É uma dança no escuro, claro. Não me refiro aos zombies que infestam todos os metros quadrados e atacam para dificultar a travessia para lados sem destino, mas sim dos sentimentos que também não sabem para onde ir. Estamos em 2016, estamos numa época que mencionar mortos-vivos pode ser facilmente associado à saturação e ao bafiento; escrever sobre The Walking Dead poderá certamente pôr muitos leitores a questionarem-se com um compreensível “outra vez?”; um chover-no-molhado “outra vez”.

Não escrevo sobre a série de televisão que há pouco terminou a primeira parte da sétima temporada, mas sim de The Walking Dead: The Telltale Series – A New Frontier, o regresso da produtora norte-americana à sua principal propriedade intelectual depois de um muito divisivo Michonne, minissérie sobre a qual podem ler aqui. Ou seja, podem continuar a história de Clementine, sendo possível continuar o arco narrativo que deixaram em suspenso no final da segunda temporada – no meu caso, com a protagonista sozinha com o pequeno AJ na altura.

Imagens Analise The Walking Dead A New Frontier

Ou seja, não é a primeira vez que a Telltale faz isto, factor que se sente praticamente desde o arranque de A New Frontier. O elenco é praticamente todo novo, salvando-se pouco mais que Clementine para aquela entrada em cena que fará as delícias dos fãs que há muito esperavam o momento. Sente-se praticamente desde o início o limar das arestas, com uma estreia focada, que claramente pega no que melhor funcionou no passado e alicerça sobre ele. A produtora sabe, tal como os fãs, que quem começa uma nova temporada de uma The Telltale Series, fá-lo pela escrita e pelas subsequentes escolhas.

A estreia é feita com um episódio, Ties That Bind, dividido na Parte I e na Parte II. Depois de ter terminado tudo o que há disponível, noto claramente uma preocupação em apresentar um elenco que, apesar de novo, conquiste o investimento do jogador antes do final da estreia, pelo que quando os créditos aparecem no ecrã pela última vez em 2016, muitos ficarão contidamente desesperados à espera do terceiro capítulo. Clementine, a protagonista que todos querem ver, amadureceu na série – que fez passar na ficção tanto tempo como o que passou pelos fãs que estiveram à espera nas suas vidas –, regressando uma adolescente que viu e fez muitas tragédias durante o seu crescimento; Clementine, está uma mulher feita pelas circunstâncias, portanto não esperem aquela miúda que nunca foi.

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O protagonismo tem agora que ser dividido com Javier, que se estreia na série. De forma hábil, a equipa de argumentistas arranca a terceira temporada retrocedendo os ponteiros até à génese da epidemia zombie. Javier faz parte da família Garcia e é visto como o irmão mais novo que errou na vida, atrasando-se para a morte do seu pai logo no arranque de A New Frontier. David, o seu irmão mais velho, revela-se o macho dominante, não tendo problemas em dar-lhe a soco tatuagens de sangue pisado na cara; David não demora muito, através da escrita e das escolhas que podemos fazer enquanto vestimos a pele de Javier, a afirmar-se como uma besta precoce.

Sejamos francos: não é fácil esquecer um elenco com nomes como Lee, Kenny e Christa. A Telltale sabe-o perfeitamente, tendo aprendido com um elenco secundário menor em Michonne. É por isso que Javier está bem desenvolvido, tomando conta da sua família, tomando conta de si próprio por um caminho que inevitavelmente se cruzaria com Clementine. Olhem para a dupla, tão desconhecidos que eram e agora líderes da narrativa de A New Frontier. Pode parecer uma mudança abrupta, mas essa família, além de David, é também Kate, a sua mulher, e Gabe e Mariana, os seus filhos. Com um estalar de dedos, o jogo avança o tempo, mas a cena inicial ecoa. O jogador importa-se porque são crianças num mundo que não deveria ser deles, agora cuidadas por um Javiwe que se vai revelando algo mais do que a desilusão familiar que tentou e falhou estar presente na morte do seu pai.

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A primeira parte do episódio é mais forte do que a segunda, mas o cômputo geral funciona bem em uníssono, levando-nos a descobrir o que significa o subtítulo A New Frontier, ou melhor, a saber que são um grupo de indivíduos temíveis, que estão no lado mais sortudo de uma arma. O que são capazes de fazer será contado nos restantes episódios, mas claro, sendo The Walking Dead, adivinham-se que não sejam bafejados pelo signo da bondade. Podemos escolher o que quisermos, mas há dois momentos nos episódios inesperados: o final do segundo episódio, que atesta a mesclagem da qualidade do argumento com o lado comercial – “obrigando” a compra do terceiro episódio – e uma morte que dificilmente alguém adivinhará.

Uma morte entre várias, algumas das quais a comando das nossas escolhas. Notam-se algumas melhorias no departamento técnico, mas o aspecto desenhado das personagens é o choque face à violência que vai passando pelo ecrã. Os zombies estão lá também para serem aniquilados, para darem um grão violento à obra. A jogabilidade continua nos mesmos moldes, ou seja, pressionar no comando as indicações que surgem no ecrã; porém, há alguns ajustes que servem para dinamizar os procedimentos e para apresentar uma ou duas cenas guturais, dinâmicas e empolgantes. A combinação entre botões de rosto e entre o deslizar dos analógicos está boa e recomenda-se.

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Este reformular técnico serve para apresentar cenários interessantes, como Prescott, uma cidade construída numa pista de aviação abandonada. Luzes adornam o cenário, sente-se uma estética apocalíptica como em Fallout ou em Rage. Sente-se que a série está mais próxima de 2016, mas isso não a torna imune a alguns soluços técnicos, nomeadamente o congelar da imagem durante vinte ou trinta segundos, o suficiente para me levar a pensar que o jogo tinha encravado. Não esperem uma revolução técnica, antes uma evolução que, apesar de dar um tom mais plástico à modelagem das personagens, apresenta também mais pormenores, cenas com uma estética mais complexa.

A escrita, a escrita neste patamar que não cairia mal no cinema ou na televisão, é alicerçada por prestações vocais interessantes. Reparem, ao longo de duas horas – que me pareceram muito menos – a maioria das cenas são de sofrimento e de agonia, de perda e de reencontros – ou seja, não estamos a falar de uma estreia que exige uma prestação tépida dos actores, estamos quase sempre a navegar por uma narrativa de extremos, que chegam ao fundo do poço ou às nuvens por intermédio da forma como este elenco entrega as suas linhas de diálogo.

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É uma dança no escuro, claro. Os zombies estão aqui para provocarem sofrimento e a urgência, mas o cerne da estreia de The Walking Dead: The Telltale Series – A New Frontier são as emoções de humanos como os que jogam. As perdas e as reviravoltas, o argumento que vos apanhará desprevenidos, as escolhas, está tudo aqui. É um cenário sombrio, uma realidade que não poupa na tristeza sedimentada e justificada. Quem gostou do desenvolvimento da Telltale até aqui não vai ficar desiludido com a estreia da terceira temporada, queixo caído e relógio vertiginosamente acelerado em direcção ao final.

Em Céu em Fogo, Mário de Sá-Carneiro escreveu: “Ainda se, ao menos, o não suicidar-se lhe evitasse a morte…”. É isto, então. É esta morte por todo o lado, condensada e acelerada por intermédio dos zombies, mas que no fundo representa a nossa finitude. The Walking Dead é a morte e a tristeza e o desespero, a diferença que tudo fará pela mão destes zombies, a rapidez do processo para ser entretenimento, mas que é o nosso osso, a nossa humana falha para a escolha, para perdermos quem amamos, para ganharmos a revelação do desconhecido. Tem falhas, nomeadamente o formato episódico que nos deixará à espera durante semanas e alguns falhanços técnicos, mas é competente.

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Quando acabamos uma obra digna de espanto, uma daquela estirpe que oblitera o mundo à nossa volta, sair dela é regressar com um olhar diferente ao quotidiano. Em The Last Guardian, saímos do videojogo para abraçar o nosso cão ou gato. Os bons livros e os bons filmes fazem-nos querer ser mais abraços e beijos. Um gosto muito de ti, pai ou mãe ou irmã ou irmão ou avô e avó. A New Frontier continua a tradição do entretenimento nos lembrar que somos estes humanos com tendência a isolar o amor e a dor. É cliché e lamechas, mas aquele mundo em ruínas está cheio de personagens memoráveis; protagonistas que falharam o adeus à morte e o olá à novidade. Ah, é ficção, pensarão. Sim, mas é o toque no extremo que impulsiona o jogador, lhe dá as cavalitas para lá chegar a meio do fim ou antes que o início seja continuidade.