The Walking Dead é atualmente um dos mais populares universos no mundo do entretenimento. Começando pela mão de Robert Kirkman como uma banda desenhada focada na sobrevivência da humanidade num mundo pós-apocalíptico assolado por mortos-vivos, o seu mundo desolador e impiedoso rapidamente encontrou sucesso semelhante no pequeno ecrã e também, graças às mentes criativas da Telltale Games, nos videojogos.

Depois de uma primeira temporada que apanhou meio mundo de surpresa e que foi premiada com inúmeros galardões para a melhor obra do ano em que chegou ao mercado, a pressão para a próxima iteração da série episódica era enorme e, ao contrário do que havia acontecido com a aventura protagonizada por Lee Everett, a segunda temporada esteve desde o seu anúncio no radar dos jogadores que tentavam perceber se a produtora seria capaz de conseguir repetir o nível qualidade atingido com os primeiros cinco episódios.

Embarcar novamente no mundo de The Walking Dead é, desde os primeiros minutos, sinónimo de momentos de tensão palpável, surpresas emocionalmente desagradáveis e relações difíceis em que as diferenças são momentaneamente colocadas de parte, uma vez que a cooperação é essencial para a sobrevivência de todos os elementos do grupo. A verdadeira natureza humana revela-se nos momentos de maior adversidade e a nova temporada da série foca-se decisivamente nesta premissa.

Clementine já não é uma criança para ser protegida e escoltada por Lee Everett, mas sim uma jovem sobrevivente moldada pelas circunstâncias que a rodeiam e por experiências passadas. É neste aspeto que a segunda fornada de episódios da saga se diferencia da original, pois se anteriormente existia um objetivo claro para o jogador - proteger Clem a todo o custo -, agora a narrativa não tem nenhum percurso linear óbvio. Permanecer vivo é o objetivo, seja qual for a situação.

Assumir o controlo da jovem rapariga que anteriormente era, para todos os efeitos, mais uma companheira de viagem de Lee, representa um novo desafio para quem pega no comando. Devido à sua ainda tenra idade, sentimos que estamos verdadeiramente a moldar a personalidade de Clementine à medida que esta vai crescendo. Se com o anterior protagonista éramos forçados a tomar decisões sempre com o bem-estar de outra pessoa em mente, agora apenas somos obrigados a nos preocuparmos com nós próprios.

Isto significa que as decisões e ações da nossa protagonista serão sempre resultado da sua vontade e personalidade. Um exemplo disso mesmo é a sua capacidade para manipular quem lhe é estranho, fazendo-se passar por uma jovem indefesa através da expressão de tristeza habitual em crianças. A cordialidade para com aqueles que nos tentam atacar com palavras afiadas é também atirada pela janela fora quando temos que fazer a nossa voz ouvida e ganhar o respeito do novo grupo.

De uma maneira geral, todas as personagens introduzidas na nova temporada são bem exploradas e têm o merecido tempo de antena para ganharem a profundidade devida e estabelecerem uma relação sólida, não necessariamente agradável, com a personagem principal da aventura. Podem não ser tão memoráveis como o elenco secundário dos capítulos anteriores, mas isso pode ser facilmente explicado pelo maior foco dado a Clementine.

Apesar de um início lento com um primeiro episódio que falha em estabelecer um arco narrativo forte e em apresentar o novo grupo, estes problemas são rapidamente corrigidos nos episódios seguintes graças a uma maior interação com as personagens secundárias e ao aparecimento da primeira verdadeira ameaça à segurança de Clem e dos seus companheiros.

Quando tudo parecia bem encaminhado para uma temporada de crescente intensidade, o ritmo volta a abrandar significativamente para um episódio que serve essencialmente como elo de ligação entre o terceiro e o último capítulo da aventura. E é neste último episódio que a Telltale revela mais uma vez a sua mestria, entregando múltiplas situações de intensidade brutal e jogando com as nossas expectativas de uma forma que a série nunca antes tinha conseguido fazer. Para além disso, ao contrário da primeira temporada, esta conta com vários finais diferentes que resultarão de momentos de decisão muito complicados.

O sucesso de The Walking Dead deve-se em muito ao brilhante trabalho de escrita dos argumentistas da Telltale e, se em alguns momentos os níveis de intensidade parecem ser excessivamente baixos para uma série sobre sobrevivência, é o diálogo que consegue manter o jogador interessado e investido nas relações que Clementine estabelece com as restantes personagens. Em nenhum momento estas tomam decisões que não sejam verdadeiras às suas personalidades e motivações, sendo essa a principal razão pela qual os elementos do elenco secundário são, aos olhos do jogador, pessoas reais.

Claro que a escrita não teria o mesmo impacto se a sua entrega não fosse suficientemente credível pelos atores que dão voz às personagens. Desempenhos sólidos e repletos de pequenas nuances são indispensáveis para conferir emoção e importância às palavras que preenchem o guião e neste aspeto a qualidade permanece elevadíssima. A banda sonora é também utilizada com inteligência para elevar a tensão e pronunciar ainda mais o tom emocional de determinadas situações.

A principal diferença de jogar The Walking Dead nas consolas da nova geração prende-se com o seu desempenho técnico, elemento que tantas dores de cabeça deu aos jogadores, sobretudo nas consolas da anterior geração. Os soluços técnicos que a que as obras da produtora nos têm habituado estão totalmente ausentes na versão PlayStation 4 do título e isso resulta numa experiência bastante mais fluída e agradável.

A segunda temporada de The Walking Dead é mais uma prova do talento da Telltale Games para construir narrativas complexas, intensas e emocionais, oferecendo liberdade de escolha para o jogador moldar o protagonista a seu bel-prazer. Ainda assim, a nova vaga de episódios é feita de altos e baixos que fazem com que não consiga atingir de forma consistente a qualidade da aventura de Lee Everett. Julgando os cinco episódios como um todo, estamos perante um título de grande qualidade que finalmente corre sem problemas nas consolas.