The Walking Dead colocou a indústria dos videojogos em rebuliço. Não foi a obra de estreia da Telltale Games, contudo, cada episódio da primeira temporada foi conquistando fãs, críticos e, sobretudo, fez com que a obra de Robert Kirkman fosse falada além da banda desenhada e da televisão.

Quem acompanhou Clementine pela mão de Lee; quem testemunhou os desígnios e desaires deste leque de personagens, enfim, quem viu os créditos rolarem no final de "No Time Left", quinto e último episódio da primeira temporada, faz parte do leque de jogadores que não conseguiram ficar indiferentes.

Depois de ter sido publicada em várias plataformas, a primeira temporada de The Walking Dead chegou à PlayStation 4, ou seja, é a desculpa perfeita para reabrir uma ferida que se julgava cicatrizada. São curiosas as partidas que a nossa mente nos prega: depois de ter jogado os episódios aquando dos seus lançamentos originais, estes últimos dias fizeram-me terminar o quinteto novamente, além de 400 Days, o episódio bónus que também está incluído.

Obviamente, lembrava-me dos momentos mais marcantes, contudo, viver tudo isto novamente fez-me perceber dos pormenores que, pelos vistos, têm mais importância do que lhes dei na altura. Ter oportunidade de jogar tudo seguido provou ser a melhor maneira para o fazer, ou seja, detalhes, pormenores linguísticos, piadas recorrentes, estados de espírito, tudo está mais vivo, mais aceso na nossa memória.

Por outras palavras: há uma continuidade que a fragmentação dos lançamentos originais não permite. Serviu também para gostar com mais motivação de certas personagens, tal como odiar com mais vigor quem não gostei na primeira rodada. Kenny, por exemplo, consegui ver laivos na sua personalidade que me tinham passado despercebidos, tal como testemunhar com mais atenção a sua mutação com os desenvolvimentos de Katjaa, sua mulher, e Duck, o seu filho.

Mais: os locais - visitas e regressos - soam mais a casa, dentro do que é possível chamarmos "casa" quando este mundo e estas vidas são apenas ruínas de si próprias. A farmácia dos Everett ou, muito mais tarde, a "Mansão", por exemplo. É fácil apontar o dedo aos "vilões" dos episódios - acho que não há grandes dúvidas sobre o comportamento do grupo que gere a quinta no segundo episódio, sim, aquela onde é servida, provavelmente, a refeição mais memorável da primeira temporada.

Contudo, ter o quinteto de episódios ao alcance do cansado ritual "só mais um episódio, só mais um, prometo que é só mais um" acaba por deixar mais vincada a opinião sobre personagens que despoletam sentimentos oscilatórios - Ben, esse grandessíssimo incompetente; ou Larry, o pai de Lilly. É difícil explanar os sentimentos sem estragar a surpresa a quem ainda não jogou, porém, que se diga que agora é mais fácil ou difícil concordar com os acontecimentos que vão marcando as suas presenças no jogo.

E o final, bem, o final continua a ser tão fervente como a primeira vez que o testemunhámos. Lee, o guardião improvisado de Clementine não tem a vida minimamente facilitada e os dois últimos episódios são a confirmação da coragem da produtora - mesmo que muitos tenham ficado irados com o final, os argumentistas não podem ser acusados de não terem andado no fio da navalha.

E por falar em argumentistas, a escrita é, indubitavelmente, o ponto alto do jogo. Tanto que não é nada complicado memorizar partes dos diálogos, não é difícil fecharem os olhos e lembrarem-se do final do quarto episódio, das traições e dos votos de confiança - por momentos é praticamente possível sentir que aquelas personagens tem muito mais vida do que aquela que vocês controlam.

Lee continua a ter que guiar Clementine por um mundo infestado de zombies, contudo, jogado desta maneira é possível assistir com mais clarividência ao crescimento de Clementine, passando da frágil e desprotegida personagem que aparece na casa da árvore até inverter os papeis, sendo a franzina de cabelo encaracolado e chapéu a carregar Lee, graças à simbiose entre protagonistas, graças ao desabrochar feito à lei das agruras daquela vida, enfim, são os dois guiados pela mestria dos argumentistas.

Não esperem encontrar na versão PlayStation 4 novidades. É verdade que os problemas técnicos estão quase todos sanados, contudo, ainda é possível encontrar segundos em que as personagens olham de olhos arregalados para o vazio. Ainda assim, depois de dois episódios praticamente sem soluços técnicos, é fácil jogar o resto com mais confiança sobre a estabilidade técnica.

Mas as melhorias gráficas sobre as versões já publicadas são praticamente inexistentes, tal como é alguma funcionalidade exclusiva da consola da Sony. É uma compra facilmente recomendável caso nunca tenham experimentado o jogo da Telltale. Se têm uma PlayStation 4 e vontade de experimentar um dos jogos cimeiros dos últimos anos, esta é a versão indicada. Caso já o tenham feito nas inúmeras plataformas anteriores, dificilmente valerá a pena novo investimento.

A nota que provavelmente já viram é referente ao jogo propriamente dito. Como tal, é uma vitória da arte de contar histórias: escrita apurada, personagens com profundidade, diálogos apaixonantes e escolhas extremamente difíceis. Quando terminei o jogo pela primeira vez fiquei impacientemente à espera da segunda temporada, tal como agora aguardo pela terceira. À vossa, Lee e Clementine.