Pedro Marques dos Santos por - Aug 27, 2019

The Vanishing of Ethan Carter (Switch) – Análise

“Este jogo é uma experiência narrativa que não vos guia pela mão”. É com esta mensagem que iniciamos a nossa estadia pelos remotos e desertos cenários de Red Creek Valley, o pano de fundo desta aventura e palco do misterioso desaparecimento de um jovem rapaz, Ethan Carter. Mais do que uma breve descrição da obra em questão, a mensagem é um aviso ao jogador daquilo que o espera ao longo do seu tempo com o título, ou seja, um indicador claro da filosofia de design do estúdio The Astronauts para a sua investida neste género de videojogos.

Escolhi essa mensagem para começar esta análise porque essa opção de design tem efetivamente efeito claros na forma como esta pode ganhar ou perder o vosso interesse em diferentes momentos. Por um lado, a inexistência de um percurso linear e de fácil leitura traz consigo um claro incentivo a uma exploração a seu bel-prazer por parte do jogador, com a possibilidade de progredir na aventura ao seu próprio ritmo. Por outro lado, essa falta de orientação pode facilmente fazer com que se sintam perdidos em alguns momentos, pouco seguros se estão a seguir o caminho certo ou se deixaram algo por fazer nos locais já explorados.

É certo que podem e provavelmente terão que regressar a espaços já explorados para ativar o final do jogo, mas a incerteza que fica connosco quando sentimos que podemos estar a perder algo, prejudica claramente uma experiência que pretende que o jogador se perca – não literalmente – nos seus cenários e que a sua peculiar narrativa o mantenha focado na investigação ao desaparecimento de Ethan. Adicionalmente, este fator faz também com que uma obra que, por si só, já seria marcada por um ritmo lento, possa ver essa característica inata de experiências deste género ser ainda mais exacerbada.

The Vanishing of Ethan Carter coloca-nos na pele de um investigador que após receber várias cartas do jovem rapaz a descrever os eventos que se iam desenrolando em Red Creek Valley, decide partir em busca de o encontrar. Chegados ao local, somos recebidos por um silêncio que tem tanto de suave como de arrepiante. Desde cedo ficamos com a sensação de que algo não está bem, que a vida parece ter abandonado este espaço e que os seus cenários dominados pela natureza escondem algo sombrio por detrás dos ambientes pitorescos.

Ainda antes da narrativa começar a ser desvendada, o título capta a nossa atenção pela beleza daquilo que coloca no ecrã. Mesmo jogado numa Nintendo Switch em modo portátil e com óbvias concessões ao nível da fidelidade visual, a obra de The Astronauts é absolutamente deslumbrante. A atenção ao detalhe na construção de um local esteticamente coeso, a utilização inteligente de uma diversidade de cores que tornam o espaço mais credível e os elementos que tornam percetível a noção de que estamos perante locais anteriormente habitados são fundamentais, não só para criar ambientes belos e agradáveis de se explorar, mas também para lhes conferir a atmosfera correta para acompanhar o desbravar da história.

Por sua vez, a narrativa destaca-se pela forma como alimenta o mistério que está no centro do seu arco narrativo. Através da interação com objetos presentes no cenário, o protagonista será capaz de encontrar vários textos – histórias, mais concretamente – da autoria de Ethan Carter e também de analisar e organizar cronologicamente os eventos que levaram ao destino final de vários elementos da família do jovem desaparecido. 

A forma como experienciamos a materialização destas histórias antes de encontrarmos o texto que a contextualiza confere um elemento quase sobrenatural à aventura, algo que é fortalecido pela capacidade do protagonista para recriar os acontecimentos macabros com base naquilo que obtém da análise do cenário. No fundo, temos uma narrativa que não tem apenas a resolução de um mistério a servir como o seu principal fio condutor, mas também nos faz chegar as respostas às perguntas que levanta de forma igualmente misteriosa.

Essencialmente, The Vanishing of Ethan Carter vive de e para esse mistério, o que significa que a sua capacidade para reter a atenção e, mais importante, a curiosidade do jogador é o seu maior trunfo para a entrega de uma experiência que perdure na mente daqueles que o jogam. O seu final poderá não ser unânime, mas revela coragem da produtora e acaba por solidificar muitas das suas opções de design. 

Mesmo com a possibilidade de deixar os jogadores perdidos sem saber aquilo que lhes escapou para fazer avançar a narrativa, o jogo da The Astronauts é uma oferta bastante interessante num género que já viu muitas obras de excelência e também muitas obras desapontantes chegar ao mercado nos últimos anos. O seu mistério e a forma como é apresentado são suficientemente convincentes para que o título cative e um departamento técnico excelso, apesar das limitações de estar a correr numa plataforma menos poderosa, tornam a visita a Red Creek Valley bastante apetecível.

veredito

Assente por completo na exploração e na sua narrativa, The Vanishing of Ethan Carter é uma oferta interessante no género em que se insere. Com um mistério cativante e cenários lindíssimos, o jogo peca por uma progressão obtusa e um ritmo bastante lento.
7 Cenários bonitos e atmosféricos. Mistério alimentado de forma inteligente. Progressão obtusa. Ritmo lento, mesmo que não se sintam perdidos.

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The Vanishing of Ethan Carter

para PC, PlayStation 4, Xbox One

As a detective with the supernatural ability to visualize scenes of lethal…

Lançado originalmente:

15 July 2015