a vossa atenção, especialmente se forem fãs do género em que este se insere.

Como nome indicia, The Thin Silence é uma obra caracterizada pelo falso silêncio, pelo silêncio audível, muitas vezes ensurdecedor, que atormenta os pensamentos daqueles que sofreram um trauma inimaginável ou cuja saúde mental está longe da perfeição. Guiando uma personagem de identidade desconhecida presa numas minas subterrâneas, o jogador será rapidamente confrontado com um protagonista com dificuldades em lidar com o sentimento de culpa que o domina e com as decisões que levaram à sua situação atual.

Desde cedo - aliás, desde o seu menu inicial - que a produtora Two PM faz questão de informar e avisar o jogador de que esta será uma aventura que abordará tema sensíveis ligados à saúde mental, pedindo-lhes que joguem a obra conscientes das suas próprias condições. Sim, The Thin Silence aborda com cuidado a psique de uma personagem em depressão e a história que se vai desvendando à medida que progredimos é interessante, mas não é entregue da melhor forma.

The Thin Silence é um jogo de puzzles e a sua história é igualmente entregue como se de um puzzle se tratasse, o que tem tanto de bom, como de mau. De bom porque significa que a nossa curiosidade está sempre a ser alimentada ao longo da aventura. De mau porque esta chega-nos muitas vezes de forma desconexa, uma sensação que se pode tornar ainda mais evidente se, tal como eu, tiverem tendência a ficar presos num puzzle durante mais tempo do que o recomendado.

A narrativa tem qualidade e a sua temática pesada contrasta com mensagem positiva com que encerra a aventura, mas a forma como nos é apresentada acaba por diluir um pouco o seu impacto. O título não parece importar-se com o facto de deixar por vezes os seus jogadores algo perdidos em relação ao que se passa e ao que têm de fazer, contudo, no caso específico da história, isso nem sempre é uma decisão acertada.

Já na jogabilidade, The Thin Silence é uma daquelas obras que nos faz sentir inteligentes sempre que desvendados a solução para aquilo que temos que fazer. Assente na criação e combinação de itens obtidos ao longo dos níveis para produzir as ferramentas necessárias para progredir - por exemplo, uma bota combinada com uma célula de energia permite produzir um bota capaz de transmitir energia a geradores com um pontapé, enquanto um gancho juntamente com uma corda cria um gancho fixante -, os puzzles testam acima de tudo a nossa capacidade para testar novas combinações e novas utilizações daquilo que têm à disposição.

Alguns itens, para além dos colecionáveis, são também utilizados como despoletadores da memória do protagonista, desvendando um pouco mais do seu passado. De uma forma geral, os quebra-cabeças desta obra são um ponto extremamente bem conseguido, nunca nos fazendo sentir como se estivéssemos a tentar combinações à sorte para tentar algo que nos permita ultrapassar aquilo que nos está a travar progressão. Podem chegar mais lenta ou rapidamente à solução, mas todas elas são lógicas e nunca rebuscadas.

Infelizmente, The Thin Silence pregou-me demasiadas partidas durante o meu tempo consigo. Primeiro deu-me a conhecer um bug que via a personagem cair para a morte sempre a save era recarregada, impedindo por completo qualquer tipo de progressão - felizmente, a produtora foi simpática ao corrigir a minha save para que o bug desaparecesse. Depois, já perto do final, estive mais de meia hora a tentar resolver um puzzle em que julgava estar a fazer algo de mal apenas para descobrir que se tratava de um bug que estava a impedir que um determinada ação tivesse o resultado que deveria ter. E como é que descobri isso? Porque o jogo crashou, obviamente.

Não sei quantos mais casos deste género estarão presentes na obra, mas é um facto que estes problemas técnicos me causaram vários desgostos e dores de cabeça, principalmente porque aumentaram artificialmente a duração da aventura e a tornaram bem mais cansativa do que esta deveria ser. Dito isto, os visuais altamente pixelizados produzem cenários interessantes, mas que pecam um pouco pela falta de diversidade. Já a música acentua o tom melancólico, sombrio e misterioso da experiência.

The Thin Silence é, apesar de tudo - incluindo a nota mais baixa -, um bom jogo de puzzles, cujos problemas técnicos acabaram por minar de forma significativa a qualidade do meu tempo com o mesmo. Obviamente, os problemas técnicos nunca devem ser desculpados ou verem o seu impacto na experiência menorizado, mas parece-me claro que este título sem eles seria uma obra bem mais cativante e de recomendação mais fácil. A narrativa tem bons momentos e boas intenções, mas a sua entrega estraga um pouco o seu impacto.