"Foi apenas um pesadelo, pequena ervilha." São estas as palavras que nos motivam a lutar permanentemente pela nossa sobrevivência num mundo em que esperança e segurança são meros conceitos teóricos, cuja aplicação desde há muito deixou de fazer sentido. Não, não é apenas um pesadelo. É a dura realidade com a qual Clementine tem de lidar durante dias, meses e anos.

O universo de The Walking Dead não tem salvação possível, mas o mesmo não pode ser dito do que resta da humanidade. Ver o bom que existe dentro de cada um de nós, mesmo nos momentos de loucura e insanidade, permite concluir que o mundo pode estar acabado, mas isso não significa que todos os aspetos positivos da natureza humana estejam também perdidos.

Esta é a forma como a minha jovem protagonista encara o dia-a-dia. No entanto, quando os créditos começarem a rolar após duas horas inesquecíveis, a vossa estrela principal da segunda temporada da série episódica poderá observar o que a rodeia de maneira muito diferente da minha. Nunca as palavras, "A história é guiada pela maneira como jogam", tiveram tanto significado num episódio produzido pela Telltale Games.

No Going Back, capítulo final da segunda temporada de The Walking Dead, começa no preciso momento em que o episódio anterior havia terminado, ou seja, com a tensão a atingir níveis extremamente elevados e em que tudo pode correr mal numa fração de segundos. Mais uma vez, a talentosa produtora agarra com mestria os jogadores pelo colarinho e deixa-os com os nervos à flor da pele logo no primeiro minuto.

O pico de intensidade inicial é seguido depois por um abrupto abrandar de ritmo que se prolongará até à meia hora final. No entanto, se em Amid the Ruins este desacelerar não trouxe nada de muito relevante em termos narrativos, o momento de tranquilidade desta entrada oferece algo que a temporada ainda não tinha apresentado verdadeiramente.

Pela primeira vez, somos presenteados com um momento de total descontração e relaxamento, duas palavras que muito dificilmente voltarão a ser aplicadas neste universo, do grupo de sobreviventes que acompanha Clementine. Por breves momentos conseguimos ver resquícios do que estes indivíduos, cada um deles com personalidades distintas, eram antes do seu mundo ter sido virado do avesso e o único objetivo de vida ter passado a ser a sobrevivência.

Sorrisos rasgados, gargalhadas e a "inocência" da jovem protagonista funcionam em conjunto para que todas estas personagens passem de meros companheiros de viagem e sobreviventes a amigos reais com os quais simpatizamos e nos preocupamos. Claro que toda esta sequência serve apenas como um momento de calma antes da tempestade e não demora muito até que sejamos relembrados dos perigos que estão à espreita ao virar de cada esquina.

Quando a intensidade volta a aumentar novamente, o capítulo final desta temporada nunca mais para de nos surpreender até ao momento em que os créditos começarem a rolar pelo vosso ecrã. Atreveria-me a dizer que No Going Back foi o primeiro episódio da série em que senti verdadeiramente que tudo podia acontecer e isso deve-se, sem dúvida, à mestria com que a Telltale joga com as expectativas do jogador.

Ao contrário do episódio que encerrou a temporada protagonizada por Lee Everett, a entrada terminal da segunda temporada conta com várias decisões de impacto gigantesco na maneira como a aventura será concluída. Sim, existem vários finais significativamente distintos que são consequência direta das vossas escolhas momentos antes. Todos eles são satisfatórios e fieis às personagens à sua própria maneira e dificilmente deixarão o jogador desiludido com a conclusão da saga.

Claro que nada disto seria possível se a escrita e o trabalho de voz não fossem absolutamente excecionais, mas esses são dois aspetos em que a produtora nunca defrauda as expetativas. Ficar indiferente à emoção com que todas as linhas de diálogo são entregues é impossível e não fiquem surpreendidos se, tal como no final da primeira fornada de episódios, deram por vocês com uma estranha acumulação de água no canto do olho, pois isso apenas significa que acabaram de experienciar algo verdadeiramente especial.

Ainda assim, não estaríamos perante um jogo da Telltale se não fossemos presenteados com os habituais soluços técnicos que nos acompanham desde o início da série, embora nunca prejudiquem de forma notória a experiência. O estilo visual inspirado na banda desenhada permanece fiel ao que a produtora nos habituou e a banda sonora marca presença para fortalecer ainda mais o tom emocional de momentos chave do episódio.

A segunda temporada de The Walking Dead tem tido os seus altos e baixos e pode não ter conseguido a mesma regularidade que a sua antecessora apresentou, mas, felizmente, a sua conclusão afirma-se como o momento mais alto não só da temporada, como de toda a série. Decisões com enorme impacto, emoções à solta, nervos à flor da pele e finais adequados a cada uma das nossas escolhas são aquilo que torna este episódio fantástico, enquanto os seus alicerces, a escrita e o trabalho de voz, permanecem sólidos como nunca.